Compreender a arte brasileira como resultado metabólico de um país jovem que, de forma natural, buscou características específicas em uma perspectiva continental com base em movimentos de misturas étnicas que, por sua vez, dialogaram através de intercâmbio de identidade, mesmo sob a orientação colonial e ponto de vista do sentido de universalização, não impediu que a afirmação de que a arte nacional brasileira é a principal portadora e transmissora da cultura herdada da consagração e interfecundação espontânea das três escolas estéticas.
No entanto, sob a orientação da pedagogia dominante, insiste-se em desumanizar a arte e carrega-la de uma lógica a partir da mecanização laboratorial na tentativa de reproduzir no Brasil, através de técnicas de ensinamentos, um ser social distante do conceito de coletividade, utilizando princípios que dão ao ser, além da característica individual, também mecânica de cidadania neo-européia.
É sobre essa pauta que debruça, no Brasil, a antropologia orientadora de caminhos que certifiquem a arte como um fenômeno isolado, sem sofrer interferência das próprias realidades brasileiras. Os fatores de tempo, de raça são eliminados quando da busca pela eficácia da intelectualização que tem como princípio a autonegação.
Este modelo que privilegia a contribuição européia mais do que a natural receita brasileira, tenta nos afastar artisticamente do Brasil negro, indígena, fazendo crer, como medida de excelência num histórico de civilização a partir da universalização européia, sobretudo branca, uníssona, de dissonância unilateral. O que, naturalmente, sob a ótica racial que acompanha a mesma lógica idéia cultura pagã x a doutrina edificadora de cultura, e com isso estimula a inquisição de organismos vivos e múltiplos da sensibilidade do cidadão mestiço que é caracterizado como patrimônio brasileiro por sua forma de expressão.
A idéia inversa que propõe o caminhar da sociedade através da ferramenta de transformação cultural está focada na subjugação da arte sob o olhar dos mercados, propondo um marco zero e estabelecendo o pastichismo de aculturação neoliberal nas relações interpessoais, traçando com isso uma política de descontinuidade, um paralelismo que anula a natural abordagem crítica em prol do mergulho em resultados pragmáticos, buscando a construção da cidadania artificial carregada de planos, metas, grifes e logomarcas, enfim a cultura como ferramenta mais de marketing do que de produto., mas agregando valor artificial à idéia única e vertical de civilização absolutamente impossível de se alcançar, já que a primazia obedecerá aos critérios, acima de tudo, da dinastia psicológica da Europa, expansionista por tradição e colonizadora por exercício de metas.
E é sob essa planilha que se expandiu as novas formas de mercado cultural que nos chegaram através das leis de incentivo os novos pilares institucionais das fundações, institutos, instituições públicas ou privadas,de cultura transformaram-se em lojas de departamentos, ou melhor, em rede de magazines culturais e seus conseqüentes tigers de controle de qualidade, numa leviandade sistematizada com a arte e o artista nacional.
Esse fordismo técnico, científico, informacional que propõe um movimento desigual na criação de uma nova tecnosfera produz uma geografia brasileira cada vez mais concentrada, perfilada em torno de uma modernidade mórbida homogeneíza a psicosfera e todos os fundamentos típicos da globalização de costumes propostos a partir de modelos de cidadania frequentemente encontrados neste ambiente de curral cultural.
O que se observa é que tais modelos são migratórios, em grande parte, da recessão global do grande mercado do entretenimento. O empobrecimento que este fenômeno laboratorial nos impõe com políticas industriais de cultura é signatário da globalização e da subordinação ao mercado, o que confere a ele um novo papel, o da destruição natural do equilíbrio na psique coletiva da unidade de sentimentos que forma o pacto federativo.
Em território brasileiro, as novas formas de sistema da engenharia e tecnicização da cultura expandiram-se a partir da idéia da técnica organizacional da arte por sistema, tendo como locomotiva as orquestras sinfônicas, os balés clássicos e as bienais de arte contemporânea.
Num primeiro plano, a acessibilidade física a esses espaços e políticas é nenhuma frente à realidade do homem-povo. A assembléia a que se propõem as políticas do novo mercado cultural é extraída da engrenagem mitificadora e supressora, artificializa o conceito de erudição, num projeto que expele os próprios criadores pertencentes a essa sociedade. Então, o resultado não poderia ser outro senão o que estamos assistindo, ou seja, ao invés da discussão crítica da arte pela criação através do laboratório humano, uma produção em série de alienígenas ao seu próprio universo, numa obediência sistematizada na formatação de um ideário técnico e mecânico na produção, não da criação, mas da clonagem artística da sociedade que tem acesso a essa nova indústria da cultura hegemônica.
Não há dúvida de que muito do oxigênio desse movimento centralizador e desorientador, sem os aportes proporcionados pelas leis de incentivo, sofrerá um colapso. Assistimos então, através da grande mídia, a insurreição de pequenos, porém potentes ataques de grupos dominantes contra a reforma da Lei Rouanet.
Há uma guerra campal no setor cultural. De um lado o Ministério da Cultura assume agora um papel, podemos dizer revolucionário na busca por ações concretas em prol do povo brasileiro, mais eficaz tecnicamente, mais próximo do cidadão comum e de pequenos produtores e gestores, mas, sobretudo assumindo o papel de principal entidade representativa dos anseios da cultura determinada pelo povo. Do outro lado dessa cruzada, o vício, a imagem da contradição do neo-feudalismo, do requinte de sobrenomes, das irmandades sanguíneas, dos pactos corporativos das confrarias ocultas.
Logicamente que neste meio rotulado, o resultado é uma seqüência perturbadora de agentes alheios à realidade cultural brasileira e, sobretudo, uma construção estratégica que tem a cultura como modelo de supressão usado, no Brasil, para ampliação de espaços específicos como parte do plano de manutenção do domínio de pesados grupos internacionais.
O Brasil, sem sombra de dúvida, está diante de uma nova alvorada, não de patriotismo xenófobo aos moldes da Europa cada vez mais protecionista, obtusa e egocêntrica.
O Brasil como sempre foi no seu cotidiano, fundido em uma só raça, em um só sentimento, mas não do regionalismo, do provincianismo urbano ou rural, não da geografia continental de um neo-europeu, de um neo-africano ou de um neo-indígena, mas o Brasil da unificação do sentido mais completo de nação com seus naturais sotaques, um país múltiplo, porém único na linguagem emocional, de diversidade ampla e propositiva, sem muros e cercas, com código central que faz com que nós brasileiro tenhamos a sensação de estar verdadeiramente em nosso país.
Portanto, podemos sim afirmar que, mais uma vez, a soberania da nossa cultura dribla as adversidades, usando o jargão da malandragem produtiva que repete a prática dos velhos e deliciosos personagens das antigas zonas da malandragem brasileira que, nesta luta contra a navalha que quer nos fragmentar como sociedade, usa como antigamente nas bandeiras das escolas de samba e, na lapela a seda dos lenços para cegar a navalha do inimigo.
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