Os bastidores de captação de recursos da 27a Bienal de São Paulo, o segundo maior evento do gênero no mundo
A mais esperada mostra de arte contemporânea brasileira, a Bienal Internacional de São Paulo, atrai um grande público e reúne obras dos mais diversos países do mundo. Uma das ansiedades de todos é entender o que realmente está por trás de um evento dessa proporção.
A 27ª edição do evento, aberta no início de outubro, revolucionou a histórias das bienais, começando pela curadora-geral, Lisette Lagnado, que foi aprovada através de um concurso. Ainda nesta edição, foram extintas as representações nacionais, incluída uma mostra de filmes relacionada ao tema, artistas estrangeiros fizeram residências em algumas cidades brasileiras para mostrarem o olhar de um não-brasileiro sobre nosso país tropical e um projeto educativo levou a arte contemporânea à periferia paulista.
Segundo o marketing da Bienal, a idéia da visitação gratuita, iniciada na edição anterior, foi a de oferecer “um presente” a São Paulo no ano de seu 450º aniversário. Após a grande colaboração dada pelo presidente da Fundação Bienal, Manoel Pires da Costa, à Prefeitura de São Paulo (durante a gestão de Marta Suplicy), esta tornou-se uma grande aliada e colaboradora da Fundação e de seus projetos.
O primeiro balanço divulgado informa que a 27.ª Bienal já recebeu, entre 7 e 15 de outubro, um público de 112.089 pessoas. Com o resultado alcançado em 9 dias, a média diária de público chegou a 12.454 pessoas.
Porém o que poucos sabem é que o trabalho para eles começou há dois anos, assim que terminou a última edição da exposição. “Tendo em vista a importância da mostra da Bienal e da magnitude do esforço que deve ser feito para obter as condições financeiras necessárias à realização de um evento de qualidade, o processo de captação de recursos teve início em janeiro de 2005. Toda a Bienal é assim. São dois anos de trabalho para curadores e para a Presidência”, conta Manoel Pires, à frente do cargo desde 2001.
As representações nacionais foram abolidas pela primeira vez, depois de 55 anos de bienais, pois iriam na contramão da proposta da edição atual de “viver junto”. Para o presidente da Bienal, isso poderia desanimar alguns países de contribuírem com o evento, mas a mudança se fazia necessária e isso não impediu que a Bienal mantivesse o alto nível das edições passadas. Manoel explica: “Com as representações nacionais, que é o mesmo da Bienal de Veneza, o curador convidava países a participar da mostra e os dirigentes dos países escolhiam os artistas que viriam representá-los. As respectivas nações ajudavam nas custas do transporte, seguro e montagem. Isso causava alguns problemas e havia o risco sempre presente da ameaça à qualidade. Neste ano, isso acabou, mas, graças à reconhecida excelência da Bienal, essa possível perda não ocorreu. Pelo contrário, a proposta da Bienal foi perfeitamente entendida e ganhou imediato apoio operacional e financeiro”.
Para a curadora Lisette, o fim das representações e os possíveis abandonos de alguns países em razão disso não a preocupou. “Eu me dei o trabalho de receber pessoalmente todos os adidos culturais dos consulados, expliquei o projeto conceitual e pedi que eles me fornecessem uma lista com artistas dentro do perfil desejado. Temos casos de países que disseram que mandariam menos dinheiro neste esquema. Eu respondi que aceitava o dinheiro que viesse. Para mim, menos dinheiro também pode significar menos “show” e maior reflexão. O cenário mudou”, ela relata, e acrescenta: “Não tenho receio de fazer uma má Bienal por falta de aporte financeiro. Minha equipe e eu faremos uma Bienal de 1 milhão, de 2 milhões ou de 10 milhões. Claro que preferimos fazer a Bienal de 10 milhões, mas garantimos a qualidade das obras, independente do dinheiro que entrará. Ao invés de trazer obras espetaculares, teremos obras talvez mais delicadas ou invisíveis. Menos obras? Tudo bem.”
A captação – Segundo Pires da Costa, a meta para gastos estava na casa dos R$20 milhões. Após ajustes feitos, o evento terá um orçamento de R$17 milhões. Para a obtenção de recursos todas as leis de incentivo são utilizadas, entre elas as Lei Rouanet e a lei municipal de São Paulo, a Mendonça. A Bienal conta ainda com o patrocínio de 17 empresas, fora o auxílio recebido dos governos municipal, estadual e federal, através de emendas orçamentárias. Estas são uma forma de financiamento à cultura no país – sem a exigência de qualquer contrapartida – , dada pela União a uma entidade avaliada por uma bancada especial.
“A Bienal tem um amplo leque de parceiros. Eles são das mais diversas áreas da sociedade brasileira. Têm total interesse em ter suas marcas associadas a uma instituição como a Bienal, que no plano interno exibe sua excelência no campo das artes e no plano externo é vista como sinônimo de qualidade e embaixadora das artes”, esclarece Manoel Pires. A captação é feita por um grupo de funcionários ligados diretamente à Presidência da instituição, após a elaboração de uma estratégia para se conseguir a meta – estabelecida pelo próprio Manoel – de parceiros e auxílios financeiros. Ele relata ainda que a captação de recursos não é uma tarefa difícil, devido à enorme notoriedade e visibilidade que a Bienal oferece, tanto aqui no Brasil como no exterior.
Além disso, grande parte dos parceiros estão há muitos anos no projeto. Alguns são pontuais, auxiliando apenas a mostra em si, porém outros contribuem de forma contínua, seja na reforma do Pavilhão que abriga a Bienal, seja para desenvolver atividades ao longo do ano. Por isso não é possível fazer um balanço total do valor adquirido, pois alguns ainda entrarão na contabilidade.
Um exemplo disso foi a parceria com a Casa Fiat de Cultura. Em agosto foi assinado um contrato para o fomento e a democratização do acesso à produção artístico-cultural brasileira. A contribuição começou com o apoio da marca Fiat 30 anos – uma comemoração do aniversário da empresa no Brasil – à 27ª Bienal. “A intenção é não ser esta uma parceria pontual, mas uma relação a longo prazo entre as duas instituições. É bom encontrar parceiros que tenham, como a Fundação, a missão de democratizar a arte e difundir o conhecimento”, comenta Pires da Costa.
Uma marca reconhecida internacionalmente – Para o presidente da Fundação Bienal, ela é uma marca facilmente reconhecida pela importância conquistada ao longo dos mais de cinqüenta anos de existência promovendo arte. Ele afirma que o plano de gratuidade da mostra e de inclusão social mostra-se fundamental na busca de empresas interessadas em abraçar a causa: “Nossa proposta tem ecoado entre os empresários, que também manifestam interesse em trabalhar na linha da redução das desigualdades sociais, o que é possível atingir por meio de melhorias na educação da população brasileira.” Entre as contrapartidas, está a exposição de suas logomarcas em um painel de 900 m² em frente à movimentada avenida, e um espaço exclusivo para cada empresa dentro do próprio Pavilhão. Nas coletivas de imprensa, uma área também é reservada para os representantes das parceiras se manifestarem sobre a tão esperada exposição.
Antônio Gaspar, assessor de imprensa de Manoel Pires, complementa ainda que a Bienal de São Paulo, além de ser a segunda maior do mundo, em sua última edição teve a presença de 917 mil visitantes, enquanto a mais importante mostra de arte contemporânea do mundo, a Bienal de Veneza, contou com um número quatro vezes inferior a este. Ou seja, a Bienal está sendo cada vez mais reconhecida e prestigiada, tanto que cerca de 70 jornalistas estrangeiros vieram cobrir o evento sem receber qualquer ajuda de custo da Fundação.
A Prefeitura de São Paulo oferece uma verba anual para manutenção do prédio, que pertence ao município. E para alavancar a receita, os espaços pertencentes à organização são alugados, ao longo do ano, para inúmeros eventos particulares.
Previa-se, segundo o próprio presidente, um ano muito difícil para a obtenção de recursos, por causa da Copa do Mundo e das eleições. Mas mesmo assim eles conseguiram os aportes necessários.
Viviane Batista
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