Poderia usar um artifício em defesa do Projeto Pixinguinha, fazendo uma colagem dos textos de Gilberto Gil defendendo aquele programa cultural nos catálogos editados pela Funarte  –  mas acho que você conhece fartamente o pensamento do ministro recém demissionário. E o “você”, no caso, não subtrai o respeito ao cargo de ministro, mas sim uma absoluta dificuldade em fazer salamaleques, ou mesmo usar de adjetivos hipócritas – que seriam logo desvendados, talvez pela falta de prática no ofício.

Se há quase 50 anos eu já reverenciava Pixinguinha e Cartola, a vida me deu oportunidade de prestar atenção aos talentos que iriam enriquecer (não no sentido vil da palavra) a minha vida, possibilitando me tornar parceiro de vultos geniais iguais àqueles dois. O Projeto que leva o nome de Pixinguinha faz parte desses ritos reverenciais – assim como outros projetos que deixei aí na Funarte que, nem na época da ditadura, sofreu com episódios como os que aconteceram recentemente.

Também esse aprendizado me fez conhecer Clementina de Jesus, tão representativa na minha vida quanto o foi Chico Antonio, o cantador que a Mário de Andrade tanto impressionou. A arte de prestar atenção você pode constatá-la num texto meu de 1966, na contracapa do Lp “Muito Elizeth”, no qual pedia que reparassem num jovem compositor que estava surgindo – esse mesmo Gilberto Gil que, depois Ministro, permitiu que a chama do projeto fosse reacesa na administração do Grassi.  Que não se enxergue hipocrisia ou adulação quando o cultuo como o grande artista que nunca deixará de ser (acima de poderes ministeriais provisórios). E também como um colega de profissão, que veio em minha casa quando fundamos a Sombrás, isso há 30 anos, para deixar uma procuração que eu, vice do então presidente Tom Jobim, o representasse nas lutas pela moralização dos direitos autorais, numa época em que éramos assediados pela censura, no rastro do AI-5, que a Gil e Caetano aprisionou indecentemente.

Não, decididamente não creio que Gilberto Gil tenha renegado seus textos em favor do projeto ou anulado, moralmente, a referida procuração. Quanto à extinção do Pixinguinha, logo anunciada na troca de Ministros, soa como traição ou insubordinação aos ideais daquele importante músico.

No ano passado, quando fui chamado para fazer a curadoria do Pixinguinha, não imaginava que, na verdade, estavam me entregando uma urna ainda vazia, na qual iriam depositar as cinzas daquele Projeto. Aceitei o cargo sob algumas condições: que reativassem também os projetos Lúcio Rangel de Monografias e o Radamés Gnattali (discos paradidáticos), além de propor a reabertura da Sala Sidney Miller e a reedição de livros do grande Jota Efegê.

Me senti traído quando o Projeto Pixinguinha foi extinguido e mutilado, e a edição dos livros de Jota Efegê não ganharam a merecida distribuição. Mau uso do dinheiro público, fazendo reverter ao ostracismo aquelas reedições. E as outras promessas feitas? Caíram no ossário do esquecimento. Também me impressionou o clima de terrorismo que encontrei infestando aquela Casa.

É consenso que a utilização da mesma marca Pixinguinha num projeto totalmente inverso ao original foi manobra que a ninguém iludiu. É a máquina pública modorrenta e preguiçosa, viveiro de incompetentes moscas varejeiras que infectam de burocracia o fazer cultural. E criminosamente extirparam a principal característica daquele programa apoiado por Gil: a circulação da música brasileira por todo o país. Cultura que não circula morre de inanição, é devolvida ao anonimato.

Assim como confiei em Gil em 1966, não haveria porque não dar crédito àqueles que executavam sua política cultural, com especial destaque para os textos em que defendia o Projeto. Ou seriam apócrifos?

Portanto, não poderia dormir direito com minha consciência se não viesse lembrá-lo que estar Ministro até 2010 não o desonera de fazer cumprir o que foi prometido pela gestão anterior que comandava a Funarte.

É a homenagem que presto à minha consciência, ao não me silenciar diante de tais iniqüidades. Estou certo de que você, igualmente avesso a desajeitados salamaleques, há de compreender que o ano e pouco que ainda terá à frente do Ministério da Cultura o obrigará a um olhar reflexivo sobre esse ato de vandalismo e genocídio cultural que vem dizimando aqueles que ainda reverenciam a palavra empenhada e se sentem desrespeitados por esse caos.

Autor: Hermínio Bello de Carvalho


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3Comentários

  • Índio, 4 de novembro de 2008 @ 8:52 Reply

    Isso sim é que é debate a causa e a cor com consciência e sabedoria.
    Parabéns grande Hermínio, você não tem o rabo preso.
    Assino e escrito…
    Índio

  • Marcos Lodi, 6 de novembro de 2008 @ 1:17 Reply

    Realmente é lamentável a postura do autor, defendendo aqui, vergonhosamente seus interesses na distribuíção das verbas públicas direcionadas à cultura, lógicicamente, sem esquecer de demonstrar sua modéstia.

    Há pessoas que acreditam que são grandes realizadores da cultura e que estão acima dos nossos pilares culturais, por serem os “descobridores de talentos” como eles mesmos gostam de ser chamados. Estes, sob a alegação de exporem ao público nacional pessoas que sustentam a cultura e valores genuinamente brasileiros, acreditam que o Estado deve sempre priorizar seus projetos em detrimento de outros.

    Tal pensamento é totalmente equivocado. Personalidades como Clementina de Jesus não deveria necessitar de um projeto financiado pelo Estado sob a direção de um atravessador , vulgo descobridor , situado na capital do Estado. Necessitam é de um projeto cultural com nascente em sua localidade, abrangendo regioes onde a cultura nacional é cultuada, sendo elas capitais ou interiores, não necessitando de um terceiro.

    Por que deveriamos criar um avaliador no meio do caminho se a verba é pública ? Não seria melhor o Estado criar um projeto cultural na cidade onde a Clementina nasceu e trabalhava como lavadeira? Ao meu ver não há a menor necessidade de deixar os “novos talentos” subordinados a esses descobridores. Entretanto,o Estado, ao realizar atos nesse sentido sofre sempre criticas das pessoas que não querem perder sua grande fatia de verba pública.

    O projeto Pixinguinha, como se realizava, deve continuar não existindo, justamente por ser um projeto concentrador, onde um determinado grupo se beneficia de uma verba pública que deveria ser melhor distribuída. Logicamente que a gritaria dos que antes se benecificavam de tais recursos acontece, mas o Estado brasileiro não deve ceder a essa pressão.

    A sociedade não pode ficar privilegiando a distribuição de seus recursos para um pequeno grupo, através de projetos como o mencionado, pois tais, filtram a critérios e interesses pessoais a verba pública da cultura.

  • Renan Carneiro, 6 de novembro de 2008 @ 13:53 Reply

    Até quando o Estado brasileiro vai financiar projetos para um pequeno grupinho de pessoas que se acham melhor do que os outros? O fracasso do Estado do Rio de Janeiro está fundado nisso. Espero que isso não ganhe mais força em âmbito nacional. Queremos um projeto desconcentrador.

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