O ano de 2004 foi marcado por uma crise de gestão no Ministério da Cultura, que levou o então ministro Gilberto Gil a exonerar servidores de cargos de confiança. A própria permanência de Gil foi colocada em xeque. Ele, no entanto, recebeu apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros servidores do MinC

Em paralelo, o setor fonográfico também via uma crise ser reforçada pelo fechamento da gravadora Eldorado e demissão de 30% do quadro de funcionários da Trama. 

Já no setor audiovisual, um novo decreto ​​praticamente dobrava o número de dias de exibição de filmes brasileiros nas salas de cinema, enquanto exibidores contestavam a eficácia do aumento da cota de tela. ​​E enquanto representantes do setor cinematográfico pediam agilidade na criação da Ancinav, o presidente Lula, Gilberto Gil e o ministro da Casa Civil, José Dirceu, instalavam o novo Conselho de Cinema

Em 2005, o governo federal publicou decreto que instituiu o Sistema Federal de Cultura (SFC) e reformulou o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). E uma pesquisa que mostrava mais consciência nas empresas do seu papel nas comunidades indicou que a Cultura era uma das áreas mais investidas. Em setembro, um novo pacote de ações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) buscou dinamizar os investimentos do audiovisual. Já em dezembro, Ministério da Cultura e Petrobras anunciaram editais que envolviam R$36 milhões em recursos para áreas e projetos específicos da cultura, e o MinC lançou o Prêmio Cultura Viva

Como destaque deste ano, relembramos artigo de Lala Deheinzelin sobre a importância da chamada Economia Criativa para um movimento de transformação no setor cultural brasileiro. O tema começava a ganhar espaço no país e o Cultura e Mercado foi um dos principais porta-vozes dessa ideia.

 

Economia Criativa e a canja de galinha de ovos de ouro

Por Lala Deheinzelin

Publicado originalmente em 17/11/2005

A chamada “Economia Criativa” é, segundo tendências mundiais, o grande motor do desenvolvimento no século XXI. Segundo a ONU, é um setor que já é responsável por 10% do PIB mundial e cresce 7% ao ano, o que significa duas vezes mais do que manufaturas e quatro vezes mais do que a indústria.

Os países desenvolvidos já perceberam o enorme potencial deste setor e muitos fizeram da Economia Criativa uma questão de Estado. O Brasil , apesar de sua imensa riqueza cultural está muito atrasado em relação a isso: a cultura segue sendo confundida com produção artística e belas artes e algo supérfluo. Essa falta de visão está presente no próprio setor cultural, na esfera governamental (que inclusive carece de gestores culturais profissionais) e nos possíveis parceiros e financiadores da economia criativa.

O resultado é que – mais uma vez – estamos fazendo canja com galinha de ovos de ouro- cada vez que deixamos ao abandono o capital cultural de nosso país e trabalhamos com bases em ações (que não merecem o nome de políticas culturais, por que não o são) que estão focadas em eventos isolados e não em processos. Essa tendência é compreensível.

Do lado dos gestores e financiadores o que se verifica é que agir através de processos requer um corpo de gestores qualificados e a interação entre as partes envolvidas, requisitos ausentes na maior parte das vezes. Por sua vez, agir através de eventos e ações implica apenas na contratação e supervisão de serviços de terceiros, o que é inclusive mais compatível com a estrutura burocrático –administrativa da maioria das instituições brasileiras.

A própria academia não tem como fomentar o desenvolvimento da Economia Criativa – cuja essência é a ação transversal – pois o conhecimento é compartimentalizado e todo estruturado com base na compilação e comparação do que já foi feito e pensado e menos na geração do novo e original.

Os setores envolvidos diretamente com Economia Criativa também têm pouca noção do enorme poder e potencial de seus instrumentos e tampouco possuem uma mentalidade voltada para a ação transversal e integrada. Seguem na mesmice, brigando pelos pouco e parcos espaços e recursos, numa concepção de cultura que ainda é do século XIX, com seus museus, salões, saraus e teatros, ocupados por e para uma elite, funcionando algumas horas por dia, poucos dias na semana.

O que se verifica é portanto a necessidade urgente de inovar, antes de mais nada buscando resultados reais – e não meros paliativos de momento, ações tampão que agradam a uns e outros e não deixam resíduo. Estes resultados são alcançados através de processos indutivos, onde Estado e instituições vinculadas ao fomento do desenvolvimento funcionam como proponentes e motores de inovação, provocando o necessário movimento de transformação no setor cultural – que também se dá através de processos, em médio prazo, e não de eventos isolados.

Inovação necessária porque o quebra cabeças do desenvolvimento sustentável e humano não se completa, pois as peças do jogo são insuficientes e não se encaixam. Reagrupar de várias maneiras as políticas (ou politicagens ?) culturais existentes e os fracos e desarticulados atores sociais envolvidos nesta dinâmica, não resulta. É preciso criar novas peças neste jogo: novas ideias, novas dinâmicas, nova formas de relação de poder. Uma tarefa longa e difícil, que já está começando de forma incipiente mas deve ser estimulada e reforçada.

Para esta longa jornada os primeiros passos podem ser mais simples: fomentar o desenvolvimento de novos negócios em cultura, qual seja: negócios que impliquem em novos usos das linguagens artísticas, novos formatos de difusão e distribuição do produto cultural, dirigido a novos públicos, em novos espaços. Estes novos negócios podem se originar de vários setores desde que tenham em comum a criatividade e a cultura como ponto chave.

Alguns exemplos: agências de turismo cultural; profissionais que façam a intermediação entre aqueles que produzem matéria prima artesanal (ex.: rendeiras )e aqueles que podem utilizá-las de maneira mais criativa, agregando valor (ex.: os estilistas); ensino de matemática através da métrica da música; espetáculos de teatro que expliquem sobre saneamento básico; serviços de receptivo que façam circuitos culturais com público vindo de cidades vizinhas etc.

Por outro lado é necessário conscientizar os potenciais financiadores, gestores e apoiadores sobre o potencial da Economia Criativa. Para isso são necessários profissionais que façam a interface, fazendo a mediação entre estes e os empreendedores da Economia Criativa. Estes profissionais interface devem ter um perfil articulador e conhecer tanto a linguagem da cultura quanto a linguagem dos negócios, requisito básico para colocar em contato estes universos que se necessitam mas se desconhecem.

Em todos os outros setores a necessidade de inovação é vista como prioridade. Como poderia ser diferente na cultura ? A ideia de que sua preservação depende de seu isolamento vai totalmente contra as próprias leis da natureza, que nos demonstram que a evolução surge através da recombinação entre diferenças.

Se não nos dedicarmos a buscar ferramentas e métodos que possibilitem essa inovação e a integração e ação transversal dos diversos atores envolvidos na Economia Criativa, as nossas chances de acesso a esta estratégica alavanca de desenvolvimento são mínimas. Resta- nos apenas saborear a canja feita com as últimas galinhas de ovos de ouro – também em extinção – enquanto tentamos nos iludir com a ideia que nossos eventos e produtos paliativos são suficientes.


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