Foto: Mfor Matthijs
Compreender a arte brasileira como resultado metabólico de um país jovem que, de forma natural, buscou características específicas em uma perspectiva continental com base em movimentos de misturas étnicas que, por sua vez, dialogaram através de intercâmbio de identidade, mesmo sob a orientação colonial e ponto de vista do sentido de universalização, não impediu que a afirmação de que a arte nacional brasileira é a principal portadora e transmissora da cultura herdada da consagração e interfecundação espontânea das três escolas estéticas.

No entanto, sob a orientação da pedagogia dominante, insiste-se em desumanizar a arte e carrega-la de uma lógica a partir da mecanização laboratorial na tentativa de reproduzir no Brasil, através de técnicas de ensinamentos, um ser social distante do conceito de coletividade, utilizando princípios que dão ao ser, além da característica individual, também mecânica de cidadania neo-européia.

É sobre essa pauta que debruça, no Brasil, a antropologia orientadora de caminhos que certifiquem a arte como um fenômeno isolado, sem sofrer interferência das próprias realidades brasileiras. Os fatores de tempo, de raça são eliminados quando da busca pela eficácia da intelectualização que tem como princípio a autonegação.

Este modelo que privilegia a contribuição européia mais do que a natural receita brasileira, tenta nos afastar artisticamente do Brasil negro, indígena, fazendo crer, como medida de excelência num histórico de civilização a partir da universalização européia, sobretudo branca, uníssona, de dissonância unilateral. O que, naturalmente, sob a ótica racial que acompanha a mesma lógica idéia cultura pagã x a doutrina edificadora de cultura, e com isso estimula a inquisição de organismos vivos e múltiplos da sensibilidade do cidadão mestiço que é caracterizado como patrimônio brasileiro por sua forma de expressão.

A idéia inversa que propõe o caminhar da sociedade através da ferramenta de transformação cultural está focada na subjugação da arte sob o olhar dos mercados, propondo um marco zero e estabelecendo o pastichismo de aculturação neoliberal nas relações interpessoais, traçando com isso uma política de descontinuidade, um paralelismo que anula a natural abordagem crítica em prol do mergulho em resultados pragmáticos, buscando a construção da cidadania artificial carregada de planos, metas, grifes e logomarcas, enfim a cultura como ferramenta mais de marketing do que de produto., mas agregando valor artificial à idéia única e vertical de civilização absolutamente impossível de se alcançar, já que a primazia obedecerá aos critérios, acima de tudo, da dinastia psicológica da Europa, expansionista por tradição e colonizadora por exercício de metas.

E é sob essa planilha que se expandiu as novas formas de mercado cultural que nos chegaram através das leis de incentivo os novos pilares institucionais das fundações, institutos, instituições públicas ou privadas,de cultura transformaram-se em lojas de departamentos, ou melhor, em rede de magazines culturais e seus conseqüentes tigers de controle de qualidade, numa leviandade sistematizada com a arte e o artista nacional.

Esse fordismo técnico, científico, informacional que propõe um movimento desigual na criação de uma nova tecnosfera produz uma geografia brasileira cada vez mais concentrada, perfilada em torno de uma modernidade mórbida homogeneíza a psicosfera e todos os fundamentos típicos da globalização de costumes propostos a partir de modelos de cidadania frequentemente encontrados neste ambiente de curral cultural.

O que se observa é que tais modelos são migratórios, em grande parte, da recessão global do grande mercado do entretenimento. O empobrecimento que este fenômeno laboratorial nos impõe com políticas industriais de cultura é signatário da globalização e da subordinação ao mercado, o que confere a ele um novo papel, o da destruição natural do equilíbrio na psique coletiva da unidade de sentimentos que forma o pacto federativo.

Em território brasileiro, as novas formas de sistema da engenharia e tecnicização da cultura expandiram-se a partir da idéia da técnica organizacional da arte por sistema, tendo como locomotiva as orquestras sinfônicas, os balés clássicos e as bienais de arte contemporânea.

Num primeiro plano, a acessibilidade física a esses espaços e políticas é nenhuma frente à realidade do homem-povo. A assembléia a que se propõem as políticas do novo mercado cultural é extraída da engrenagem mitificadora e supressora, artificializa o conceito de erudição, num projeto que expele os próprios criadores pertencentes a essa sociedade. Então, o resultado não poderia ser outro senão o que estamos assistindo, ou seja, ao invés da discussão crítica da arte pela criação através do laboratório humano, uma produção em série de alienígenas ao seu próprio universo, numa obediência sistematizada na formatação de um ideário técnico e mecânico na produção, não da criação, mas da clonagem artística da sociedade que tem acesso a essa nova indústria da cultura hegemônica.

Não há dúvida de que muito do oxigênio desse movimento centralizador e desorientador, sem os aportes proporcionados pelas leis de incentivo, sofrerá um colapso. Assistimos então, através da grande mídia, a insurreição de pequenos, porém potentes ataques de grupos dominantes contra a reforma da Lei Rouanet.

Há uma guerra campal no setor cultural. De um lado o Ministério da Cultura assume agora um papel, podemos dizer revolucionário na busca por ações concretas em prol do povo brasileiro, mais eficaz tecnicamente, mais próximo do cidadão comum e de pequenos produtores e gestores, mas, sobretudo assumindo o papel de principal entidade representativa dos anseios da cultura determinada pelo povo. Do outro lado dessa cruzada, o vício, a imagem da contradição do neo-feudalismo, do requinte de sobrenomes, das irmandades sanguíneas, dos pactos corporativos das confrarias ocultas.

Logicamente que neste meio rotulado, o resultado é uma seqüência perturbadora de agentes alheios à realidade cultural brasileira e, sobretudo, uma construção estratégica que tem a cultura como modelo de supressão usado, no Brasil, para ampliação de espaços específicos como parte do plano de manutenção do domínio de pesados grupos internacionais.

O Brasil, sem sombra de dúvida, está diante de uma nova alvorada, não de patriotismo xenófobo aos moldes da Europa cada vez mais protecionista, obtusa e egocêntrica.

O Brasil como sempre foi no seu cotidiano, fundido em uma só raça, em um só sentimento, mas não do regionalismo, do provincianismo urbano ou rural, não da geografia continental de um neo-europeu, de um neo-africano ou de um neo-indígena, mas o Brasil da unificação do sentido mais completo de nação com seus naturais sotaques, um país múltiplo, porém único na linguagem emocional, de diversidade ampla e propositiva, sem muros e cercas, com código central que faz com que nós brasileiro tenhamos a sensação de estar verdadeiramente em nosso país.

Portanto, podemos sim afirmar que, mais uma vez, a soberania da nossa cultura dribla as adversidades, usando o jargão da malandragem produtiva que repete a prática dos velhos e deliciosos personagens das antigas zonas da malandragem brasileira que, nesta luta contra a navalha que quer nos fragmentar como sociedade, usa como antigamente nas bandeiras das escolas de samba e, na lapela a seda dos lenços para cegar a navalha do inimigo.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

5Comentários

  • Leonardo Brant, 2 de junho de 2009 @ 11:48 Reply

    Carlos, sua análise é primorosa. Até o ponto que divide o campo em dois lados. A coisa é muito mais complexa que isso. Esse é o jogo do Bush: ou vc está comigo ou é meu inimigo. Esse é o discurso do nosso ministro: quem é contra o Profic é contra a diversidade cultural. Papo furado. Eu não caio nessa. Não sou massa de manobra.

    O MinC não faz nada de revolucionário. Eles estão perdidos. Não sabem o que fazer com a Lei Rouanet, simplesmente porque não entendem essa complexidade. Não lidam, tampouco dialogam, com quem usa a lei. Quer você goste ou não, a Lei Rouanet é responsável por viabilizar 3 mil projetos por ano, a grande maioria de pequeno porte (65% até R$ 200 mil). Isso é quase tudo o que se financia na cultura brasileira pelo lado federal. Se somar todo o resto que o MinC distribui via editais não dá nem a terça parte disso.

    O ministério já fez de tudo para assumir o controle do mecenato. Muda regras a todo instante, cria burrocracias indecentes, tudo para atrasar a vida do produtor, e nada. O mecanismo continua vivo, crescendo, se fortalecendo, contra os movimentos retrógrados do ministério.

    Como um bom dono da bola, resolveu parar o jogo. Essa é a dita revolução. O discurso deles seria perfeito se não estivessem no poder. Eles estão ali para propor soluções, alterar as dinâmicas e não colocar a culpa no mercado, nos produtores, nos “artistas consagrados”, nas empresas. Isso é de uma irresponsabilidade fora do comum e o preço disso quem paga é o setor cultural.

    Esses 3 mil não são privilegiados, são sobreviventes de um mercado cruel e pouco desenvolvido, com regras impostas pela realidade neoliberal. Os privilegiados são minoria, pouquíssimos. Há mecanismos para detê-los, sem bravatas demagógicas. Quem opera a lei sabe disso.

    Essa classe de políticos que tomou o MinC não tem qualquer compromisso com a vida artística brasileira. Isso tudo não passa de um teatro engana-trouxas, com o objetivo único de dividir o setor, para reinar absoluto sobre um reduto de miseráveis, que é o que nós somos.

    Revolução de verdade nós precisamos fazer ao revelar as máscaras por trás desse discurso vazio e oportunista, pois só visa a manutenção no poder, pois tenta compensar uma legitimidade que não existe.

  • Carlos Henrique Machado, 2 de junho de 2009 @ 17:21 Reply

    Você tem toda razão Leonardo. A coisa, em termos de complexidade, tem um gigantismo que otimiza cada vez mais por esta mesma pauta. Espero que eu consiga escrever no próximo texto esta característica do século XXI que inverteu a ordem dos fatores, onde a arte passa para um plano secundário frente ao mercado e, a partir disso, toda o pensamento se multiplica a partir dessa inversão, potencializando a divindade do mercado. A idéia de que o show não pode parar, é uma das mais desastrosas do deste século. ela é o subtítulo da desumanização da arte pela lógica meramente do lucro.

    A arte que é um produto da cultura, não pode pode ser um subproduto da ética nas relações humanas. Acho que a grande ilusão é a supressão dos sentimentos humanos em prol de uma idéia percentual, monetarista. Isso é que levou tantos desequilíbrios que se transformaram em verdadeiras muralhas das relações interpessoais.
    Grande abraço.

  • Alexandre Reis, 8 de junho de 2009 @ 14:56 Reply

    Caros companheiros,

    Quando será que irão acabar as discussões desse primeiro ato e delas surgirem os patrocínios? Eles existem ou nunca existiram de fato? Desculpas a parte, eu sou novato.

  • Maria Alice Gouveia, 13 de junho de 2009 @ 10:12 Reply

    Caro Carlos Henrique:

    Você, tão defensor da sabedoria dos dirigentes culturais” tão confiante na capacidade dos ocupantes de cargos públicos em atuar na defesa dos artistas brasileiros mais autênticos, a saber, aqueles esquecidos pelo “belzebu” mercado, como interpreta a fala do ministro Juca Ferreira em declaração à Folha de São Paulo de hoje, em que ele defende a aprovação do show de Caetano Veloso, afirma que vai rever o parecer da CNIC, que segundo ele foi injusto, já que o Minc não tem nenhuma vocação para “irmã Dulce” ou “Madre Teresa” – vocação essa, eu presumo, de ajudar os pobres, não? – ou seja, justamente aqueles que você aponta como esquecidos do mercado ? Gostaria de saber sua opinião sobre essa declaração. Um grande abraço, Maria Alice Gouveia

  • Carlos Henrique Machado, 17 de junho de 2009 @ 0:58 Reply

    Oi Maria Alice

    Desculpa, não tinha visto o seu comentário, pois ando numa grande correria atrás dos pirulitos e mariolas. Não vejo assombração em mercado, ao contrário, o mercado é que vê assombração em artista. Por isso tentou ele mesmo criar o seu artista com massinha de modelar ou durepox, não sei. Passou o século XX, principalmente depois da guerra e do projeto expansionista dos eternos colonizadores travestidos de todas as formas e ficaram nesse lero-lero administrativo, construindo aquela visceral mentira conceitual para, daí em diante, espalhar bulas pela mídia que comia o milho em suas mãos carregadas de ovos da galinha de ouro e foram assim inventando um treco doido que alguns chamam de mercado. Desculpe o termo, Maria Alice, mas isso é um traque na história da humanidade e, consequentemente da arte. Passado um ou dois séculos ninguém se lembrará desses que aqui na terra dos deuses do marketing chamam de mercado cultural.

    Estou cada vez mais convencido de que essa fantasia mercadológica que está bêbada, desnorteada e sem saber o caminho de volta para casa, depois de bater a cabeça em muitos postes, vai dormir ao relento e, quando acordar, já estará em outro planeta, ela e o rim-tim-tim dando bitocas no bêbado.

    Não tem jeito, Maria ALice, ou entendemos a arte dentro do seu mais amplo contexto ou ficaremos aqui soprando bola de ar com a boca e acreditando que ela tem gás para subir.

    Não me relaciono exatamente com o ministro, mas com a instituiçõa conquistada pela sociedade. Uma coisa que veio sendo construida desde o século XX para atender à sociedade, nem pobres e nem ricos, mas a sociedade como um todo.

    Quando passamos a crer que o ministro domina a cena sobre tantas cabeças como aqui mesmo já foi sugerido, aceitamos pacificamente o papel de marionetes irracionais, e aí, caimos no perigoso campo das concentrações, e a ideia de que todos são bobos e nada disso valeu a pena porque somos manipulados.

    Um dia, espero, teremos tempo para conversar longamente. Conheço o mercado, aquele barra pesada, disputado palmo a palmo, pois criei os meus filhos arrancando água dessa pedra que é a disputa pelo mercado na base da cotovelada no sol do meio-dia. Por isso afirmo, com todas as letras, que isso chamado de mercado via Lei Rouanet, é uma mesada da vovó para o netinho mimado que vira lobo mal e come a vovó.

    É isso Maria Alice. Se o jogo é para ser jogado, que seja em um tapete bonito, mas, sobretudo nessas touradas fura-chão nos campos de várzea onde se comemora os gols dando tiros para o alto. Este mercado da Lei Rouanet é uma fantasia aonde já se entra ganhando. Vovó açucarou esse mercado.

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