6.012 (64%) dos 9.399 projetos apresentados ao Mecenato em 2007 vieram da região Sudeste. O Sudeste solicitou R$ 4,830 bi ao Mecenato, o que corresponde a 69% do total de R$ 6,992 bi solicitados em 2007. Do total de projetos aprovados em 2007, o Sudeste ficou com R$ 2,319 bi, ou 71,8% do total de R$ 3,229 bi aprovados.
Os dados acima mostram que temos uma concentração já na oferta de projetos, o que evidencia que as causas da concentração na captação (80% para o Sudeste) são mais profundas e anteriores à simples letra da Lei Rouanet.
O PIB do Sudeste é 55% do PIB do Brasil. A região sudeste concentra 43% da população.
A concentração na captação de recursos na Lei Rouanet é seguramente uma conseqüência de desigualdades que tem origem em outras instâncias. A concentração na captação de recursos na lei Rouanet apenas reflete uma situação que se faz presente de forma endêmica na estrutura de desenvolvimento econômico regional do país.
A concentração regional é um problema do Brasil e não da Lei Rouanet.
O remédio não é tão fácil quanto pode parecer à quem se propõe a modificar a Lei Rouanet no intuito de corrigir o que classificam equivocadamente como distorções da lei.
A aplicação da lei apenas reflete a distorção que já está presente no organismo econômico e social do país.
Acreditar que isso pode ser resolvido com a força da caneta dos legisladores ou através de portarias é flertar com o risco de se produzirem alterações com efeitos negativos sobre o que já está funcionando e inócuos no que se refere à desconcentração.
A proposta do MinC que dizem já estar pronta, é um mistério. Muitos se perguntam qual seria a mágica para produzir a descentralização.
A meu ver, essa solução não passa pelo atual mecanismo de mecenato.
Esse estará sempre refletindo a concentração que existe no campo econômico e social do país.
Imaginemos que o percentual de abatimento por região seja modificado, dando-se por exemplo, maior isenção à investimento em regiões hoje não atendidas pelo mecenato.
Sou bastante cético a respeito do efeito positivo que esse tipo de medida teria em canalizar recursos para as regiões que se pretende. A decisão de direcionamento de recursos pelas empresas passa por outros fatores. No momento de decidir, entra na avaliação qual o tipo de público a ser impactado e portanto a região de atuação e de interesse da empresa.
Por outro lado, acredito ser líquido e certo que medidas que retirem os atuais níveis de isenção de algumas regiões ou mesmo de alguns segmentos artísticos, terão conseqüências negativas imediatas no fluxo de recursos que hoje flui para os mesmos. Isso ocorrerá pois estaremos alterando uma variável fundamental de decisão de investimento que é o preço.
Defendo as considerações acima crendo que da perspectiva de quem aplica recursos em projetos incentivados, dificilmente um incentivo de preço seria suficiente para convencer uma empresa a investir em algo que não a interessa do ponto de vista de retorno estando totalmente desalinhado com as suas diretrizes estratégicas.
Ao mesmo tempo, uma alteração de preço em algo que hoje interessa à uma determinada empresa, pode desestimular a aplicação de recursos.
A lógica expressa acima contraria o dito popular de que “de graça até injeção na testa”. Se o projeto não for do interesse da empresa, ela não terá motivos para associar a sua marca a tal empreendimento. Mesmo que seja de graça.
Ao contrário, se algo em que se tem interesse hoje, torna-se caro amanhã, as decisões de compra ou investimento, podem e com certeza serão revistas.
É fato que o nível de isenção deixou mal acostumadas as empresas o que me leva a crer que uma mudança no nível de isenção, com certeza irá ter um reflexo negativo sobre o volume de recursos canalizados para a cultura. A consciência do fazer “marketing cultural” não foi assimilada ao ponto de termos realmente investimento em cultura com o chamado “dinheiro bom”, sem incentivos.
O longo tempo de permanência de alíquotas de isenção altas (100% diga-se) colaborou para a atrofia do desenvolvimento dessa atitude de investir em cultura e valorizá-la de forma efetiva, prescindindo de incentivos fiscais para fazê-lo.
Isto posto, mudanças mágicas na lei Rouanet que se proponham a solucionar o problema da concentração regional, devem ser vistas com muita reserva e cautela. Muitos crêem que essas desigualdades ancestrais podem ser resolvidas a toque de decretos e alterações de parágrafos na letra da lei. A realidade é bem mais complexa.
A meu ver a concentração regional poderia ser combatida por duas vias.
A primeira, seria a desconcentração resultante de um desenvolvimento econômico e social efetivo, concomitante ao aumento do nível de profissionalização do setor produtor nas regiões menos favorecidas. Teria efeitos mais sólidos e duradouros, mas com certeza demandaria um processo mais longo e integrado. Essa via tem grande parte do seu escopo fora do alcance dos formuladores de políticas culturais do Ministério da Cultura já que relaciona-se com problemas de desenvolvimento que extrapolam a circunscrição da área cultural. Entretanto, essa via deve ser o escopo do Estado brasileiro como um organismo integrado, atuante e empenhado para modificar as condições de desigualdades regionais do país.
A segunda via, seria a do direcionamento de recursos do Estado para atividades culturais onde estas: i-)não são suportadas pela economia local ou ii-)não recebem recursos advindos de outras regiões pelos mecanismos do mercado.
Esta pode ser realizada no curto prazo e parece estar presente no discurso dos atuais dirigentes do MinC. Entretanto, como todos os programas re-distributivos que não contemplam portas de saída, pode vir a produzir resultados efêmeros e insustentáveis se não forem acompanhados das bases de desenvolvimento que estão presentes na primeira via.
Acredito que é viável atuar nas duas frentes sem fazer alterações no instrumento de mecenato com a pretensão de forçar o mercado a se movimentar em direções contrárias às suas lógicas de decisão. Isso resultaria inócuo.
Quis com esse artigo, levantar a complexidade da questão e ao mesmo tempo advertir para as armadilhas potenciais que podem ser criadas com tentativas de combater a concentração regional de recursos na cultura sem entender com profundidade as suas bases.
Espero que estas reflexões possam acrescentar ao esforço de todos os que se debruçam de boa vontade sobre o tema em busca da sua solução.
Seremos mais bem sucedidos em curar a doença se pudermos evitar tratar o mal com remédios errados por falta de acurácia no diagnóstico ou por desconhecimento dos efeitos colaterais que se podem produzir.
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