Semana passada fui a um almoço na Daslu (sic). Nunca havia pisado ali e resolvi fazer uma espécie de safari pela loja preferida dos maurícios e patrícias paulistanos. Uma experiência incrível. Fiquei tão abismado quanto gringo em favela-tour. Voltei andando para o escritório, pensando na vida… Peguei um táxi.

Em meio ao trânsito de São Paulo, o papo da educação dos filhos veio à tona. Um senhor alto, elegante, cheiroso, orgulhoso de si, com o automóvel impecável, olhou nos meus olhos e disse: “Escola é para dar cultura. Educação meus filhos tiveram em casa”.

Joistick

Com essa frase martelando em minha cabeça, venho consolidando cada vez mais o pensamento a respetio da interdependência entre cultura, educação e comunicação. E na impossibilidade de resolver uma questão descontectada da outra. E aqui não falo apenas numa perspectiva macroeconômica, estou falando também da experiência cotidiana de construir o cidadão ético contemporâneo. Falo de mim. E também do Caio, meu filho.

Trago uma experiência recente, vivida com os pais de alunos de uma das escolas mais conceituadas de São Paulo, pioneira no construtivismo. Inquieto com o material adquirido durante a pesquisa do Ctrl-V, questionei a coordenadora pedagógica sobre a ausência das tecnologias de informação e comunicação na sala de aula, sobretudo a linguagem audiovisual. O audiovisual contém elementos complexos de linguagem e construção simbólica, constituidores da personalidade, da ética e da identidade do cidadão contemporâneo e precisa ser ensinado como tal em todas as escolas. Mas como fazer isso se a nossa relação com os conteúdos audiovisuais é dada de maneira passiva, no sofá, na sala escura, à frente do computador e mais recentemente nos bares, transportes públicos e no aparelho celular?

Assim como alguns pais ali presentes, fui contra a aquisição de videogames, a superexposição de material midiático, adepto à supervalorização do livro e da leitura. Até aí enxergava o material provindo das telas como ameaça à formação do indivíduo. Hoje penso o exato contrário disso. Se o garoto souber assistir e compreender a morfologia, a sintaxe, os elementos de linguagem do conteúdo audiovisual, ele estará mais apto e compreender as ciladas impostas diariamente pelo Nickelodeon, pelo Jornal Nacional ou pela novela das oito.

O videogame portátil faz algo além de entorpercer as crianças com pokemóns e jogos de luta. Ele tem funções que permitem fotografar, construir animações, navegar na internet, blogar, entrar em rede. A ameaça pode se tornar oportunidade educativa. Isso sem contar os próprios jogos como elementos desencadeadores de busca de conteúdos, de resolução de problemas e desafios.

Como pai sou a favor de assistir Rio, Harry Potter, Thor e todos os enlatados que temos direito. Mas não abro mão de apresentar uma filmografia complementar que inclui os clássicos e os atuais: independentes, inteligentes, autorais. Mas nada disso é tão importante quanto produzir, editar, educar o olhar fazendo. Com o ferramental existente e disponível a todas as crianças (inclusive as menos abastadas) é possível experimentar o fazer audiovisual, assim como fazíamos com o lápis e o papel há alguns anos. A minha própria relação com as novas tecnologias é infantil, de encantamento com a descoberta…

Assim como nós, cidadãos, a política nacional precisa compreender esse novo fenômeno como oportunidade. Estamos gastando muita energia em regulação, tentando desviar o curso do rio. Devemos concentrar mais nossas ações em promover novos conteúdos, novas oportunidades educativas, novas ferramentas de construção da cidadania, navegando nessa nova realidade de forma positiva.

Isso não pode ser feito de maneira isolada. Cultura, Comunicação e Educação formam um tripé de sustentação do novo cidadão brasileiro.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

14Comentários

  • ricardo penachi de camargo, 14 de junho de 2011 @ 14:46 Reply

    Reconhecer o novo tempo…

  • Paola, 14 de junho de 2011 @ 15:21 Reply

    Por isso, a grande saída é a Educomunicação!

  • Calixto de Inhamuns, 14 de junho de 2011 @ 15:31 Reply

    Leonardo, tem sido uma batalha diária com meus amigos artistas e intelectuais convencê-los da necessidade dos nossos filhos dominarem as novas tecnologias, entender o funcionamento das mesmas e transformá-las em ferramentas do aprendizado. A minha filha, hoje com quinze anos, orientada por uma professora, aos 11, 12 anos, começou a filmar e editar através das ferramentas básicas do Windows. Hoje, aquela que eu considerava um talento nas “peruagens” domina algumas técnicas e faz coisas surpreendentes… Surpreendentes pela criatividade e pela apreensão dos acontecimentos e da manipulação imbuídas nesse acontecimento. Cria audiovisuais que colocam minhas antigas e elogiadas redações no bolso. Papai coruja? Pode ser, mas vê-la criando gráficos, desenhos, moda e, maior orgulho, fazendo trabalhos manuais a partir de imagens que cria, recria ou recebe da tela do seu computador.

  • Cely Leal, 14 de junho de 2011 @ 16:49 Reply

    Concordo plenamente de que temos de utilizar de todos os recursos e cuidando sempre para oferecer o melhor contéudo.
    Parabéns!!!

  • Dado Lima, 14 de junho de 2011 @ 17:22 Reply

    Brant. Estou, neste momento, concordando em tudo com o teu artigo. O MINC esta construindo uma Diretoria de Educação e Comunicação ligada a Secretaria de Politicas Culturais dirigida pelo Serginho Mamberti. Se tiveres tempo poderiamos conversar sobre Diretoria, Cultura, Comunicação e Educação.
    Abraços.
    Dado Lima

  • Alana, 14 de junho de 2011 @ 20:47 Reply

    Leonardo.

    Essas três palavras soam como música para os meus ouvidos (Cultura, Comunicação e Educação), pois como você diz, não é possível desconectar uma da outra.
    A cultura é vivência, a comunicação é fundamental para a humanidade, é através dela que nos relacionamos e formamos uma sociedade e a educação é à base de tudo.
    Concordo com a interação das novas mídias, mas infelizmente sabemos que é limitado para alguns…

  • Vicente Melo, 15 de junho de 2011 @ 11:43 Reply

    É bom falarmos nisso. A “cultura” das especializações é parte do projeto que desenhou e aperfeiçoou através do tempo, um modelo de sociedade subordinada aos seus propósitos. Com a divisão dos saberes foram criadas as condições para que os conteúdos não circulassem automaticamente.
    Creio ser necessário ter em mente que o resgate das interações plenas virá com a condescendência do “sistema” sobre o controle social, pois a comunicação é o instrumento eficaz desse controle.

  • Cely Leal, 15 de junho de 2011 @ 12:10 Reply

    Verdade. Sabemos das limitações e dificuldades mas se continuarmos insistindo chegaremos lá.

  • Maria Alice Gouveia, 15 de junho de 2011 @ 18:00 Reply

    LEONARDO:
    Recomendo a leitura do livro “What videogames have to teach us about learning and literacy”. É de um professor de uma faculdade de educação americana e que mostra como os games funcionam como caminho para desenvolvimento de várias funções cognitivas e servem inclusive para estimular o aprendizado da resolução de problemas e da relação entre imagem, inguagem verbal, linguagem simbólica etc.

  • Marcia Souza Oliveira, 16 de junho de 2011 @ 15:41 Reply

    LEONARDO,

    Incrívelmente realista esta matéria! Gostei da forma como você apresentou a crítica ao caos em que se encontra o fazer cultural/educacional nas escolas brasileiras. A comunicação é imperativo nas relações humanas: – Como posso, eu, viver sem o outro?
    E como pode a cultura de um país subsistir sem o empenho de buscar uma linguagem mais contemporânea e crítica?

  • Rudson Marcello, 17 de junho de 2011 @ 13:31 Reply

    A curiosidade faz com que tanto a tecnologia, quanto a educação e a cultura possam andar juntas.
    Um dos grandes problemas atuais da educação é legar ao aluno um passado clássico, quando o que de forma geral estimula a todos nós em diferentes graus é a relação com o novo.
    É só pensar a quanto tempo existe a internet por exemplo no Brasil e como ela alterou nossa forma de pensar, conviver, pesquisar etc.
    Virar as costas para as perguntas que a tecnologia nos dá é designar como bobagem a evolução humana, prestar tributos a um passado e esqueçer que esse mesmo passado construiu esse presente.
    Não há limites para o que a arte, a educação e o próprio mercado podem fazer com a internet e a tecnologia.É um campo novo cheio de possibilidades e curiosidade para todos nós.
    Mas não se trata de usar os meios tecnológicos sem nenhum diálogo com a história, se achamos o ponto de intersecção entre o tecnológico e os estudos clássicos achamos o brilho nos olhos dos estudantes de forma geral.
    Somente a curiosidade faz com que haja uma avanço no aprendizado e é dai que podemos extrair conhecimento dos estudantes.
    Fazer, desta forma, entender que a cultura e a educação, irmãs siamesas por natureza, devem caminhar juntas e buscar um ponto de apoio no novo, é uma forma de estabelecer uma comunicação direta com as questões que nos colocam em atividade com nosso tempo.

  • Leonardo Cássio, 17 de junho de 2011 @ 19:59 Reply

    Estou numa luta diária para inserir a tecnologia, novas mídias e linguagens na área cultural. Se nela é complexo, imagine só na área educacional. Não há educação sem uma leitura precisa do tempo em quem vivemos.

  • Josemar Martins Pinzoh, 18 de junho de 2011 @ 12:11 Reply

    Gostei da postagem e de sua perspectiva de análise. Também me situo no tripé Cultura-Comunicação-Educação. Acho porém, que no seu caso, vc faz sua parte, como pai: educa (oferece pelo menos uma fimografia complementar). O problema é a enorme “demissão do compromisso educativo” dos pais e da sociedade de modo geral. A escola restou como “instituição atarefada”, tendo que assumir todas as demandas de formação que ninguém mais quer. Virou “clínica do social”, lugar de arrumação de todas as subjetividades desarrumadas pelo mundo contemporâneo. Tudo que vai mal, a gente logo cria uma demanda nova para a escola. Orá, tem que haver a articulação do tripé cultura-comunicação-educação também fora da escola, em outros espaços não escolares. E na escola, se ela tem que assumir outras demandas, que seja ela reinstituída. E se há a necessidade de outras competências a serem formadas aí, estas não podem ser solicitadas ao mesmo professor-bombril, já abarrotado de demandas de tudo que é ordem. Temos que pensar, então, em outros profissionais para atuarem na escola, não necessariamente professores, mas artistas, técnicos, portadores de outras competências, etc. Existe um mal-estar na educação, eu o estou perseguindo. Quer saber sobre ele: ouça os professores. Não apenas cobre deles!
    Abraços!

  • Cybele Fiorotti, 27 de junho de 2011 @ 16:02 Reply

    Como você ,Leonardo ,fico fascinada com a diversidade que o meio proporciona. Também sou adepta da trilogia: Cultura, Educação, Comunicação e não vejo outro caminho. Desde a decada de 90 discuto este patamar ideário com muitos profissionais, mas foi necessario chegar esta meninada antenada e desbravadora para quebrar as barreiras impostas pelas regras tradicionais.
    Abs,

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