Não são poucos os relatos que flagram os desequilíbrios que a Lei Rouanet nos revelou até então. A discussão sobre a sua eficácia, além de passar por artistas e produtores, empresas e MinC, deveria, obrigatoriamente, passar pela sociedade, pois é dela, da sociedade que todo esse processo se nutre, desde a criação e desenvolvimento da arte até o mecenato, mas ao contrário, a sociedade está sendo tratada nessa questão como mera coadjuvante.

Se analisarmos os resultados práticos da Lei Rouanet durante esses dezessete anos de existência, ou seja, como um mecanismo que avaliza a captação de recursos via impostos pagos pela sociedade para financiar suas expressões artísticas, vamos ver os enormes valões deixados a céu aberto impedindo a fluidez de sua funcionalidade, um convite explícito a uma atmosfera de terra de ninguém, que sem um saneamento necessário, vem desenvolvendo uma espécie de epidemia que se alastra perigosamente Brasil afora. Na prática, a coisa tomou rumos inversos aos que uma lei tão importante como a Rouanet deveria ter tomado. Muitos banalizaram a lei, transformando um mecanismo de acesso e fomento em algo puramente especulativo sem as devidas preocupações com os seus desdobramentos e benefícios para o conjunto da sociedade. Confundiram sociedade com platéia, contribuinte com consumidor, o que fez com que a lei abandonasse o preceito básico que ela deveria obedecer, o de cidadania.

A Lei Rouanet deveria contemplar as curvas de uma longa construção da sociedade brasileira, porém, contempla o predatório individualismo que se molda de acordo com interesses próprios, o que causa um enorme desequilíbrio e desigualdade.

O que se observa no Brasil, é que as nossas históricas ações institucionais rumo ao desenvolvimento de políticas culturais, desprezam a compreensão da arte como um grande movimento. Contempla-se uma lógica primitiva de buscar em outros mundos a civilização, a doutrina, a disciplina, numa clara visão de retrocesso, um desrespeito às escolhas feitas pelo conjunto da sociedade brasileira construída durante séculos de uma fantástica miscigenação e sincretismo cultural. Essa visão oficial deformadora é muito bem nutrida por um pensamento descolado do país e nos devolve à condição de republiqueta, dependente e submissa.

A Lei Rouanet e todo o conjunto dos seus aspectos não trouxeram à baila a grande discussão, ao contrário, foi neutralizada, pasteurizada pelo pensamento autista diante da construção de sua própria base estrutural. Do alto, essa lógica contemplou o campo árido da principal manifestação humana, a criação, a inventividade, a transformação, a antropofagia brasileira, dito pela primeira vez pelo atento Mário de Andrade que percebeu que todas as matrizes e matizes, fundidas, tinham se tornado bases concretas para o desenvolvimento de uma arte liberta das amarras estéticas importadas. Tínhamos já uma arte dinâmica, a mesma mantida, até os dias de hoje, com o mesmo vigor pela necessidade de expressão da sociedade brasileira, fugindo da mecanização macaqueada por módulos que chegaram ao Brasil há exatos duzentos anos.

Em uma outra imagem, ao invés do sonho do possível desenvolvimento de um mercado virtuoso que propiciasse dinamismo, assistimos, na prática, o que os economistas classificam como “o vôo da galinha”, assim como os planos econômicos que tivemos num passado recente e que não decolaram. Talvez por uma herança de tratar a questão econômica com varinhas de condão e fazer um mercado tão complexo pegar no tranco. Então, proliferam-se feiras e festivais de uma absurda fugacidade, numa reedição falsificadora dos bailes de cinderela em que à meia noite em ponto, a carruagem volta à condição de abóbora. São festões com muitas estrelas já incluídas no mercado privado do entretenimento, se justificando nesses grandes eventos por uma desvairada e irresponsável política de aglutinação e propaganda. No dia seguinte, levanta-se o acampamento e fim de linha. Não fica um benefício sequer de toda uma extraordinária massa de recursos que deveria ser destinada a um investimento planejado para inaugurar círculos da sonhada virtuosidade de um mercado cultural. Somam-se a todas essas distorções as instituições de fachada, ongs, fundações e centros culturais fajutos nascidos nas sombras da lei. O uso político-eleitoral dos recursos da lei também é flagrante com a promoção do popularesco, algo exótico e divertido, que traga dividendos políticos ao mandatário seja do estado ou do município, um coronelismo contemporâneo. Lógico que a mesma lei trouxe à luz grandes trabalhos, grandes idéias, fantásticos projetos, mas deixou de fora um número três ou quatro vezes maior de outros grandes trabalhos e idéias para fazer jus a uma servidão a enormes interesses que se confraternizam com a ganância e a total irresponsabilidade com a coisa pública.

A Lei Rouanet não é um PROER, não é o Banco Central americano nem o europeu que correm para salvar altos investimentos numa bolsa irresponsável de cultura ou mesmo de protecionismo de qualquer ordem. Essa lei existe para dar start e não como meio de produção cultural, servindo como cabide de emprego público disfarçado, eternizando figuras manjadas e carimbadas que viveram até então no berço esplêndido  das sombras e águas frescas de recursos públicos e que, historicamente, pouco ou nada foram cobrados, seja no campo do mercado ou no campo social.

O Ministério da Cultura tardou em chamar a sociedade para discutir a lei. Talvez tenha faltado clareza em suas políticas, mas caminhou bastante no sentido de promover uma abertura no conceito de cultura brasileira, mas na lei o Ministério ficou acomodado. Todos nós temos muito que amadurecer, temos que estar vigilantes, empresários, produtores e artistas, pessoas sérias que são a grande maioria, Ministério da Cultura e a sociedade, para que a Lei Rouanet não continue sendo uma espécie de lei de Gerson, até porque, os recursos não são de uma Vila Rica, ao contrário, ainda são escassos e por isso, precisam ser muito bem aplicados numa, digamos, “agricultura familiar” que nutra de fato a nossa extraordinária diversidade e combata uma inflacionada lógica de custeio de um estrelato mimado,”clássico” ou “popular”.
A Lei Rouanet tem que ser respeitada como lei que nasceu com o intuito de promover a arte de um sentimento brasileiro, ou seja, reformulá-la é acompanhar a dinâmica da nossa própria cultura que, desde o seu nascedouro, no princípio do Brasil, até os dias de hoje, não parou de se reformular e se dinamizar, ampliando os seus horizontes a cada minuto, produzindo formas cada vez mais extensas, incorporando, a cada instante, novos elementos que vão surgindo no seio da nossa sociedade. A lei tem que ser também, como a nossa cultura, antropofágica e não estática. Acabar com ela é mesmo uma temeridade, mas deixá-la como está, mórbida, obesa, improdutiva, terá naturalmente, um fim com a falência orgânica promovida pela intoxicação de acúmulos de interesses alheios à arte ou ao sonhado mercado cultural, acúmulos que entopem artérias e poros causando uma asfixia letal. Ou a lei toma as formas escolhidas pelo conjunto da sociedade brasileira ou será sempre alvo de crítica dessa mesma sociedade.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

3Comentários

  • Virgínia Mello, 28 de maio de 2008 @ 20:40 Reply

    Acho que o autor está completamente equivocado ao querer criticar a Lei Rouanet cobrando dela a solução de problemas como a “mecanização macaqueada por módulos que chegaram ao Brasil há exatos duzentos anos” ou ainda querer que ela solucione os “enormes valões deixados a céu aberto” na cultura.
    Isso é sim função do governo e do Ministério da Cultura, mas a Lei Rouanet é apenas um instrumento de política cultural entre tantos que o governo deveria gerir com competência (o que não faz). Acontece que a Lei Rouanet com toda a inteligência do seu mecanismo incentivador conseguiu se tornar muito mais pujante do que o próprio orçamento do MinC. Essa é também um dos seus grandes méritos. Conseguir crescer ano a ano e manter-se à margem da mídéria orçamentária imposta ao Ministério da Cultura.
    Também não é honesto daparte do autor falar das “instituições de fachada, ongs, fundações e centros culturais fajutos nascidos nas sombras da lei” sem mencionar as fundações, centros culturais e todos os produtores culturais sérios que se servem da Lei Rouanet para realizar boas obras pela cultura.
    O autor também criticou projetos que classificou como fugazes e que não tem efeito no longo prazo falando dos “festões com muitas estrelas já incluídas no mercado privado do entretenimento, se justificando nesses grandes eventos por uma desvairada e irresponsável política de aglutinação e propaganda”
    Quanto á fugacidade e aos festões não vou entrar no mérito da arte e nem na necessidade de não ser breve para ter valor e efeito artístico. Uma música pode ser tão fugaz quanto os dois ou três minutos de sua duração, mas tão marcante quanto a lembrança de versos para uma vida inteira.
    Quanto aos artistas já consagrados pelo mercado e que não deveriam “em tese” receber apoio do dinheiro público, isso realmente merece uma discussão criteriosa de quais seriam as medidas técnicas que o MInC deveria adotar para avaliar se um projeto pode ou não ser economicamente viável sem o apoio do patrocínio da Lei Rouanet. Mas se esse governo estivesse interessado realmente nesse tipo aperfeiçoamento da lei Rouanet, teria mais vergonha na cara e teria mantido o indeferimento do projeto de R$ 1,9 MM da Maria Bethânia amiga do nosso Ministro que foi indeferido pela CNIC e depois aprovado pelo Juca Ferreira a pedido do Gil. Hoje vi uma matéria no Estadão falando dos projetos que foram rejeitados pela última reunião da CNIC num tom de que o MInC agora zela pela boa aplicação dos recursos públicos. Nessa reportagem o Juca Ferreira aparece dizendo na maior cada de pau que hoje ”de fato, há mais rigor” e que o esforço tem sido no sentido de se barrar ”o que não merece o dinheiro público, ou não se enquadra na lei, ou pode ter amplo apoio do mercado”. Realmente é de dar risada essa declaração depois do mesmo Juca ter canetado a aprovação forçada do projeto da Bethânia.

  • Virgínia Mello, 28 de maio de 2008 @ 20:47 Reply

    O final do meu comentário acima só demonstra que essa mudança que o MinC disse que vai propor para mudar a Lei é só política. Eles não es~tao interessados em trabalhar pela cultura, se estivessem estariam procurando resolver os problemas reais de adminsitração na Funarte (que acumula uma pilha de mais de 4 mil projeto dizem) ao invés de ficar culpando o mercado pela incapacidade de fazer política cultural que eles tem. Quem tá lá hoje está interessado em trabalhar para concentrar recursos e poder e acham que minando a Lei Rouanet vão conseguir mais verba orçamentária incontingenciável. É a doce ilusão de que o atual FNC (Fundo Nacional da Cultura) passe a ser o Fundo Não Contingenciável. O resultado prático disso é que os recursos para a cultura como um todo vai diminuir. Quem vai perder não são os que podem se manter pelo mercado, pois se eles podem agora, poderão também depois. Quem vai sair perdendo é a infinidade de pequenos e médios produtores que também utiliza da Lei.

  • Yuri Abyaza Costa, 9 de outubro de 2008 @ 12:38 Reply

    Ao meu ver a Lei Rouanet é maravilhosa. Pena que não é difundida. Outras leis deveriam ter incentivo fiscal. A Lei Rouanet é uma forma de o empresário ter a certeza de saber onde o dinheiro dele está indo. Digo dele porque 15 ou 20% de tributos ao Governo é um furto legalizado. Onde o Governo aplica todo esse dinheiro? Não sabemos. A não ser eles. Então porque não aplicar 4% desses 20% em um projeto que pode proporcionar “alegria” a muitos? Não vejo crime nisso.

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