Num mesmo diapasão em “la” que alguns julgam ser o tom universal, o Ministério da Cultura anuncia uma espécie de “O Dia do a Nível D”. Nem a frase que ainda tilinta na minha cabeça, do secretário de cultura do Estado de São Paulo, se referindo à OSESP, “toca aqui e escuta lá”, conseguiu ser mais mal explicada do que a justificativa do Ministério da Cultura do Brasil ao anunciar oficialmente o dia da música clássica.

A nota é vaga, lógico, se apóia no aniversário de um brasileiro que queria tudo, menos que sua música fosse vista como clássica. Ao contrário, Villa Lobos, que merece sim todas as homenagens que o Brasil lhe deve, fez questão de qualificar o homem comum brasileiro e sua cultura, de dar a ele todas as glórias internacionais, até porque Villa Lobos sabia o peso das pedras que esse mundo classista lhe jogou nas costas com as suas fantásticas obras e quebras fundamentais de paradigmas. Parece ironia, um anúncio tão vago que preserva a dualidade, a generalidade que os classistas adoram usar como refúgio.

Há um traço marcante no universo cultural brasileiro, a oficialização da hipocrisia, esta é uma característica típica do nosso eterno reinado cultural.

O MinC, com essa retórica classista, reedita a missão francesa e condena milhões de brasileiros à oficialização segregacionista tão apreciada pelos nossos homens clássicos, estes que, por mais que eu procure, não consigo enxergar, nem cientificamente, nem moralmente um traço sequer que jogue um mínimo de água fria na minha efervescência contrária a este verdadeiro cirque du soleil, porque aquele soleil que todos falam é fichinha perto do estrago psíquico que uma ação como esta faz diante de uma sociedade como a brasileira. O pior em tudo isso é que no atual estágio em que vivemos em que fomos devolvidos à condição de macaqueadores das técnicas estrangeiras, o compositor erudito brasileiro é hoje nas salas de concerto, algo proibitivo para os gran mestres da batuta.

Não faz muito tempo que o pau cantou quando ousamos dizer que a orquestra da Petrobrás se dedicaria exclusivamente a repertórios de músicos eruditos brasileiros tanto do passado quanto os contemporâneos que, sem dúvida, são de capacidade extraordinária de compor e arranjar para a estrutura orquestral.

Não sei aonde o MinC quer chegar com isso, disseminar a música técnica nas escolas? Isso seria um genocídio tão alertado por Villa Lobos. Vejam só que ironia! Ele que pediu tantas vezes que não cometessem essa absurda pedagogia, é agora o mentor espiritual de um decreto que visa contrariar as suas lógicas e práticas.

Só posso crer na força do lobbie, esse que utiliza o conceito clássico para justificar privilégios, esses que querem deixar claro, ao contrário do que o próprio ministério utiliza como slogan, que são diferentes na igualdade. Senhores de uma sabedoria nobre, mesmo que suas ações nos revelem o mais puro conceito medieval nas relações humanas, onde fazem questão de estimular, através de um tom separatista, o fosso que segrega pelo conjunto de aspectos de demarcação social e territorial que um bem planejado discurso de arte conceitual possa dar. Mas agora, credenciada pelo MinC, para eles está reservada a nobreza do doce de todos os frutos produzidos pela sociedade.

Não dá para compreender uma linha sequer do texto do MinC, ele é tão genérico quanto o próprio argumento “clássico” que mutila produções fundamentais para o país e se joga, ao longo de sua história, a dogmas exclusivamente sociais, mas além disso. É difícil inclusive contrapor, mas é mesmo assim que se ganha campo, que se obtêm vantagens na certificação silenciosa, em surdina, na calada da noite. Quando vemos, já está feita mais uma ação em prol da segregação do homem comum.

O exato sentimento que abriga este universo está associado à negação das manifestações naturais do povo brasileiro, ou seja, não popular, mas clássico. Genérico no conteúdo, mas extremamente produtivo na ação em benefício das oligarquias.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

1Comentário

  • Andrea M., 22 de janeiro de 2009 @ 7:38 Reply

    Mais uma vez me pergunto: por que o Brasil não pode simplesmente evoluir do que simplesmente é? O texto acima deixa maravilhosamente clara a resposta. Um tempo atrás tive o prazer de ouvir uma música do culto da Umbanda, recheado de atabaques, o ritmo quente com o devido acompanhamento de violino e a voz feminina nos melhores tons de Leila Pinheiro. Lindíssimo, eclético… enfim, Brasil!

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