“Hollywood é um negócio. É chamado de ‘Show Business’. Não é chamado de ‘Show Art’.  E negócios precisam de dinheiro”. Sob esse viés, Dov Simens vê o mercado de cinema norte-americano, o mais influente do mundo. Expert no assunto e referendado por nomes como os cineastas Quentin Tarantino e Guy Ritchie, ambos ex-alunos, Simens fundou o Hollywood Film Institute, na Califórnia, e leciona sobre a cadeia produtiva do audiovisual em diversas universidades pelo mundo, entre elas Harvard e a New York University.

Ele é também autor do livro “From Reel to Deal: Everything You Need to Create a Successful Independent Film” (Da filmagem ao acordo: Tudo que você precisa para criar um filme independente de sucesso, em tradução livre), que aborda ferramentas e processos necessários para conseguir pôr um filme de baixo orçamento no mercado. É esse know-how que o especialista traz ao Brasil no curso Hollywood 2 – Day Film School, que acontece em São Paulo nos dias 22 e 23 de junho.

Nesta entrevista ao Cultura e Mercado, Simens fala sobre as especificidades da produção e do mercado nacional do audiovisual e como, na visão dele, é possível que cineastas independentes consigam um lugar ao sol. Confira:

Cultura e MercadoA questão do orçamento já não é mais sinônimo de sucesso para um filme. Existem casos de orçamento baixíssimo e sucesso de crítica e público. O contrário pode acontecer com filmes que tiveram alto investimento. O que define o sucesso de um filme hoje?

Dov Simens – O sucesso de um filme depende de duas coisas: dinheiro e roteiro. Hollywood é um negócio. É chamado de “Show Business”. Não é chamado de “Show Art”. E negócios precisam de dinheiro. Hollywood tem o dinheiro para investir em publicidade e funcionários globais para fazer qualquer longa-metragem cheio de efeitos visuais caros (quase) garantir seu sucesso.

Além disso, agora que o mundo é uma “Hollywood global”, os seis maiores estúdios (Paramount, Fox, Sony, Disney, etc) não se atentam mais a fazer grandes histórias, mas focam nos épicos com grandes orçamentos e efeitos visuais.

Assim, há uma oportunidade maravilhosa para os pequenos independentes que (1) sabem escrever ótimos roteiros e contar histórias excelentes para lucrar em cima (2) dos custos baixos  das mídias sociais, que serão ambos explicados no curso HOLLYWOOD 2-Day Film School, no Brasil.

CeM De que maneira o mercado do cinema vê hoje a produção independente? O senhor acredita que houve uma grande evolução?

DS – Os estúdios não precisam deles. No entanto, os cinemas e os consumidores estão literalmente implorando por eles. Sim, há uma enorme necessidade de independentes, com suas histórias não direcionadas a estrelas, como nos estúdios. Há 20 anos os grandes distribuidores de Hollywood estavam produzindo e financiando de 35 a 45 filmes por ano. Em 2012, cada um dos principais distribuidores financiou e distribuiu de 12 a 15 filmes apenas. A Paramount Studios não lançou uma única produção nos últimos cinco meses.

Combinando esta falta de oferta com uma explosão na construção de multiplex e fluxos de receitas adicionais vindos de serviços on-demand, pay-per-view, streaming, arquivamento, aluguel e venda de DVDs, criou-se uma lacuna de negócios maravilhosa para independentes lucrarem nesses circuitos de cinema, TV por assinatura, redes de TV, serviços de streaming e de vídeo on-demand, sites e muitas outras fontes de receitas digitais que precisam de produto.

CeMNo Brasil, o mercado cultural depende muitíssimo das leis de incentivo. Grande parte dos projetos, nas mais diversas áreas – e incluindo audiovisual – só sai do papel por conta dessas leis. Como o senhor vê esse modelo? Acredita ser possível desenvolver o cinema de outra maneira?

DS – Vocês têm uma nação maravilhosa, com uma quantidade incrível de talentos, com um governo que apoia através de financiamento de incentivos fiscais a criação de filmes brasileiros para competir com os blockbusters de Hollywood. De qualquer maneira, quanto mais multiplexes são construídos e Hollywood diminui a produção, haverá mais e mais filmes produzidos no Brasil conseguindo distribuição, receitas e lucros.

Assim, enquanto a produção local aumenta com filmes lucrativos, empreendedores e corporações brasileiras, que têm interesse no lucro, vão financiar produções nacionais não apenas pela isenção fiscal, mas pelo retorno financeiro.  O modelo de incentivo brasileiro é excelente e logo deve surgir um segundo método de financiamento, por meio do private equity, para dar força à produção rentável de cinema.

No HOLLYWOOD 2-Day Film School irei mostrar rapidamente como fazer filmes brasileiros, com dinheiro brasileiro, que  lucram nos mercado interno, global e Hollywood.

CeM Os festivais de cinema hoje em dia são mais ou menos importantes do que há 20 ou 30 anos? Além deles, quais são as melhores vitrines para um filme?

DS – Há 20 anos havia talvez 15 ou 20 festivais de Cinema (Sundance, Cannes, Toronto, Berlinale, Veneza, etc) em todo o mundo. Hoje, existem mais de três mil festivais de cinema com mais e mais [surgindo] a cada mês. Um cineasta independente que participa de um Festival de Cinema pretende garantir exposição para seu filme e a venda a um distribuidor independente ou grande estúdio.

Distribuidores e estúdios de Hollywood estão ocupados fazendo e vendendo seus próprios filmes, mas sabem que há milhares de cineastas independentes fazendo filmes com seu próprio dinheiro e participando de festivais de cinema para expor esses trabalhos. Assim, cada distribuidor tem um empregado, chamado tecnicamente de “Executivo de Aquisição” (aka: Talent Scout), cujo trabalho é estar em festivais de cinema e comprar filmes independentes baratos. Em  HOLLYWOOD 2-Day Film School darei os detalhes dos 30 ou 40 mais importantes executivos de aquisição; como vender para eles; como fazer parte de festivais de cinema que eles participam e como negociar com um executivo de aquisição para garantir um grande acordo no mercado brasileiro, hispânico, internacional e na América do Norte.

Além disso, vou mostrar aos realizadores independentes do Brasil como ter a opção de não aceitar um distribuidor e ir diretamente para o mercado de serviços on-demand, streaming e Pay-Per-View.

CeMQuais são os primeiros e certeiros passos para uma pessoa que quer começar a fazer filmes hoje e não tem nenhum contato “quente”? O que ela não pode deixar de ter/fazer?

DS –  “Contatos quentes” não são necessários. Primeiro seja realista, pare de fazer curtas e comece com um filme de baixo orçamento. Segundo, aprenda a escrever ótimos roteiros e contar histórias excelentes.

Se você é um adulto “não faça um curta”. Ninguém compra curtas. Curtas não são para ganhar dinheiro e se você deseja entrar na indústria do cinema, que é um negócio, você deve fazer algo que obtenha lucro. Assim, se concentre em fazer um roteiro de 90 páginas, com uma locação, que é basicamente uma peça focada em um personagem. Dependendo de quanto dinheiro você tem (independente da indústria cinematográfica), que será entre US$ 10 mil e US$ 100 mil, você pode contratar profissionais e fazer uma gravação de uma, duas ou três semanas e na HOLLYWOOD 2 – Day Film School vou ensinar exatamente como produzir e dirigir este filme.

No entanto, a narrativa é extremamente importante, portanto, é imperativo saber como contar uma “ótima” história, com um “ótimo” script, um “ótimo” diálogo, com 40 a 50 “ótimas” cenas e um “ótimo” final.

Assim, depois da minha HOLLYWOOD 2 – Day Film School você vai conquistar deUS$ 10 mil a US$ 100 mil de investidores privados, obter um ótimo roteiro, fazer um grande filme de baixo orçamento, participar de um festival de cinema, garantir um distribuidor brasileiro e um estrangeiro e lançar sua carreira.

Marque no seu calendário: 22 e 23 junho de 2013 é a data que os cineastas brasileiros vão aprender a fazer filmes brasileiros que fazem lucros globais.


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Jornalista, foi repórter do Cultura e Mercado de 2011 a 2013. Atualmente é assessor de comunicação da SPCine.

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