Diretor da APETESP disseca a problemática do teatro e aponta o distanciamento do MinC das questões que de fato atingem o setor.

É quarta-feira, você mora na cidade de São Paulo, quer ir ao teatro e larga o trabalho às 18:00 horas. Terá de atravessar um trânsito de 229 km de lentidão até a sua casa, se aprontar, retornar ao engarrafamento, agora de 228 Km, chegar ao teatro, pacificar os flanelinhas locais, entrar na fila da bilheteria e finalmente, com o ingresso na mão, entrar e se acomodar na poltrona antes que soe o terceiro sinal. Pergunto: não seria mais confortável adiar tudo para o fim de semana, esparramar-se no sofá e assistir a um bom programa na TV a cabo, dvd ou navegar na Internet?

Bem, o Ministério da Cultura acha que não. Segundo a opinião de Juca Ferreira – secretário executivo da pasta – e Celso Frateschi – presidente da FUNARTE a culpa de não haver mais sessões durante a semana é exclusivamente dos produtores teatrais que, movidos pelos ganhos provenientes dos recursos incentivados da Lei Rouanet, preferem cancelar sessões, encurtar as temporadas e lucrar com a produção.

O trânsito caótico, a violência urbana, a concorrência das novas mídias, o empobrecimento da classe-média, a falência da educação no país, nada disso teria influência. Expressaram estas e outras opiniões originais no artigo “Incentivo ao teatro?”, publicado na pg 3 da Folha de S. Paulo, edição do dia 27/03 último.

Vamos aos fatos: nos anos cinqüenta no lendário TBC, berço do teatro paulista, as temporadas eram de apenas algumas semanas. Outros marcos inaugurais do nosso teatro moderno na década seguinte como o Arena, Oficina (SP) e o Grupo Opinião (RJ), seguiam o mesmo padrão com exceções pontuais. Foi apenas a partir dos anos 80 que as temporadas começaram a ganhar fôlego, resultado direto das profundas transformações ocorridas na sociedade brasileira decorrentes do milagre econômico da década anterior. Meno Male (1985) de Juca de Oliveira permaneceu 5 anos em cartaz. O Mistério de Irma Vap (1986) dirigido por Marilia Pêra, chegou a marca inacreditável de 11 anos de carreira. Trair e Coçar é Só Começar de Marcos Caruso, estréia em 1989 e se torna o recordista absoluto, já tendo completado 19 anos de temporada com direito a um registro no Guinness Book, isso para ficarmos nos exemplos mais famosos do período.

A década de 90 chega nos grandes centros brasileiros trazendo com ela a fatura referente à acelerada urbanização na forma do aumento assustador da violência e a piora progressiva do tráfego de veículos. Outros fatores históricos põem a pique a qualidade da educação e aprofunda o processo de empobrecimento da classe-média e todos sabemos que a educação é a correia de transmissão que leva espectadores às platéias dos teatros e que a classe-média forma a base da clientela teatral. Nos anos 90 assiste-se também à popularização das novas mídias: videocassete, TV a cabo, Internet, etc… Depois de tais eventos, a produção teatral jamais voltaria a ser a mesma.

Talvez um certo gosto por simplificações tenha levado os autores do citado artigo confundirem número de sessões semanais nos teatros com o tamanho de temporada das peças. Claro que o número de sessões diminuiu, determinado por alguns dos fatores acima apontados, mas a duração das temporadas permanece estável, como demonstra a pesquisa informal realizada a partir do Roteiro da Semana da revista Veja-São Paulo, editado por Wanderley Sanches. A seção traz dados importantes como data de estréia e fim de temporada de 60 espetáculos em cartaz na cidade de São Paulo que resumimos a baixo:

Fonte: Revista Veja-São Paulo.

QUANT.

ESTREOU

TEMPORADA

06

RECENTEMENTE

Encerramento imediato.

21

RECENTEMENTE

Em cartaz e continua.

18

A MAIS DE 6 MESES

Em cartaz e continua.

09

A MAIS DE 1 ANO

Em cartaz e continua.

03

A MAIS DE 3 ANOS

Em cartaz e continua.

02

A MAIS DE 7 ANOS

Em cartaz e continua.

01

A MAIS DE 19 ANOS*

Em cartaz e continua.

*Trair e Coçar é Só Começar.

Destas 6 montagens que terão a temporada encerrada antes de completar três meses, nenhuma contou com incentivos fiscais, segundo declaração de seus produtores, o que é um dado auto-explicativo. Fica a pergunta: onde estaria a farra das “temporadas curtas” regada a dinheiro público denunciada no artigo em questão? Os seus autores devem explicar.

“Quase todos os recursos da Lei Rouanet para o teatro são aplicados na montagem do espetáculo e na manutenção de uma temporada cada vez mais curta. Por quê? Não seria porque o empresário, que visa o lucro -e é natural que seja assim-, foi induzido a produzir cada vez mais montagens, ao perceber que o seu lucro não vem da bilheteria (…)?

Mais adiante os autores curiosamente mudam de opinião a respeito das bilheterias e passam a defender o seu oposto:

“Isso sugere que o teatro pode dar lucro e que tal lucro pode estar sendo aplicado em outros setores da economia. Recentemente um empresário teatral carioca disse ao jornal O Globo ´que teatro é um ótimo negócio´”.

Afinal, o lucro vem ou não da bilheteria? Por que o produtor teatral, este ser capitalista, com um espetáculo pronto, pago e que pode dar lucro, desejaria cancelar tudo e recomeçar do zero. Por que não manter uma, duas, três rendosas peças em cartaz? São contradições quase infantis que o artigo não esclarece.

Uma explicação razoável é que estes altos funcionários do MinC dispõem de informações melhores do que estas aqui alinhadas. Neste caso estariam obrigados a apresentar uma lista destes projetos viabilizados com dinheiro público e cujas temporadas foram interrompidas prematuramente. De outra forma, serão devedores de um pedido de desculpas formal e público à classe teatral pela divulgação de fatos inverídicos.

Paulo Pélico

Paulo Pélico é dramaturgo, produtor de teatro e diretor da APETESP-Associação dos Produtores de Espetáculos teatrais do Estado de São Paulo.
Colaboraram: Fabiana Netto e Damares Salvatierra
 

 


contributor

Coprodutor do espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Flávio Rangel e Millor Fernandes, e diretor do documentário "Fora do Figurino", sobre o caráter do jeitinho brasileiro.

7Comentários

  • Carlos Henrique MAchado, 15 de abril de 2008 @ 14:17 Reply

    Isso mesmo! Vamos logo chutar o pau da barraca! Tem que se criar um nova secretaria exclusiva para estes coitadinhos dos globais, e lá dentro, altarquias, subsidiárias para darem suporte a um espetáculo para o mediano de Moema ou do Jardins que têm uma vida muito dura. Esse sacrifício, por sinal, muito bem narrado aqui, sobre o público do teatro, chegou a me causar comoção e fui às lágrimas. O Minc deveria se chamar, “Ministério dos Insensíveis da Cultura”. Aqueles bruta-montes, trogloditas, pitbuls, ficam só botando defeito nos nossos coitados e desprendidos de grana e vaidade, atores globais. Tudo isso carece de um urgente planejamento no trânsito de São Paulo para atender ao público do teatro e mais a violência urbana, o nosso querido Paulo Pélico nos parece até um pouco constrangido com essa opressão do Minc e se esqueceu de citar outras dificuldades que o público enfrenta, como a sacrificante divisão de espaço com aquela legião de zoadeiros motoboys, sem falar meus amigos, que ainda tem que dividir espaço com aquele povinho do bolsa-família que fica pendurado nos ônibus sentido “Capões”. Haja lexotan! Pensa bem se é moleza ficar dentro de um Honda Civic, parar num flat, tomar aquela insuportável ducha quente, sacar o desodeante e o perfume Polo, combinar todo um guarda-roupa da Hugo Boss. Tudo isso é muito estressante para o espectador. Estou falando só de São Paulo. E o Rio, que ainda tem a dengue! Tudo isso mata a bilheteria de um espetáculo. O coitado do produtor global de teatro, da peça patrocinada, já faz um sacrifício danado de cobrar em um ingresso, mórbidos cem reais. E esse pessoal do Minc ainda fica esculachando? Deveria se preocupar em resolver os problemas do trânsito, da violência, do crescimento desordenado e outras mazelas mais destes grandes centros inchados de gente pobre que atrapalha essa gente não bronzeada a assistir os nossos valores globais. Estou fechado com essa causa tão justa e vamos ser objetivos: queremos a escolta da Rota do teatro até os nossos casebres em Moema, Ibirapuera, Jardins e etc. Nada de motoboy. As pizzas deverão ser entregues de helicóptero, que é muito mais chique e é muito mais a cara do público do teatro. Já que temos o minhocão, construiremos um tatuzão, um túnel que ligará os teatros à zona sul. Por falar nisso, alguém tem notícia daquele mendigo do Rio, que, com o ingresso pago por uma emissora, foi convidado a se retirar da peça “Os Produtores”, made in Brazil, do Sr. Falabela? Enfim, meus amigos, esse pessoal do Minc não sabe nada de chanchada cult, só quer saber de fazer política pra esse pessoal do nordeste que dança xaxado.

  • Abel Carrilho, 15 de abril de 2008 @ 18:21 Reply

    Carlos Henrique, venho acompanhando as suas intervenções, que são as mais lúcidas aqui no site. Mas nunca me senti provocado a participar como os seus dois posts, nesta e na outra matéria do Mamberti. Concordo com você que o site tomou as dores da indústria e do show bizz. Mas há uma discussão de fundo aí que precisa ser melhor explorada. O show bizz é mais do que necessário. Ele é imprescindível. O chamado teatrão é paradigma. Não podemos acusá-los de não falar de cultura, mas temos que falar de mercado. Pois o que queremos é mercado para nossas produções. Não tenho inveja dos globais, quero mais é que tenha espaço para eles nesse mundo de privilégios que é o capitalismo. Mas tem que haver espaço para os outros tb. Ninguém é contra. O esfacelamento da Lei Rouanet é um tiro na cabeça do teatrão, mas vai atingir o teatrinho, não tenha dúvida disso.

  • Priscila Netto, 15 de abril de 2008 @ 18:43 Reply

    Como sempre, Paulo Pélico dá um show de conhecimento e realidade.Conhece profundamente a área em que atua e deveria ser mais consultado e ter mais participação nas decisões afetas ap segmento.
    Realmente o MinC parece desconhecer, ou ignorar, a realidade do mercado cultural.

  • Maria Alice Gouveia, 16 de abril de 2008 @ 7:26 Reply

    Carlos Henrique Machado – seguindo a lição do mestre Roberto da Matta, talvez fosse bom você assistir “Veridiana” do Bunuel para descobrir que o mundo é um pouco mais complexo!

  • Maria Alice Gouveia, 16 de abril de 2008 @ 8:03 Reply

    Desculpem o lapso. Acho que Veridiana é Viridiana + verídica.Maria Alice Gouveia

  • Álvaro Santi, 21 de abril de 2008 @ 21:25 Reply

    Abel, não conheço nenhum “teatrinho” com incentivo da Lei Rouanet.
    (A não ser através de algum edital tipo Petrobrás, que exige inscrição do projeto na Lei Rouanet). Aliás, “empresinha” também não patrocina com esta lei, só as grandes.

  • Carlos Henrique Machado, 28 de abril de 2008 @ 13:36 Reply

    Maria Alice Golveia!
    Tenho certeza que você conhece bem “Idéias de Jeca Tatu” de Monteiro Lobato”.

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