Nesta edição, o PERFIL traz a pesquisadora Celia Maria, que está lançando seu terceiro livro “As Nazi-tatuagens: inscrições e injúrias no corpo humano?”, uma seqüência de seu trabalho de pesquisa sobre as expressões urbanas no contexto em que estão inseridas. Em entrevista, Célia fala de seus três livros, da atividade acadêmica, do projeto “Poéticas do Urbano” e do sentido de contribuir com seu trabalho como uma fonte de conhecimento e diálogo democrático, e não como solução autoritária para a cidade, Florianópolis – SC
No final do ano será lançado o livro “As Nazi-tatuagens: incrições e injúrias no corpo humano?”, editado pela Perspectiva, que faz parte da pesquisa de doutorado da autora. A idéia inicial surgiu em 1993, “a partir da observação da migração das imagens grafitadas nas paredes da cidade para o corpo, espaço de subjetividade numa sociedade globalizada, multicultural”. Entretanto, o texto ultrapassa os limites da possessão do corpo com objetivos de individuação, liberdade ou vínculos tribais, e registra a prática da tatuagem no contexto de exclusão, onde o foco são os campos de concentração nazistas, especialmente a ação imposta aos judeus. “A partir desta pesquisa, percebo que as censuras estabelecidas nas leis que regem nosso cotidiano foram estruturadas no nosso passado recente e não mudaram muito”, revela.
Entre as últimas palestras e seminários ministrados por Célia Maria, destaca-se uma reflexão sobre o grafite como manifestação que surge no contra-fluxo dos planejamentos urbanos, se afirmando como polêmica em relação ao conceito do fazer artístico, da palestra, realizada em junho deste ano durante o “Projeto Rua: A arte que ninguém vê – Seminário e intervenções artísticas na cidade”. Ela estabelece os pilares desta distinção como imposição de interesses do mercado ao sugerir que “As interferências ou são classificadas como vandalismo ou acabam se impondo aos receptores dos bens simbólicos e deixam de ser transgressoras. Incorporados aos sistemas de mercado, as interferências passam a circular como grafites e as ainda não incorporadas, pichações”, que estariam na contramão do grafite. “Percebe-se assim, que a classificação faz parte da recepção e não da emissão”, esclarece.
“Poéticas do Urbano” é um projeto coordenado por Célia, em paralelo aos livros e palestras. Um grupo de estudos sobre a cidade realizado no CEART/UDESC, com objetivo de propor o diálogo entre as pessoas e delas com as pesquisas da Universidade. “Nosso objetivo não é propor soluções para a cidade, não existe uma cidade ideal, não porque não acreditamos em utopias. As utopias geram conhecimento”. A proposta do projeto de vivenciar o diálogo como meio de orientação é uma forma de evitar o autoritarismo dos discursos acadêmicos, pois, “todo regime autoritário é excludente e pré-conceituoso”, argumenta. “O diálogo é o meio, não o fim em si. As soluções e suas práticas têm que vir das necessidades da maioria e não dos saberes institucionalizados”. Com esta metodologia as pesquisas percebem fenômenos bem específicos nas comunidades de Florianópolis, a exemplo dos registros do bairro Nova Esperança, onde as lutas pela imprescindível necessidade de habitação, o processo de globalização transnacional, e “a advertência de David Morley, que ao pensarmos a pós-modernidade, temos que levar em conta não só a delimitação temporal, mas principalmente espacial. Não podemos pressupor que todo mundo, em todos os lugares, simultaneamente, vive na era da pós-modernidade”. A pesquisa deu origem a um curta-metragem documentário e o texto “As novas cartografias e espaços de globalização na cidade de Florianópolis, SC”, de sua autoria, apresentado em Imatra, na Finlândia, e em outubro, no Congresso AMPAP. O projeto também fomenta pesquisas de outras interferências urbanas, como códigos de Hip Hop, música, dança, Stikers e adesivos. Esta última “nos levou a colocar adesivos em forma de placa de trânsito, com a inscrição ‘A Cidade não Pára’, objetivando instigar para a observação do crescimento constante da cidade”.
Maira Botelho