Fruto de um esforço conjunto de Uni.Nomade e S.a.L.E. (Signs and Lyrics.Emporium), entre uma rede transterritorial de militantes e pesquisadores, que fazem análise crítica dos temas da contemporaneidade

16, 17 e 18/5/2008 – S.a.L.E. DOCKS, VENEZA – www.sale-docks.org.

O evento “Multiversity [MULTIVERSIDADE], ou a ARTE DE SUBVERSÃO”, é fruto de um esforço conjunto de Uni.Nomade e S.a.L.E. (Signs and Lyrics.Emporium), entre uma rede transterritorial de militantes e pesquisadores, que fazem análise crítica dos temas da contemporaneidade, e um espaço autogerido chamado S.a.L.E. docks, nascido há alguns meses em Veneza, para intervir no plano prático no mundo da produção cultural. Um mundo que, não só em Veneza, tem-se afirmado como área preferencial para processos correntes de valorização do capital.

De fato, se nos concentramos na arte contemporânea, pode-se ver sua importância indubitável em pelo menos três níveis.

Primeiro, pelo papel central que têm os patrimônios imateriais e o conhecimento, a criatividade e os afetos, os talentos relacionais e comunicacionais, para as formas contemporâneas de produção. A produção artística tem lugar destacado nesta centralidade.

Segundo, porque o contato da produção cultural com a metrópole, no entrelaçamento entre planejamento urbano e arquitetura, moda e design, arte e literatura – neste espaço que é social por excelência, as bacias urbanas – é elemento crucial no processe de subjetivação, mediante o qual constrói-se a multiplicidade das formas da vida que habita aquelas bacias. Por outro lado, este contato é fator decisivo para que se defina o posicionamento estratégico de cada área metropolitana na competição econômica entre as cidades globais.

Terceiro, pela importância do contato e do relacionamento entre o mercado de arte e o capital financeiro; no plano global, bancos e empresas transnacionais estão entre os principais investidores num setor que, hoje, parece ser o único ainda não atingido, nem de leve, pela crise mundial do sistema mundial de circulação de dinheiro.

Assiste-se hoje a um complexo sistema de captura que o capital pôs em jogo no fluxo múltiplo da produção cultural informal, a partir da apropriação da habilidade para cooperar de inteligências e modos de vida individuais, para garantir a valorização do que já se definiu como “o capital simbólico coletivo”.

A complexidade destas dinâmicas depende de um duplo mecanismo de exploração. Um dos aspectos deste mecanismo são as barreiras erguidas para proteger a propriedade intelectual – com a conseqüente apropriação, por alguns, do conhecimento geral social. O outro aspecto deste mecanismo é a relação parasitária que se estabelece na produção criativa, como resultado das intervenções especulativas que ocorrem no corpo da metrópole – onde o Estado e as instituições privadas estabelecem os grandes eventos e feiras de arte, em zonas e metazonas culturais.

A experiência S.a.L.E. quer mergulhar criticamente na cidade. O evento MULTIVERSITY denominado “culture factory” [fábrica de cultura] quer ser um lugar para avaliar o capitalismo cognitivo, mas apenas na medida em que seja o lugar da subjetividade criativa, da expressão da multidão e, conseqüentemente, o espaço do encontro face-a-face entre a liberdade de criação e a autonomia cooperativa, por um lado; e, por outro lado, o sistema de dominação e exploração desta força produtiva.

Sob esta luz, MULTIVERSITY apresentará, discutirá e comparará com as experiências mais avançadas européias e globais, os primeiros resultados – portanto parciais – de uma pesquisa sobre a insegurança do trabalho vista pela arte contemporânea e o trabalho intangível.

Trata-se aqui, como principal questão, de entender os comportamentos e os métodos de intervenção que podem mudar uma composição social, já centrais nas formas de produção contemporâneas, considerada uma determinada composição política. Também se examinarão as questões centrais do treinamento acadêmico, oferecido pelas universidades, por um lado; e a rede de comunicação, por outro lado – considerados no âmbito da organização mais complexa do trabalo da “fábrica de cultura”.

Requisito indispensável para esta discussão é uma comparação entre dois campos:

— a arte contemporânea, entendida como “uma instituição social mais ampla” – dos eventos históricos que modelaram a arte do período pós-guerra, no espaço transcendental da especificidade midiática no espaço social, com suas disputas de força e relações que se estabelecem entre arte, movimentos sociais e ativismo cultural, fora de qualquer retórica ‘vanguardista’; e

— os métodos de captura, pelo sistema artístico intitucional, nos circuitos financeiros, de uma vasta herança de pensamento crítico e modos de vida.

Por isto, o evento MULTIVERSITY será organizado em quatro seminários:

1. Arte e ativismo

Para problematizar os ententos históricos e as formas contemporâneas, no entrelaçamento entre arte e ativismo.

Algumas das questões propostas para iniciar a discussão serão:

— Por qual estrada andamos para ir, da concepção do trabalho como transcendental, a uma concepção do trabalho como objeto, processo ou dinâmica capaz de intervir no espaço-tempo humano e, portanto, nos processos sociais?

— Como fomos, de um julgamento do trabalho baseado numa topografia de suas características materiais, até outra concepção baseada na análise da função ou, mesmo, da eficiência do trabalho em termos sociais?

— Como a arte-ativismo funciona hoje, em tempos de pós-fordismo? Dado que se abandonou a retórica ‘vanguardista’, qual é a posição da arte e dos artistas no que tenha a ver com os movimentos sociais?

2. Arte e mercado: liberdade de criação e captura financeira

Este segundo ponto prevê que se apresentem dados sobre (a) as dimensões do mercado de arte e sobre (b) suas relações com o capital financeiro.

Aqui se assume que a arte é exemplo paradigmático de valor, considerado um paradoxo limite: se o trabalho artístico manifesta um nível máximo de liberdade criativa, ele hoje, ao mesmo tempo, também está submetido à fixação de preço pelo capital financeiro.

3. Arte e metrópole

Neste seminário, discute-se a volta da eficiência do paradigma artístico nas instituições sociais. Naturalmente, será indispensável ampliar o escopo das pesquisas, para incluir design, fashion, artes gráficas e arquitetura.

Aqui se assume que as metrópoles contemporâneas, definidas pela importante concentração de trabalhadores de trabalho criativo e trabalhadores do conhecimento, alimentam a indústria do entretenimento mediante um consistente subtrato de produção cultural informal e sempre renovado. Por outro lado, uma multiplicidade de elementos trabalhados e retrabalhados pela produção artística contemporânea estabelecem a vida da metrópole e suas formas subjetivas.

Recorrendo a um slogan, pode-se dizer que “a arte desenha sua própria fábrica”. E estamos interessados em olhar mais de perto este ciclo contínuo e irreversível.

4. Arte e multidão

Neste seminário, interessa pensar a composição social, os conflitos e a organização do trabalho vivo na “fábrica de cultura”. Aqui se examinarão os fundamentos da relação entre singularidade e multidão; entre produção individual e construção do comum. Dois planos de pesquisa andarão lado a lado:

— o plano histórico-artístico, com atenção às experiências que, iniciadas nos anos 60, foram desenvolvidas pelos artistas, como resposta à retórica do ‘gênio individual’, levaram às atuais plataformas de produção coletiva ligada à afirmação e à difusão da chamada “ética hacker”, ou “hacking social”. E

— o plano da composição social do “precariado” (trabalhadores precários), que cresceu em torno da deriva da indústria cultural. Dos alunos nos circuitos de “formação e treinamento” e trabalhadores reunidos nas cooperativas de logística & design, estagiários, internautas, trabalhadores-em-rede, consultorias, freelancers e ‘terceirizados’, até a uma classe global de artistas e profissionais que visam a converter-se em parte do sistema artístico internacional.

Nesta ampla galáxia social, queremos investigar as condições materiais da vida e do trabalho, necessidades e aspirações, desejos e possíveis afirmações (asserções).

Tudo isto, para chegarmos ao ponto-chave ao qual nos interessa chegar:

— como transformar esta composição social, em composição política?

PALESTRANTES: Marco Baravalle, Chiara Bersi Serlini, Antonella Corsani, Anna Daneri, Alberto De Nicola, Claire Fontaine, Brian Holmes, Maurizio Lazzarato, Antonio Negri, Pascal Nicolas-Le Strat, Hans Ulrich Obrist, Osfa, Matteo Pasquinelli, Judith Revel, Gigi Roggero, Devi Sacchetto, Pier Luigi Sacco, Marco Scotini, Marko Stamenkovic, Javier Toret Medina, Angela Vettese, Giovanna Zapperi.

DATAS E HORÁRIOS

1) 6ª-feira, 16/5, às 17h – ARTE E ATIVISMO

21h – Performance: “Margine Operativo”

2) Sábado, 17/5, 9h30 – ARTE E ATIVISMO (2ª sessão)

14h – ARTE E MERCADO

17h30 – ARTE E METRÓPOLE

21h – Performance (a definir)

3) Domingo, 18/5, 9h30 – ARTE E MULTIDÃO.

S.ignsA.ndL.yricE.mporium
Docks 187-188, Punta della Dogana, Venezia. www.sale-docks.org

Tradução: Caia Fittipaldi


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