O FNC jamais foi utilizado na sua função original. Uma parte de seus generosos recursos freqüentemente sofre contingenciamento e a outra é destinada a finalidades que nada fazem pela cultura regional ou pelo fazer artístico de caráter não-comercial. A conseqüência é que o déficit neste dois itens hoje é imenso e está na base da crise atual

 

Conhecida como Lei Rouanet, a Lei Federal n.º 8.313/91, foi planejada e concebida para operar por meio de três mecanismos básicos, distintos entre si, mas complementares no funcionamento. São eles: FICART, MECENATO e FNC – Fundo Nacional de Cultura. Esta lógica de tripé visava dar sustentação a uma política inédita no país, capaz de, no curto prazo, financiar a produção artística, cobrindo o rico espectro da cultura brasileira e, a médio e longo prazos, estruturar e consolidar as bases de uma indústria cultural, tornando-a minimamente competitiva frente à poderosa indústria estrangeira. Assim, os dois primeiros mecanismos foram destinados a necessidades que estão mais próximas da indústria cultural. O terceiro, como se verá a seguir, foi pensado como o elemento de contrapeso, com uma clara função equalizadora do sistema.

Na condição de ferramentas de mercado que são, tanto o FICART quanto o MECENATO foram orientados para uma lógica de decisões descentralizadas atrelando a distribuição dos recursos incentivados ao interesse institucional das empresas incentivadoras. No FNC, ao contrário, devido à sua condição de instrumento corretivo e compensatório, as decisões relacionadas à destinação de recursos foram centralizadas no poder público.

FICART

Dotado de um funcionamento mais complexo, envolvendo certificados de investimentos, o FICART – foi idealizado para solucionar questões de fundo da nossa incipiente indústria cultural, atuando nos crônicos problemas de infra-estrutura técnica da área, como construção de estúdios, de casas de espetáculos, importação de equipamentos e, também, em eventos culturais de vulto, como musicais, turnês de artistas internacionais, festivais de filmes, de música, etc… Aqui os benefícios fiscais deveriam ser parciais, já que haveria expectativa de lucro financeiro por parte dos investidores.

MECENATO

Bem mais leve e flexível, o MECENATO dirigia-se prioritariamente ao fomento da produção e distribuição dos bens culturais, atendendo emergencialmente à enorme demanda reprimida da área resultante de mais de duas décadas de regime autoritário.

Este mecanismo foi vinculado intencionalmente à política de comunicação das empresas patrocinadoras, de forma a promover a pulverização dos recursos e, ao mesmo tempo, forçar a profissionalização dos agentes e produtores culturais, meta que vem sendo alcançada de forma satisfatória.

Porém, se por um lado o MECENATO descentraliza as decisões favorecendo a renovação e a diversidade no fazer artístico, por outro, deixa de fora de sua órbita uma considerável quantidade de manifestações culturais não-comerciais. É precisamente neste ponto que o FNC desempenharia um papel decisivo.

FNC

Idealizado para compensar as omissões inerentes aos dois primeiros mecanismos, o Fundo Nacional de Cultura, a terceira haste do tripé, deveria cumprir, entre outras, a função de manter viva as culturas locais, como determinam alguns de seus dispositivos:

“Art. 4.º – Fica ratificado (…) o Fundo Nacional de Cultura- FNC , com o objetivo de:

I. Estimular a distribuição regional eqüitativa dos recursos a

serem aplicados na execução de projetos culturais artísticos;

II. Favorecer a visão interestadual, estimulando projetos que

explorem propostas culturais conjuntas, de enfoque regional;”

Além de funcionar como um mecanismo de compensação do desequilíbrio regional, o Fundo apoiaria ainda artistas e produtores que não encontram amparo no mercado, mesmo nos grandes centros:

“V. Favorecer projetos que atendam às necessidades da produção

cultural e aos interesses da coletividade (…), a priorização de

projetos em áreas artísticas culturais com menos possibilidade

de desenvolvimento com recursos próprios.” (Grifos nossos)

O texto da lei fala por si. O FNC foi criado como o instrumento que garantiria estabilidade ao processo.

Das falhas de funcionamento

A normatização do FICART nunca se completou tornando-o inoperante. Como conseqüência, inúmeros empreendimentos de vulto (incluindo construções de teatros e megaturnês de circo estrangeiro) cujo desenvolvimento natural deveria se dar no âmbito do FICART terminaram se acomodando no interior do MECENATO, levando-o a uma sobrecarga.

A este desvio somou-se outro: o FNC jamais foi utilizado na sua função original. Uma parte de seus generosos recursos freqüentemente sofre contingenciamento e a outra é destinada a finalidades que nada fazem pela cultura regional ou pelo fazer artístico de caráter não-comercial. A conseqüência é que o déficit neste dois itens hoje é imenso e está na base da crise atual.

A Lei Rouanet foi produto de um demorado processo de discussões transcorrido nos anos 1990/91, envolvendo entidades culturais de todo país em um grande esforço de mobilização sob a coordenação do filósofo e cientista político Sérgio Paulo Rouanet, então à frente da pasta da Cultura. Ao contrário do que às vezes é divulgado junto à opinião pública, esta lei constitui-se em um sistema inteligente, moderno, abrangente e com clara vocação democratizante, desde que adequadamente aplicada.

Paulo Pélico


contributor

Coprodutor do espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Flávio Rangel e Millor Fernandes, e diretor do documentário "Fora do Figurino", sobre o caráter do jeitinho brasileiro.

10Comentários

  • ROMULO DUQUE, 29 de abril de 2008 @ 11:43 Reply

    FRASTECHI entendeu ou precisa desenhar????

  • Célio Iazzeta, 29 de abril de 2008 @ 12:21 Reply

    É muito importante que as informações que este artigo traz sejam amplamente divulgadas, pois elas demonstram que a Lei Rouanet já tem mecanismos compensatórios. O problema é que eles não são utilizados adequadamente. O que se tem que fazer então não é acabar com a lei Rouanet, mas sim aprimorar a sua utilização de forma responsável e eficiente. Parabéns pelo artigo.

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 9:57 Reply

    “Sobre incentivos culturais”

    Com relação ao editorial Incentivos culturais (24/4, A3) e à polêmica que se instalou no País em torno de propaladas reformas na Lei Rouanet, temos a esclarecer que concordamos plenamente com o editorial quando diz: “A atuação do Estado no setor cultural deve se circunscrever à definição de prioridades e ao financiamento de atividades com relevância artística e cultural, que atendam aos interesses maiores da sociedade” e “o sistema de incentivos fiscais no setor cultural se converteu num jogo que favorece o marketing das grandes empresas e grupos artísticos com capacidade de mobilização política ou vinculados às grandes redes de televisão.” Entrando, agora, no que considero o âmago da questão, pergunto: que parcela da população brasileira, principalmente das classes C, D e E, está tendo acesso aos espetáculos beneficiados com os incentivos da Lei Rouanet, isto é, com dinheiro público (o meu, o seu, o nosso dinheirinho!)? Quantos artistas, pessoas físicas, com DRT profissional (por terem feito cursos que os capacitam a exercer a profissão ou puderam comprovar experiência profissional de no mínimo cinco anos), tiveram suas atividades beneficiadas com os incentivos da Lei Rouanet? Quantas atividades artísticas por esse Brasil afora, baseadas na cultura popular – ciranda, capoeira, banda de pífanos, cantadores, bumba-meu-boi, folia de reis, caboclinhos e outras centenas de genuínas manifestações culturais, prestes a desaparecer por falta de apoio -, recebem os incentivos da Lei Rouanet? Qual o salário dos artistas e técnicos que trabalham nas produções com incentivo da Lei Rouanet, tanto como trabalhadores artísticos ou forçados a “se cooperarem”? Precisamos de respostas a essas questões, já que a definição de cultura é ampla e tanto contempla peças de Shakespeare ou Brecht quanto os grupos praieiros que se juntam nas noites de lua para dançarem o “coco”, mas que estão desaparecendo por não terem dinheiro para se deslocarem até os centros de ensaio. Vamos, portanto, preservar os incentivos fiscais, pois eles são necessários, mas vamos selecionar os recebedores desses benefícios, evitando que o dinheiro público vá engordar o bolso de grandes empresários. Por favor, não tenho nada contra os ricos ou grandes e gostaria que todo brasileiro pertencesse a esse segmento econômico/social.

    LÍGIA DE PAULA SOUZA, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo (Sated-SP)
    presidência@satedsp.org.br
    São Paulo

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 30 de abril de 2008 @ 10:07 Reply

    ESTADÃO 24/04/2008
    INCENTIVOS CULTURAIS!!
    O produtor cultural Yacoff Sarkovas definiu a questão em artigo recentemente publicado no Estado. ”Vamos imaginar que os médicos também reivindiquem lugar à mesa para investir um naco do imposto na saúde pública, a seu critério; os educadores, para manter abertas as escolas públicas; as empresas de transporte, para criar estradas exclusivas; e – por que não? – cada cidadão, para reter outro tanto do imposto para montar o próprio esquema de segurança. Antes que a mesa estivesse cheia, não haveria mais imposto a recolher”, diz Sarkovas. ”Iludidos pela perspectiva de injetar recursos no seu campo de atividades, artistas lutam para propagar o câncer do incentivo fiscal, em vez de exigir políticas e fundos de financiamento direto do Estado, regidos por critérios técnicos e públicos”, conclui.

    Na realidade, a atuação do Estado no setor cultural deve se circunscrever à definição de prioridades e ao financiamento de atividades com relevância artística e cultural, que atendam aos interesses maiores da sociedade e não aos interesses empresariais de artistas, produtores e diretores. Do modo como está organizado, o sistema de incentivos fiscais no setor cultural se converteu num jogo que favorece o marketing das grandes empresas e grupos artísticos com capacidade de mobilização política ou vinculados às grandes redes de televisão. Por isso, em vez de aprofundar esse sistema, melhor seria rever o modelo adotado, redefinindo o papel do Estado no campo da cultura e as fontes de financiamento do setor.

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 10:40 Reply

    “Justiça do Rio aceita denúncia contra sócio do Canecão”
    A 5ª Vara Criminal do Rio aceitou denúncias de falsidade ideológica e estelionato qualificado contra Priolli

    Fabiana Cimieri – Agencia Estado
    Tamanho do texto? A A A A
    RIO – A 5ª Vara Criminal do Rio aceitou hoje uma denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o empresário Mário Hamilton Priolli, principal sócio da casa de espetáculos Canecão. Priolli é acusado de falsidade ideológica e estelionato qualificado. Para assegurar o patrocínio da Petrobras, ele teria usado uma pessoa jurídica diferente para esconder uma dívida de R$ 5 milhões da casa de shows com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 11:33 Reply

    CULTURA E MERCADO!
    O descaso pela arte
    22/01/2008 Almandrade

    “Na época atual, a fatalidade de toda e qualquer arte é ser contaminada pela inverdade da totalidade dominadora.” (Adorno)

    A arte, como um trabalho intelectual que amplia a experiência que o homem tem do real e do imaginário, opõe-se ao trabalho alienante da sociedade moderna. Por outro lado, no meio de arte, convivem compromissos e interesses alheios à própria arte; suas condições de produção encontram-se dentro de um campo social e político, sujeito a um conjunto de pressões. O Estado, os patrocinadores e o mercado, visando a interesses imediatos, privilegiam, muitas vezes, artistas cujas obras pouco acrescentam ao mundo da inteligência.

    No espetáculo montado pela política, tudo se confunde, tudo passa pela ideologia do poder e pela estética do espetáculo, como a educação, a economia, a ecologia e os discursos políticos. Nesse palco, a cultura foi relegada a uma coisa mundana, uma espécie de conhecimento ornamental que serve à mídia e ao jogo social; a arte perdeu sua singularidade e suas qualidades que a colocavam acima das banalidades do cotidiano, deixando de ser o olhar que interroga, que transforma cores, texturas, formas, experiências sensoriais em meio de conhecimento. Nesta relação entre cultura e poder, insere-se a “crise da arte”, na qual o poder tem prevalecido sobre a pesquisa estética.

    Enquanto trabalhos com alguma importância pela pesquisa neles investidos passam despercebidos, trabalhos diluidores da informação, reproduções de clichês divulgados pela mídia são celebrados pelos consumidores de decorações e divertimentos culturais. Uma sociedade sem demandas culturais acaba fazendo da arte uma atividade menor. O cotidiano da política e da economia faz o discurso que se infiltra em todos os espaços, expulsando a cultura para a periferia dos interesses da cidadania. Os artistas que, mesmo sem construírem uma obra, têm os seus reconhecimentos garantidos pela indústria da publicidade, sobrepõem-se àqueles que tem uma vida dedicada à pesquisa e ao trabalho de edificar uma linguagem, contribuindo para a demolição da pseudo-ética vigente e do pensamento crítico.

    Sem uma consciência crítica e sem uma convicção ética, artistas, críticos, intelectuais, administradores culturais inventados pela mídia e pelo poder político tomam posição e decidem contra a autonomia e a independência do
    trabalho de arte. Promovem e divulgam os bens culturais em proveito próprio, para se sustentarem de forma privilegiada numa relação de poder. Nada mais paradoxal, por exemplo, do que essas leis de incentivo à cultura. Por que incentivar a cultura se ela é um componente essencial para o enriquecimento da sociedade? Antes de ser uma questão de lei, a cultura é uma questão de sensibilidade e de cidadania.

    Há um desinteresse geral pela cultura que ocupa um lugar cada vez menos importante nos discursos do cotidiano. Para ser artista, antes de tudo, é preciso ter um tráfego de influências pessoais, acesso à mídia e aos patrocinadores, que fazem da arte um produto incapaz de atribuir um sentido à existência da sociedade. E quem realmente patrocina a arte? “Os contribuintes pagam aquilo que as empresas recuperam através de isenções fiscais pelas suas doações, e somos nós que verdadeiramente subvencionamos a propaganda.” (Hans Haacke). Numa sociedade comandada pela economia, tudo se resume à lei da oferta e da procura.

    A arte, burocraticamente falando, é mais uma imagem carente de sentido que divulga um certo prestígio social e econômico, e menos um meio de conhecimento indispensável para o homem contemplar o mundo. Se a obra de arte é expressão de uma sociedade, testemunho de um tempo, de um estágio de conhecimento, renunciar à sua inteligibilidade é renunciar à História.

    A política, por sua vez, apropriou-se da cultura e fez dela um verniz para animar ou dar um polimento ao discurso político. A arte perdeu sua inocência, ela agora é objeto do mercado, do Estado e de outras instituições que desconhecem seus mecanismos de produção e sua História. Se os partidos políticos que falam de cultura em seus programas de campanha querem fazer alguma coisa pela cultura, não deveriam fazer coisa alguma, mas, sim, devolver aos intelectuais, aos artistas, a quem trabalha diretamente com a cultura, o poder de decisão e o comando do processo cultural. É preciso devolver à arte seu território perdido.

    Quem atualmente exerce o poder sobre o destino dos bens culturais, trabalha, direta ou indiretamente para o mercado, ou é burocrata de carreira que pouco entende das linguagens artísticas e suas leituras. Acabam desprezando os seus valores à serviço do senso comum. Muitas instituições que lidam com a arte, sem recursos econômicos e sem um corpo técnico ligado à área, perderam a importância e a autonomia, quando não são agências de eventos irregulares sem um projeto definido. A mídia dominou a cultura e o artista deixou de lado a indagação da linguagem da arte, abandonou a solidão do atelier, para se tornar um personagem público do teatro social. E a proliferação de um produto designado como arte e do discurso estético, sem a arte, pode significar o desaparecimento da própria arte.

    Almandrade é artista plástico, poeta, arquiteto e presidente da Associação de Artistas Visuais da Bahia

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 12:04 Reply

    MinC investiga pedido de captação para show de Ivete Sangalo
    Publicidade
    DÉBORA BERGAMASCO
    da Folha Online

    O Ministério da Cultura investiga um indício de fraude em um pedido de captação de recursos para um anunciado show de Ivete Sangalo. O valor: R$ 520 mil, por meio da Lei Rouanet. A solicitação foi aprovada pelo ministério, mas o assessor da cantora afirma desconhecer o evento e o pedido de captação. Também nega que o show tenha sido realizado (leia abaixo).

    Mastrangelo Reino/Folha Imagem

    Ivete Sangalo tem hoje um dos cachês mais altos do Brasil
    Após ter sido procurado pela Folha Online, o MinC decidiu abrir uma investigação sobre o caso.

    O projeto, que foi chamado de “Ivete Sangalo Repica Brasil”, cita uma apresentação de Ivete no estádio Brinco da Princesa, em Campinas (interior de SP), no dia 21 de janeiro deste ano. A autora da solicitação é a empresa Acontece Administração e Organização de Festas, registrada em Santo André (Grande SP), que pediu para captar, por meio e renúncia fiscal, R$ 1.427.507,80 –dos quais apenas cerca de um terço foi aprovado.

    A autorização foi publicada no “Diário Oficial da União” no dia 22 de junho –data posterior àquela que seria a do evento (uma prática legal, segundo o ministério). Dele deveria constar a assinatura da artista citada, o que não ocorreu.

    O assessor da cantora, Eduardo Scott, disse à Folha Online que segundo o irmão e empresário da cantora, Jesus Sangalo, ela não fez a apresentação na cidade. Ele informou que shows da cantora na cidade costumam ser realizados pela empresa de eventos dos cantores Sandy e Junior. Scott disse que a cantora nunca foi procurada pela empresa Acontece.

    Marcos Borga/Reuters

    Produção da cantora baiana afirmou não ter sido procurada pela empresa Acontece
    A Secretaria de Incentivo e Fomento à Cultura, responsável pelo caso, informou que solicitou a carta de anuência da cantora ao proponente, que alegou não ter condições de obter tal documento sem o pagamento de um sinal à artista.

    Funcionários do estádio de Campinas também disseram que a apresentação “nunca aconteceu e nunca acontecerá”, já que o local tem grama especial e não comportaria shows desse porte.

    A empresa Acontece não foi encontrada para comentar o caso. O número de telefone apresentado pela empresa ao MinC pertence a uma farmácia de manipulação, que afirmou possuir a linha telefônica há menos de um ano. Se houve, a mudança do número deveria ter sido comunicada ao ministério.

    Procurada, a secretaria afirmou que o processo foi arquivado porque ficou constatado que o prazo para captação havia acabado. O órgão afirmou que entrará em contato com a empresa para “apuração dos fatos e a averiguação de alguma irregularidade”.

    Se houver confirmação de fraude, a empresa pode, entre outras sanções, ter de entregar os recursos eventualmente captados para o Fundo Nacional da Cultura. Isso se os donos forem localizados.

    Outros casos

    No mês passado, outro caso envolvendo captação de recursos por meio de renúncia fiscal (as empresas deixam de entregar determinado percentual de imposto para investir o valor em um projeto cultural) gerou polêmica. O MinC aprovou, dentro da legalidade, captação de R$ 900 mil para o DVD da cantora Vanessa da Mata, abrindo discussões sobre a utilização dessa ferramenta para produtos comerciais e com previsão de lucro.

    No ano passado, outro caso polêmico envolveu as leis de incentivo fiscal. O Cirque du Soleil conseguiu liberação para captar R$ 9,4 milhões para suas apresentações. A operação foi feita pela Lei Rouanet. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, chamou a liberação de “distorção”.

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 12:16 Reply

    É ponto importante – a lei de incentivo é apenas um mecanismo de financiamento. Que serve, bem ou mal, à reduzida parcela da produção artística. E, para além dos grupos organizados e dos artistas cuja simples presença no Senado repercute na mídia, há uma maioria silenciosa lutando para produzir e aprimorar a arte teatral em todo o país. Para levar “O Avental” ao festival de Curitiba, o grupo baiano Teatro de Bastidores fez uma via crucis por órgãos públicos e, ao final, contou sobretudo com seu público. “Teve até um espectador que pagou uma das passagens”, diz a produtora Graça Regina Souto Silva. Viajaram sem cenário, que recompraram em Curitiba (R$ 270) e lá deixaram. “Nosso projeto foi aprovado na Rouanet, mas não captou.” Um caso, entre muitos. Nesse caso, um bom espetáculo de autor premiado, Marcos Barbosa.

  • Carlos Henrique Machado, 30 de abril de 2008 @ 12:26 Reply

    A Lei Rouanet e o negócio da cultura
    Sérgio de Carvalho e Marco Antonio Rodrigues – Publicado originalmente na Folha de S. Paulo
    17.04.2008

    O debate sobre a extinção da Lei Rouanet tem mobilizado setores importantes da sociedade brasileira. Parte da classe artística, secretários de governo e jornalistas têm assumido o ponto de vista “reformar, sim, acabar, nunca!”.

    De fato, a Lei Rouanet tem se mostrado uma força miraculosa em seus 17 anos de vida. Basta dizer que mudou a paisagem da avenida Paulista, em São Paulo, ao fazer surgir uma dezena de centros culturais. Curiosamente, instituições com nomes de bancos, que elogiam o espírito abnegado da instituição financeira. Seu nascimento está ligado à caneta do presidente Collor de Mello, em 1991. Tinha, então, um nobre objetivo pré-iluminista: incentivar o mecenato. Só que a aristocracia do passado contratava diversão com recursos do próprio bolso. Já a Lei Rouanet está mais afinada com a cartilha liberal-conservadora de sua época: “O Estado deve intervir o mínimo, a sociedade deve se autogerir, mas, para isso, é preciso uma ajudazinha”.

    Todo o poder miraculoso da lei tem a ver com seu mecanismo simples: ela autoriza que empresas direcionem valores que seriam pagos como impostos para a produção cultural.

    A idéia parece boa, mas contém um movimento nefasto: verbas públicas passam a ser regidas pela vontade privada das corporações, aquelas com lucro suficiente para se valer da renúncia fiscal e investir na área.

    Assim, os diretores de marketing dos conglomerados adquirem mais poder de interferir na paisagem cultural do que o próprio ministro da Cultura. E exercem tal poder segundo os critérios do marketing empresarial. O estímulo aos agentes privados resulta em privatismo.

    Diante da grandeza do fundo social mobilizado desde 1991 (da ordem de R$ 1 bilhão só no ano de 2007), é possível compreender a gritaria das últimas semanas. Por trás da defesa da Lei Rouanet, há maciços interesses. Não só os das instituições patrocinadoras, que aprenderam a produzir seus eventos culturais, mas os da arte de índole comercial (feita para o agrado fácil), que ganha duas vezes -na produção e na circulação-, na medida em que os ingressos seguem caríssimos.

    Os maiores lucros, contudo, ficam com os intermediários. De um lado, as empresas de comunicação, cujos anúncios pagos constituem gigantesca fonte de renda, em média 30% dos orçamentos. De outro, a casta dos “captadores de recursos”, gente que embolsou de 10% a 20% do bilhão do ano passado apenas por ter acesso ao cafezinho das diretorias de empresas.

    Como não há julgamento da relevância cultural na atribuição dos certificados que habilitam o patrocínio, a lei miraculosa abriu as portas dos nossos teatros às megaproduções internacionais, que ganham mais aqui do que em seus países de origem.

    O caso do Cirque du Soleil, com seus R$ 9 milhões de dinheiro público e ingressos a R$ 200, está longe de ser exceção. Ao contrário, é a norma de um sistema em que o Estado se exime de julgar a qualidade em nome do ideal liberal de tratar os agentes desiguais como iguais e “conter o aparelhamento político da cultura”.

    O pressuposto filosófico do debate foi revelado pelo secretário da Cultura de São Paulo, João Sayad: “Antigamente, numa era religiosa, o natural era a coisa criada por Deus. Hoje, o natural é o que dá lucro”.

    Ao defender o subsídio contra o mercado excludente, assume a impotência do Estado e endossa a idéia de naturalidade (portanto, imutabilidade) do império do capital sobre qualquer coisa que já se chamou “vida”. Uma reforma da Lei Rouanet incapaz de impedir o controle privado de recursos públicos não faz sentido.

    O Estado pode estimular a generosidade humanista dos empresários com renúncia fiscal, mas não pode deixar de regular a distribuição do fundo social com regras claras de concorrência pública. Não parece óbvio? Então, por que não enfrentar o debate sobre valores culturais?

    Por que contribuir para a universalização da lógica mercantil? O “aparelhamento político da cultura” pode ser questionado em público. O desejo unilateral de um gerente de marketing, não.

    Num passado recente, o governo Lula sacrificou seus membros para não enfrentar a tropa de elite da mídia eletrônica. Estava em questão a exigência de “contrapartida social” no patrocínio das estatais.

    Sua disposição conciliatória pode, de novo, impedir uma transformação maior, rumo a uma cultura livre, pensada como direito de todos. Mas qualquer mudança exige, no mínimo, considerar a hipótese de que a realidade e o mercado não são uma coisa só.

    * Sérgio de Carvalho é diretor da Companhia do Latão e professor de dramaturgia da USP.
    ** Marco Antonio Rodrigues é diretor e um dos fundadores do Folias, companhia teatral.

  • neri gervasoni, 28 de novembro de 2008 @ 23:40 Reply

    sem os beneficios da renuncia fiscal,cidades de pequeno porte onde um grupo de dança faz a diferença,a gravação de cantores regionais,oficinas de artes integradas,serão extintos.a captaçao com todas as falhas é a forma mais democratica de sonhar em locais onde a cultura ainda esta a florecer….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *