Leandro Pardí trabalha com difusão cultural e curadoria. Atuou por 15 anos na Cinemateca Brasileira, nos últimos cinco foi coordenador de difusão e programação cinematográfica articulando projetos e produções de diversos eventos e festivais.
Pós-graduando em gestão com ênfase em marketing e mídias digitais (FGV-SP), dirige o coletivo Pardieiro Cultural que realiza programações musicais e o DH Fest – Festival de Cultura em Direitos Humanos.
CeM: Como surgiu a ideia – e o que é – o “Burocra Parade”?
LP: A ideia surgiu da necessidade em expor a paralisia do setor cultural a partir de três facetas importantes: o projeto em si e o que a sociedade deixou de apreciar; o déficit na geração de postos de trabalho para profissionais da área; e a arrecadação financeira – o quanto o próprio Estado deixa de gerar de recursos por conta dessa paralisia.
O projeto simula o conceito das “Cow Parades” em anos anteriores quando esculturas do gado em tamanho natural foram espalhadas pela Av Paulista e artistas selecionados trabalharam nelas. O Burocra Parade espalha totens de 1,70m pela avenida com projetos reais paralisados em leis de incentivo na esfera federal. O objetivo é justamente tornar pública esta pesquisa.
CeM: Quem organiza a ação?
LP: A Ação faz parte da programação “São Paulo Sem Censura” organizada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. O “Burocra Parade” foi produzido pelo coletivo Pardieiro Cultural.
CeM: Há previsão de outras realizações além da Av. Paulista nessa semana?
LP: Sim, o Secretário de Cultura dividiu a programação em 4 eixos principais, o objetivo da programação é reforçar a importância da cultura para a democracia e contra o silenciamento. Sei que há várias intervenções artísticas previstas, entre elas “Circuito Urgências: Palmares é Aqui!”, marcada para as imediações do Centro Cultural da Juventude com vídeo em homenagem aos excluídos da lista de personalidades da Fundação Palmares, por exemplo.
CeM: O que vocês esperam como resultado desta iniciativa?
LP: Acredito que é preciso mostrar, é preciso expor, é preciso falar sobre. Levar ao conhecimento público o tipo de projeto cultural que está paralisado, quantos empregos eles deixaram de gerar.
CeM: Como foi a curadoria para definir quais projetos apresentar?
LP: A ideia principal era identificar projetos que já têm o mais difícil: recursos captados! E mesmo assim, sem justificativa plausível e nenhuma razão concreta aparente, esses projetos estão há meses sendo impedidos de serem realizados, ou seja, sem gerar renda, emprego, impostos e recursos de uma maneira geral para a nossa sociedade. Isso para falar só do impacto econômico, sem contar o cultural, que é inestimável, com projetos que poderiam estar em etapa de produção a esta altura do ano.
Então pesquisamos por projetos que, além de já terem recursos, fossem de diferentes segmentos artísticos – mostrando a diversidade de setores impactados – e também pegamos exemplos de projetos que estão dentro das áreas ditas prioritárias pela Secretaria: como patrimônio, memória e planos anuais; para tentar ilustrar que mesmo nestas área ditas prioritárias nesta gestão, há paralisação e travamento de ações relevantes.
CeM: Quais as maiores dificuldades ou desafios para viabilizar o Burocra Parade?
LP: Em um primeiro momento a ideia era visibilizar fichas técnicas dos projetos paralisados, mas logo entendemos que precisávamos expor além do projeto, expor também os postos de trabalho e os valores paralisados e para isso houve uma grande pesquisa.
Nossa maior dificuldade foi em conseguir os projetos em si, em convencer os participantes, pois há uma grande preocupação em que a exposição dificulte ainda mais o andamento dos projetos. Entendendo este momento sensível, seguimos de forma a não expor os proponentes jogando luz na pesquisa em si.
CeM: Como você vê a questão do incentivo à cultura no país hoje?
LP: Acho que no país há uma imensa dificuldade histórica de se pensar a relação Estado-cultura. Parte disso pela instabilidade política no campo da cultura. Pouquíssimas são as políticas de estado, aquelas que transcenderam governos que foram implementadas para a área, e o motivo é a falta de continuidade das ações. Um exemplo simbólico é o período da implementação do Ministério da Cultura de 1985 a 1994 que contou com onze responsáveis pela pasta. Outro exemplo são os dias de hoje – nem ministério temos, o que simbolicamente é catastrófico – a secretaria já passou por dois ministérios diferentes e ao menos cinco secretários diferentes. Ou seja, não estou muito otimista com o desenrolar das leis de incentivo federais.
CeM: Quando a gente fala em acesso às leis de incentivo, estamos falando do ponto de vista do financiamento à cultura, ou seja, do ponto de vista do próprio setor. E o acesso à cultura pela população em geral, neste momento de pandemia: como você vê essa questão? Você acredita que melhorou ou piorou, porquê?
LP: Não é possível falar neste assunto sem trazer a pauta da exclusão digital no Brasil – quando a internet passa a ser um aspecto básico da vida dos cidadãos – pagar contas, educação, entretenimento e cultura – a desigualdade fica ainda mais clara (cerca de 30% em geral pertencentes a classe D e E segundo a cetic.br).
No entanto, acredito que há novos modos e exigências de domínio de ferramentas que vieram com o online. Descobertas de linguagem, novas comunicações que causam impactos variados. Experimentar formas dos projetos ganharem escala e chegar a novos públicos online é um desafio que vai perdurar.
CeM: Que sugestões você daria para melhorar o fomento à cultura neste momento do país?
LP: Os agentes que cuidam da vida cultural precisam de amparo. A Lei Aldir Blanc foi um respiro e acredito que seria necessário uma segunda edição o mais breve possível. Acredito também que a regulação e incentivo ao setor privado para o formato matchfunding , poderia ser uma solução paliativa a curto prazo.
Além disso, apesar da paralisia de Brasília, acredito que o setor precisa continuar convocando o mundo institucional para a vida cultural, estado e corporações, o pior cenário na minha visão é que as demandas do setor continuem mal entendidas pela sociedade.
SERVIÇO:
EVENTO: Burocra Parade
Programação: São Paulo Sem Censura
De quando a quando: de 3 a 6 de junho
Onde: Avenida Paulista
Realização: Secretaria Municipal de Cultura
Produção: Pardieiro Cultural