Qualquer princípio básico que busque assegurar ou incentivar a produção e a geração de novos criadores deveria, por regra, portar e transmitir um discurso que mostre uma atitude clara neste sentido. No entanto, a mais recente entrevista da Ministra Ana de Hollanda mantém o mesmo depoimento de sua primeira coletiva, vai priorizar não o criador, mas o atravessador, sobretudo o Ecad, uma instituição que a cada balanço mostra o quanto enriquece sugando gerações de músicos brasileiros.

Não estive no debate ocorrido no dia 29 de março na Funarte no Rio de Janeiro e, portanto não tenho ideia clara de algum avanço em prol da cultura brasileira. Li no próprio site do MinC um texto aonde Marcelo Yuka faz uma fundamental observação à Ministra.

“Marcelo Yuka, compositor e músico da banda F.U.R.T.O., a questão da cultura precisa ser tratada como uma questão de justiça social. “Ao elaborar as políticas para a música, o Governo precisa ter como foco não o artista que ganha muito dinheiro, mas o cara que não consegue viver de música” (site do MinC).

O que se observa é o Ministério dirigido por Ana de Hollanda tem como característica específica a defesa a ferro e fogo de um escritório privado, o Ecad, que mantém o monopólio de arrecadação de toda a produção artística feita no Brasil, pior, ignora solenemente na hora de distribuir os milhões arrecadados justo o artista que não consegue viver da sua própria música.

Imaginar um Ministro desautorizando o próprio Estado em defesa de uma instituição privada! E isso num governo do PT, aonde a pasta da cultura também lhe foi entregue à responsabilidade! É um pesadelo para milhares de militantes que lutaram tanto quanto eu lutei para eleger Dilma e afastar as políticas privatistas de Serra que Ana de Hollanda defende com a faca nos dentes.

O tucano também ironizou a proposta de alteração da Lei de Direitos Autorais. Pela proposta do governo, as atividades do Escritório de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais (Ecad) passariam a ser regulamentadas pelo Estado. Serra traduziu a iniciativa como uma tentativa de criar uma nova empresa estatal no País. “Estão tentando criar a ‘EcadBras’.  (O Estado de São Paulo).

Economia Criativa às avessas

Imaginem isso! Em toda a cadeia produtiva da cultura existem profissionais específicos para cada função, seja no mercado, seja na indústria, seja em uma economia colaborativa, todos têm o direito sagrado de escolher seus representantes legais, o único que está seqüestrado em sua liberdade de escolha, é justo o criador, a semente da cadeia produtiva, ou seja, há, logo na fonte, um pedregulho no caminho da economia da cultura.

Não é irônico tudo isso? A Ministra que abriu a sua fala antes mesmo de tomar posse dizendo que o criador seria valorizado e, de imediato, luta, esperneia para que o mesmo não tenha direito de escolha do seu representante legal, pois todos estão no cárcere privado do Ecad. Mas a Ministra aplaude isso e ainda diz que defende o direito do criador, então, não me cabe outra pergunta, direito de não ter direito de escolha Ministra, é direito?

Gostaria que alguém me lembrasse alguma fala da Ministra em três meses de gestão que tivesse alguma proposta em prol dos milhares de criadores brasileiros que estão longe dos holofotes da mídia.

Ministra, o Ministério da Cultura não é uma gravadora multinacional, a voz e o voto de um medalhão vale tanto quanto o de um artista anônimo. É assim que funciona a democracia, na urna o voto do rico vale tanto quanto o do pobre. É difícil entender isso?

Agora nos chega a notícia de que haverá um corte de 25% no orçamento do MinC, mas os Pontos de Cultura terão o dobro do corte, ou seja, 50%, justamente aonde está a parte mais pobre dessa cadeia criada extraordinariamente no governo Lula, fundamental, sob o ponto de vista estratégico para se ter uma política cultural democrática no Brasil.

Quem está correndo desesperadamente para limpar a barra da Ministra diante da opinião pública? Os principais captadores (atravessadores) da Lei Rouanet e o Ecad que, em texto dirigido a mim, não faz a menor questão de esconder que hoje é parte integrante das decisões do Ministério.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

5Comentários

  • gil lopes, 31 de março de 2011 @ 12:11 Reply

    Carlos, vc fica forçando essa barra indefinidamente … Vc que fez força pra eleger a Dilma agora vem com essa história de 3 meses? Em 3 meses vc quer provas de competência de um Ministério? É muito pouco democrático não aceitar a possibilidade de uma nova visão das questões no âmbito da cultura, muito pouco. Se estivéssemos celebrando uma retumbante vitória, mas que resultados temos na música, na literatura, na…vc sabe, pra onde vc quer olhar?
    Os pontos de cultura, pois bem, ninguém é contra pontos de cultura como ninguém é contra a escola. Todo mundo acha que devemos dar mais recursos pra educação e cultura. Ponto, e daí? O que se passa na “prática”? Crescem os orçamentos? Mas o país só tem salvação pela Educação! Ouvimos isso há quanto tempo? E vc cai em cima de uma Ministra, e uma Ministra Buarque de Hollanda, francamente…vc de repente, de um dia pra noite se escandalizou com o Ecad, justamente na hora que descobrimos a incapacidade de inserir nosso conteúdo cultural nos novos meios de circulação da cultura. Não vai haver direito algum pra gente recolher, nossa fábrica de produção de direitos está obsoleta, esse é o drama ( e olha, quando alguém de peso se apresenta com algum projeto pertinente, a gente chama de luxuoso, cria uma polêmica sem fim, acha que incentivo não deve ser pra isso…). Abandonar o centro da questão e o centro do país aos novos meios sem o conteúdo nacional o que é? Vamos todos para os pontos de cultura! Seria uma política?
    Vir agora querer destituir o que país criou, suas celebridades, suas mitologias populares, sem modéstia investir contra grandes artistas daqui, o que é isso?
    Quem limpa a barra da Ministra é a Dilma, que a colocou lá e a gente não vai imaginar que ela não sabia o que estava fazendo…então vc ataca justamente é a Dilma, em 3 meses de governo. Ou vc quer fazer a cabeça da Dilma? Menos Carlos, menos…

  • Bernardo, 31 de março de 2011 @ 12:14 Reply

    Me diz uma coisa: esse senhor Carlos Henrique faz o quê da vida?? Trabalha? Não é possível que uma pessoa dedique tanto do seu tempo escrevendo artigos para acabar com a reputação da Ministra e do Ecad! Por isso que ele reclama do Ecad. Ele não trabalha. Por que ao invés de ficar escrevendo artigos, não dedica seu tempo a criar e mostrar o seu “talento” àqueles que, talvez um dia, queiram ouvir suas obras? (será que essas pessoas existem)?

    Criar políticas de cultura não tem anda a ver com a questão dos direitos autorais de execução pública, pois como o próprio nome diz, tem como objetivo gerar direitos para os donos das músicas que são tocadas!

    Muito justo criar políticas de cultura sim para maior acesso do povo, mas o que isso tem a ver com o Ecad e os direitos autorais? Ou com a remuneração daqueles que vivem sendo executados diariamente nos rádios, nas tvs, nos grandes shows (com o maior público).

    O que se pretende? Você acha realmente que criar uma Anatel, uma Ancinav dos direitos autorais vai resolver o problema de desocupados que nem você, que não trabalham e querem “viver” da música?

    Chego a pensar que você vive de remuneração de pessoas com interesses maiores, inclusive de derrubar a Ministra para conseguir a tão “sonhada mudança de lei”.

    Sobre os pontos de cultura, o que se falar de vários que não recebiam nem um tostão desde 2009? O Ministro Juca não queria tanto dar acesso à cultura? Ou será que ele usou esta verba para pagar advogados de grandes redes de comunicação para ajudá-lo na elaboração da lei? Vai ver foi por isso que esse dinheiro não chegou nos pontos de cultura, para pagar um batalhão de “pseudo-entendedores” de direitos autorais que queriam flexibilzar a lei. Muita energia e muito dinheiro gasto com um projeto.

    Espero que passe melhor os seus dias criando e proporcionando, de fato, cultura para o país.

  • Alessa, 31 de março de 2011 @ 16:07 Reply

    Mas ainda não ficou claro que toda essa onda contra a Ministra Ana de Hollanda não passa de uma tática de vir pelos flancos, já que desconstruir a Presidenta recém-eleita, com qualidades mais do que suficientes para fazer um ótimo governo estava muitíssimo complicado?
    Os ataques à Ministra vêm do desespero, diante do fato de que o aparelhamento do MinC pelo PV/PCdo B e parte do PT naturalmente não deu bons resultados. E na verdade, aparelhar um Ministério da Cultura é simplesmente uma imoralidade administrativa.
    Toda a “filosofia” do Cultura Livre, que inspira os Partidos Verdes em todo o mundo, a partir de seus principais ideólogos estadunidenses,impregna o discurso dos furibundos inimigos da Ministra.Toda a teoria dos furiosos detratores da Ministra (jogada nos debates nos blogs progressistas desde janeiro,num corta e cola infantil, a partir da data em que ela sabia e decentemente retirou o vínculo do Creative Commons, que jamais deveria ter ali estado – e que até hoje não se sabe, por quem e a que título, a troco do que foi colocado no Portal do MinC) é uma simples repetição dos lero-leros do Cultura Livre e do próprio manual de propaganda do Creative Commons.Papos de Stallman e Lessig, e nada mais. Não tem nada a ver com o nosso país e a nossa cultura. Coisa de macaquitos deslumbrados!
    Os otários, ou os garotos de propagandas do CC, que se vinculem a ele e passem bem.
    Nós brasileiros não somos idiotas, para babar diante de qualquer trampa do império.Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de como funciona o capitalismo, do que é o imperialismo, ao ler os blá-blá-blás dessas teorias verdes importadas,brandidas por esse pequeno e irado grupo que tinha um “verde candidato próprio” a ocupar o cargo que hoje ocupa Ana de Hollanda, saca imediatamente que se trata de trampa deslavada para iludir povo subdesenvolvido.
    Aparelhar o MinC ou manter o aparelhamento que havia não vai dar mesmo!
    Quem ama a cultura nesse país está em alerta máximo.Chega de enrolação, de iras desconexas e faniquitos despropositados.
    Os fatos já se tornaram públicos e ficar repetindo mentiras deslavadas e calúnias só produzem um efeito:aprofundar a percepção
    das reais motivações dos que criminosamente investem contra uma servidora pública nomeada, em excelente hora, pela nossa Presidenta,que até a presente data só tem honrado o cargo que recebeu das mãos do povo trabalhador e que tem amplo conhecimento do que seja cultura.
    O mais ridículo de tudo isso são esses chorões que ficam se lamentando por terem votado em Dilma Rousseff, batendo o pezinho porque ela não nomeou o preferido deles.
    Tem dó! Nomear Ministros é atribuição da Presidenta. Um pouquinho só de desconfiômetro não faz mal a ninguém, mas se querem ser ridículos,continuem com essa verdadeira palhaçada.Só que nada que dizem está colando mais.Todo mundo já se esclareceu e sacou os lances.

  • Carlos Henrique Machado, 1 de abril de 2011 @ 11:05 Reply

    Tem ficado cada vez mais evidente que a AUTOLATINA DA CULTURA está em tentando travar as reformas da Lei do Direito Autoral e a da Lei Rouanet.
    É fusão dos cabeça de planilha da cultura corporativa e a mensal planilha em branco do Ecad.

  • gil lopes, 3 de abril de 2011 @ 19:02 Reply

    Coincidência, achei estranho o termo cabeça de planilha, demorou pouco. Hoje no Estadão, Dom José Dirceu usa o termo no artigo onde fala do ex-presidente falecido recentemente, se referindo aos que tiram conclusões baseados em estatísticas econômicas mas sem conhecer a realidade brasileira, o que não era o caso de José de Alencar.
    Aqui, desconsiderando a deferência dos que refletiram sobre seu artigo e considerações, nosso missivista desfere metáforas e se manifesta sugerindo evidências caricatas e grotescas. quais as evidências?

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