Tive uma conversa interessantíssima com meu amigo de anos, Leo Brant. Na minha percepção, enfatizar que a Lei Rouanet é um instrumento de política pública e que, por decorrência, tem por função corrigir distorções de mercado, como caberia a qualquer instrumento de intervenção digno do nome, já havia sido feito à exaustão. O Leo achava que não. Ao menos, não da forma adequada. Tive de convir que ele tinha razão.

Fiz a lição de casa. Mergulhei em sites e cruzei “Lei Rouanet” & “distorções” no oráculo Google. Eis o que achei: 3.230 links. Encontrei alguns artigos e notícias particularmente interessantes. Dentre eles, uma declaração do Ministro Gilberto Gil à Folha de São Paulo, publicada no dia 28 de abril de 2006, referindo-se ao bode expiatório cognominado Cirque du Soleil como “distorção” e garantindo que “Estamos criando mecanismos na lei [Rouanet] para evitar distorções desse tipo, para dar a ela o caráter mais público para o qual ela foi criada” (sic). Mais de um ano depois, achei outra declaração, esta do Secretário Juca Ferreira, publicada no próprio site do MinC (www.cultura.gov.br/site/?p=7631), respondendo à repórter Maria Júlia Lledó, do jornal Hoje em Dia que: “A Lei Rouanet nasceu numa inspiração neoliberal de transferência de recursos para que a área privada fizesse a gestão das políticas culturais, definisse quais eram os projetos a serem apoiados. Estamos fazendo todo um processo de correção desse vício de origem.” Nunca antes na história deste país… Tudo culpa da herança maldita… Longa herança, que aos seus genes degenera. Afinal, se devemos reconhecer o passo que foi criar algo novo, teria cabido aos anos seguintes corrigir distorções. Ledo engano.

Motivos para comemorar, ora, não faltam. Afinal, “Quando chegamos aqui eram R$230 milhões de renúncia fiscal e agora são cerca de R$1 bilhão.” Três vivas para os meios, abaixo os fins. Vamos comemorar o fim da caixa de remédios. Afinal, quem se importa se a doença foi debelada?

Desculpem-me pela simplicidade de uma economista, mas não consigo deixar de me perguntar (a mim, já que para o MinC aparentemente tudo está em vias de ser resolvido, há, hum, pelo menos dois anos). Mais de cinco anos após o roteiro dessa novela estar sendo escrito por um Ministério tão verbalmente empenhado em corrigir um “vício de origem”, que hoje se transformou em um festejado vício de destino: qual é, afinal, a concatenação entre os objetivos (declarados) de política cultural e os objetivos (declaradas) da Lei Rouanet?

Uma lei de incentivo tem toda a razão e o mérito de ser, enquadrando-se sob a chancela de “instrumento de intervenção de mercado”. Ou seja, tendo em vista um mercado que não favorece o atingimento dos objetivos de política pública, entra em ação a lei. Isso pressupõe, primeiro, que saibamos quais são os objetivos de política pública de cultura. Segundo, que os problemas para que sejam atingidos estejam identificados. Terceiro, que a lei seja arquitetada de modo adequado a resolver ou minimizar esses problemas. E, finalmente, que se realize um monitoramento para analisar a que ponto esse instrumento de intervenção está desempenhando-se a contento. É com o coração verde e amarelo transpassado de interrogações que lanço as quatro questões ao vento. Ouço um arremedo de resposta à primeira pergunta, uma quem sabe tentativa à segunda e um silêncio sepulcral às duas últimas.

Tem mais: silêncio ecoado pela irmã gêmea Lei do Audiovisual. Ora, direis, certo perdeste o senso. Nem tanto. Dei-me ao trabalho de fazer um levantamento com base nas estatísticas disponibilizadas no link www.ancine.gov.br/media/Filmes_Nacionais_Lancados_em_2006.pdf. Eis o que achei: em 2006, raros foram os filmes que tiveram arrecadação superior ao incentivo público. Mas, infelizmente, a análise não pára por aí.

Convido-os a buscar os números relativos aos filmes “Brasília 18”, “Canta Maria” e “Só Deus Sabe”. Alguém viu o último? Dificilmente, já que, segundo a Ancine, somente 4.031 privilegiados tiveram esse prazer, gerando uma renda de R$28.438. Em compensação, o filme recebeu incentivos públicos (seus, meus, deles), no valor de R$3.700.000. Por aritmética simples, cada pessoa que assistiu ao filme custou aos cofres públicos a bagatela de R$917,89. Uma pechincha! Muito coerente com o que se esperaria de um instrumento de intervenção de mercado, certo?

Lei Rouanet, Lei do Audiovisual, leis X e Y estaduais e municipais, inspiradas nas primeiras. Mudam os nomes, permanecem os problemas: nosso vício, este sim, incontornável, de olhar para os meios como se fossem fins. E de achar que tudo é atribuível ao outro, sem assumir a parte que nos cabe.


Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

5Comentários

  • Alê Barreto, 13 de maio de 2008 @ 10:31 Reply

    Carla, como você e o Leonardo tanto falam, há uma grande confusão (intencional ou não) quanto aos meios e os fins no desenho e aplicação das políticas públicas.
    Apesar de estar trabalhando somente há cinco anos na área cultural, me causa uma grande estranheza que se dá muito mais atenção aos investimentos de maior porte e pouco se fala no meio cultural sobre fortalecer as micro e pequenas empresas, sobre se implantar e gestionar incubadoras culturais. Tenho a percepção que um aporte maior de recursos, em tese, pode gerar um maior efeito multiplicador. Mas se o efeito for assistir cinema com um ingresso custando para o estado a bagatela de R$917,89, penso que realmente poderia se dar mais atenção aos pequenos empreendimentos, por um certo período.

  • Marcos, 14 de maio de 2008 @ 22:56 Reply

    A Lei Rouanet de fato não substitui a ausência de políticas públicas federais para a área de cultura. Mas ela foi criada como apenas um de três mecanismos do PRONAC, e a legislação deixa claro que seu objetivo era incentivar as atividades culturais, o que – mesmo com distorções, que a Lei sozinha não pode resolver – creio ser difícil alguém negar que ela tenha feito nestes anos todos. Mas o PRONAC também criou o FNC, este sim com o propósito de priorizar projetos “com menos posisbilidade de desenvolvimento com recursos próprios” e “estimular a distribuiçào regional eqüitativa dos recursos…”, conforme também aparece na lei. A Rouanet de fato tem algumas distorções que precisam ser corrigidas, mas há muito tempo o debate deveria tirar o foco de cima desta lei e centrar atenções na ausência de políticas públicas (que poucos cobram do governo, enquanto se movimentam rapidamente em torno de qualquer alteração na Rouanet) e no FNC. Onde estão os recursos deste? Para onde estão indo? Como se tem acesso a eles?

  • Carla Fonseca, 16 de maio de 2008 @ 0:49 Reply

    Bem lembrando, Alê. Especialmente porque, segundo os próprios dados do IBGE, em convênio com o MinC, somente 0,5% das empresas culturais têm mais de 500 funcionários… Bom te ver por aqui.
    Marcos, entendo que sejam debates complementares e todos fundamentais . Aliás, é esse um dos problemas – cadê a visão de conjunto? Onde estão os dados, não só em uma planilha (o que não seria mal, para começar…) e onde está a análise de a que ponto respondem aos objetivos de política cultural? Em tempo: a meu ver as leis Rouanet e do Audiovisual têm gerado tanta discussão não só porque serviram de modelo a várias leis estaduais e municipais (multiplicando as distorções) mas porque há anos estamos debruçados sobre os mesmos buracos negros de questionamentos, sem que essencialmente nada tenha mudado. Aguardemos os tais 15 dias e quem sabe tenhamos um novo alento para levantarmos outras bandeiras importantes.

  • Carlos do Minc, 18 de maio de 2008 @ 11:06 Reply

    Marcos, suas observações são fundamentais. É preciso garantir o bom uso do FNC. Pesquisei na internet (a expressão “FNC seleção democrática e Transparente”) e vi que em 2004, o MinC implantou um processo mais transparente para tratar das aplicações do FNC. Veja no link abaixo. Alguém sabe como isso está hoje?
    sss://www.cultura.gov.br/site/?p=4885

  • Márcia, 18 de agosto de 2008 @ 1:54 Reply

    Estou alguns meses atrasada neste post, mas vamos lá:
    A Rouanet é ilegítima.

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