Consolidada como plataforma da produção independente e de jovens realizadores brasileiros, a Mostra Tiradentes destacou-se como grande fórum para debates, reflexões e manifestações cidadãs. Durante os nove dias de programação intensa e gratuita, mais de 35 mil pessoas passaram pela cidade e 1.500 empregos diretos e indiretos foram gerados, segundo a organização do evento.
A Mostra de Cinema de Tiradentes celebrou sua trajetória de 15 anos com a apresentação de 116 filmes – sendo 31 longas, um média e 84 curtas – e a realização de 19 encontros com a crítica, o diretor e o público, além de sete debates temáticos, trazendo uma vez mais um grande evento e público para a pequena cidade de Tiradentes. Cerca de 500 convidados, entre cineastas, produtores, jornalistas e críticos prestigiaram esta edição comemorativa. As 12 oficinas culturais oferecidas gratuitamente certificaram 310 alunos durante o período.
A cidade de Tiradentes, localizada a 180 km de BH e com apenas 7 mil habitantes, recebe durante a Mostra Tiradentes toda infra-estrutura necessária para sediar uma programação cultural abrangente e gratuita, que reúne todas as manifestações da arte. São instalados três espaços de exibição: o Cine-Praça, no Largo das Fôrras (espaço para mais de 1.000 espectadores); o Complexo de Tendas, que sedia a instalação do Cine-Tenda (com 700 lugares), e o Cine-Teatro (com platéia de 150 lugares), que funciona no Centro Cultural Yves Alves – sede do evento.
O Fórum dos Festivais teve sua plataforma para o lançamento da Carta Tiradentes 2012. Nela, o Fórum, composto por 65 associados e com onze anos de atividades, aponta as recentes restrições aos mecanismos de fomento aos festivais, com destaque para a Lei de Diretrizes Orçamentárias 2010/2011, como de grave impacto à realização de diversos festivais, o que torna ainda mais urgente a implantação do Programa Nacional de Apoio aos Festivais, já apresentado pelo Fórum ao Ministério da Cultura/SAv.
A temática desta edição, “O Ator em Expansão”, dominou as discussões durante a primeira metade do festival. A função dos preparadores de elenco e a utilização de não-atores foram questões que não se restringiram às mesas propostas para o tema e foram assunto em debates dos filmes e rodas de discussão.
Marat Descartes, um dos protagonistas do longa Corpo Presente, concorrente da Mostra Aurora, disse que a preparação de elenco pode ser importante para um filme, mas que deve ser utilizada de maneira menos indiscriminada. “O problema é a padronização do método de se preparar os atores, que pode levar à padronização da atuação no cinema brasileiro, algo que já temos que combater em função do padrão estabelecido pela TV”, afirmou Marat.
Homenageado desta edição, Selton Mello concorda com o diagnóstico. “Dá pra contar nos dedos da mão os diretores que sabem trabalhar com o ator, daí a demanda por produtores de elenco”, disse Selton. Já o cineasta Eduardo Valente ponderou a questão: “Já utilizei preparadores de elenco e nem por isso deixei de dirigir meus atores. Creio que isso é apenas mais uma ferramenta para o diretor que, logicamente, se for mal utilizada, pode ser prejudicial ao filme, como qualquer outra ferramenta”.
A utilização de não-atores como método para se chegar a algo mais próximo do real, por exemplo, também foi bastante questionada, principalmente por parte dos atores presentes na mostra. “Não entendo porque um diretor optaria por trabalhar com um não-ator em detrimento a tantos atores bons e disponíveis, sejam eles famosos ou não. Um ator consegue chegar ao que um diretor deseja muito mais rapida e convincentemente do que um não-ator, através da técnica. Só é preciso haver um diálogo franco entre ele e o diretor”, afirmou Karine Teles, protagonista do premiado Riscado.
A relação entre crítica e realização também foi um dos principais, e mais controversos, temas das conversas na segunda metade de Tiradentes, a partir da realização das duas mesas do Panorama Crítico da Crítica. A discussão foi além daquelas pessoas presentes na Mostra e repercutiu pelas redes sociais, a partir da transmissão ao vivo dos dois eventos pela Internet.
“Quando escrevemos sobre cinema brasileiro, isso demanda outro nível de responsabilidade e isenção, por mais que isso devesse ser o padrão, pois falamos a partir e para um meio do qual fazemos parte. Não tenho nenhuma ilusão de que o que penso sobre um filme é puro e imaculado em relação ao que lhe é externo”, afirmou o crítico Fábio Andrade no primeiro debate.
No segundo encontro, alguns realizadores demandaram um maior cuidado por parte dos críticos para com o cinema brasileiro. “Não se trata de dourar a pílula ou passar a mão na cabeça dos realizadores, mas partir para um corpo a corpo com os filmes e criar um pensamento crítico em torno de nossa produção, quer se goste dos filmes ou não”, explicou Rodrigo de Oliveira, diretor de As Horas Vulgares, que participa da Mostra Aurora.
Vencedores – Foram anunciados na noite de sábado (28/1), os filmes premiados na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Pelo quinto ano consecutivo, o Júri Jovem e o Júri da Crítica escolheram cada um seu Melhor Filme entre os longas apresentadas dentro da Mostra Aurora, seção dedicada a diretores em início de filmografia. Além disso, os curtas-metragens da Mostra Foco também foram avaliados por esse mesmo Júri da Crítica. Já o tradicional Júri Popular contemplou os preferidos do público entre os longas e curtas-metragens exibidos dentro da programação.
Abaixo todos os premiados da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes:
Júri da Crítica
Prêmio Aurora de Melhor Filme – A Cidade é Uma Só?, de Adirley Queirós (DF)
Prêmio Aurora de Melhor Curta – Quando Morremos à Noite, de Eduardo Morotó (RJ)
Júri Jovem
Prêmio Aurora de Melhor Filme – HU, de Pedro Urano e Joana Traub Cseko (RJ)
Júri Popular
Melhor Curta – L, de Thais Fujinaga (SP)
Melhor Longa – O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton (MG)
Prêmio Aquisição Canal Brasil
L, de Thais Fujinaga (SP)