O MinC bate no show business mas quem leva a pior são os pequenos produtores. O Centro Cultural Banco do Brasil já admite fazer readequações em sua programação por conta de problemas na aprovação de projetos na Lei Rouanet. A Petrobras ameaça cancelar cerca de 30 projetos selecionados por edital até 31 de maio se estes não aprovarem seus projetos; empresas privadas reavaliam estratégias e pensam em abolir editais por causa da insegurança jurídica provocada pela má gestão do MinC e pela operação tartaruga da  Funarte.

Matéria de André Miranda, do jornal “O Globo” de sábado anuncia a tragédia:

Produtores têm até o dia 31 para garantir o PPC
Petrobras acredita que 30 projetos vão perder o patrocínio por não ter a aprovação na lei

Mais de 50 produtores têm até o fim da próxima semana para apresentar seus projetos aprovados na Lei Rouanet, sob o risco de perder um dos patrocínios mais concorridos do país, o Programa Petrobras Cultural (PPC). Será a primeira vez que a Petrobras vai fazer cumprir um limite para que os contemplados por seu edital se adéqüem à exigência mínima antes da assinatura dos contratos. Há casos, inclusive, de propostas selecionadas há mais de dois anos e que, até hoje, ainda não foram assinadas.
A data-limite para os produtores é o dia 31 de maio, estipulada pela Petrobras em janeiro, depois que um levantamento apontou que 152 projetos vencedores do PPC ainda não tinham conseguido a aprovação na Lei Rouanet. Isso representava um valor total de R$ 52 milhões em patrocínio reservado, mas parado até que a situação fosse regularizada. Uma carta foi enviada para todos os 152 proponentes, informando o limite. Até o início de maio, 85 já haviam conseguido a inclusão na lei, e os contratos foram assinados. Correm o risco de perder o patrocínio, portanto, 67 projetos.

— Nós democratizamos o acesso às seleções públicas, mas esbarramos na falta de estrutura dos proponentes, principalmente nas áreas de memória e formação. Então, estendíamos o prazo, que era o dia 31 de março. Desta vez, não dá para estender mais — explica Eliane Costa, gerente de patrocínios da Petrobras. — Havia projetos da edição 2005/2006 do PPC ainda sem contratos.

Havia, também, proponentes que nem constituíam uma empresa de natureza cultural. A Petrobras acredita que 30 projetos vão perder o prazo de 31 de maio e deixar de receber o patrocínio. A sobra deve ser de R$ 3 milhões, verba que poderá ser usada em outras atividades culturais da empresa. Para a próxima edição do PPC, será exigida a aprovação na lei de incentivo antes de o projeto se candidatar ao patrocínio.

— Embora impopular, é uma medida necessária. Somos uma empresa, trabalhamos com um orçamento — diz Eliane. — Sabemos que será uma preocupação a mais para os produtores culturais, mas ao mesmo tempo achamos que eles já estão mais amadurecidos.

O temor do mercado é que a lei caia no descrédito e deixe de ser utilizada por empresas, sobretudo as que investem dentro do perfil desejado pelo próprio MinC: com planejamento, editais públicos, buscando efeitos sociais mais densos. 

Como os beneficiários desse tipo de política são geralmente de menor porte e poder aquisitivo, o que dificulta o acesso à informação e à mão de obra qualificada para representá-los junto ao MinC, eles acabam sendo os maiores penalizados pela inoperância administrativa do MinC e especialmente da Funarte, que acumula cerca de 4 mil projetos em análise, segundo fontes do mercado.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

10Comentários

  • Marcos Andrade, 27 de maio de 2008 @ 0:56 Reply

    Já li isso em algum lugar aqui neste site. O Celso Frateschi disseminou o seu método “como destruir uma lei de incentivo”, aplicado quandoi secretário da cultura em SP. Ele subtraiu R$ 20 milhões anuais da Lei Mendonça em três atos: primeiro desmoraliza a lei com declarações públicas e artigos de jornais com dados infundados e teorias inconsistentes; ao mesmo tempo promove “operação tartaruga”, como diz o Brant, ganhando produtores e artistas no cansaço; e ainda promete dinheiro do orçamento. Mas não cumpre, a não ser para o seu próprio grupo teatral e seus amigos.

  • Marcos Moraes, 27 de maio de 2008 @ 6:07 Reply

    O fato so demonstra com claridade que o modelo de politica cultural, inclusive o da Petrobras, esta errado. Independente das discussoes sobre a Lei Rouanet, o mecanismo nao atende as necessidades de grande parte dos atores culturais do pais e portanto o dinheiro publico nao esta sendo devidamente devolvido em resultados a populacao. Em geral, os discursos institucionalizados culpam os proprios artistas e fazedores culturais, sem assumir sua responsabilidade na elaboracao, implementacao e fiscalizacao de uma politica cultural eficiente. O rei esta cada vez mais nu.

  • José Carlos Almeida, 27 de maio de 2008 @ 11:05 Reply

    A questão é uma só, bem abordada pelo Brant: quando mais burocracia e má-gestão, pior para os pequenos (os grandes produtores sempre se viram e têm dinheiro para segurar o tranco).

    O pior de tudo não é isso, mas o discurso mentiroso de que estão adequando a lei aos pequenos produtores…acompanho o dia-a-dia da produção cultural e sei que os pequenos são os maiores prejudicados.

    O Frateschi quer acabar com a lei não porque ela é injusta, mas porque tira poder do governo…ele quer é controlar o dinheiro, assim pode passá-lo para os seus amigos mais próximos e continuar com essa política cultural clientelista!!!!

  • Luciana Gomes, 27 de maio de 2008 @ 11:09 Reply

    A Lei não é perfeita, porém mesmo com problemas graves, funciona e faz diferença. Eu atuo como artista , produtora cultural e público, vejo resultados positivos da Rouanet quando desempenho qualquer um desses “papéis sociais”. Ao mesmo tempo vejo maus resultados também, desperdício, grandes empresas se beneficinado de brechas e espetáculos de artistas consagrados com ingressos a R$ 100,00.
    O maior problema da Lei, na minha opinião de produtora autônoma e Diretora Artística está na captação de recursos. Esse tema deve ter destaque na pauta da discussão. Em Minas Gerais, onde vivo, a captação de recursos via Lei Rouanet é milagrosa para grupos pequenos e independetes como o que eu trabalho. Em 2007 fomos buscar apoio para realização de nosso projeto em São Paulo. Vale observar que se trata de um grupo musical de trabalho reconhecido no estado e que alcança a mídia local, até mesmo uma rede Globo. Em Minas Gerais não basta estar na Rede Globo e em todos os jornais impressos para conseguir apoio de empresas via Rouanet. Elas já têm seus próprios projetos e artistas preferidos.
    Outro problema é a confusão administrativa do MINC, a perda e extravio de projetos protocolados nas regionais, além da corrupção, pois já recebi oferta para apressarem meu projeto no MINC, desde que eu pagasse uma comissão depois do projeto captado, além, claro de um adiantamento…enfim, são muitos fatores.
    Viva a discussão.
    Sou a a favor das discussões e do apereiçoamento da Lei.

    Luciana Gomes

  • Armando Appel, 27 de maio de 2008 @ 11:59 Reply

    O mecenato da Lei Rouanet, o FNC e o FICART só precisam de boa gestão, eficiência. São mecanismos legais conquistados pela classe artística, e devem ser mantidos. O Ministério da Cultura deve brigar por um orçamento maior, ampliar sua atuação através de fundos e editais, manter o mecenato e – especialmente – aprimorar o atendimento aos sofridos proponentes.

  • Wanderley Lopes, 27 de maio de 2008 @ 12:17 Reply

    A politica cultural do nosso País deveria ser prioridade em qualquer governo, uma vez que permeia a nossa condição de vida nesse planeta. A grande maioria dos produtores independentes vivem a margem de Leis de incentivo como a esperança de vêr seus trabalhos minimamente divulgados….. nem me atravo em falar de reconhecimento…… palavra essa que está muito longe. Haja visto os inúmeros projetos que estão a espera de um milagre de aprovação de uma equipe quase inexistente dentro do Minc. que em vez de ajudar só atrapalha. O Ministério da Cultura devia ter vergonha e colocar como prioridade acabar com a fila dos projetos para análise. Nâo é justo para aqueles que já estão selecionados por empresas como a Petrobrás aguardar merisicórdia. Não precisamos de merisicórdia e sim de respeito. Digo isso porque o MINC. leva meses para dar um sinal que recebeu seu material e quando isso acontece é porque vc. gastou quase 50% do valor da sua conta mensal em telefonemas para a Funart ou para o próprio Ministério. Graças a Deus que os momentos de stress, raiva, indignação e desespero não são computados no nosso orçamento….. Ufa…… Amém.

  • amanda brasil, 27 de maio de 2008 @ 13:32 Reply

    Esse é um dos nós da questão cultural no nosso Pais. Além de prejudicar os pequenos produtores, como eu, através da incompetencia administrativa o Ministério da Cultura ainda compete conosco. Vale lembrar que a Petrobras patrocina as ações do MINC, através da Lei Rouanet. Temos que competir no mercado com as associações de amigos dos museus e outros orgãos do Ministerio.
    Sem falar que a fila de espera da Rouanet, na Funarte, sempre coloca na frente os projetos de interesse do seu presidente e do Ministro.Cada vez sabemos de mais casos escabrosos nessa história.

  • Rodrigo Gerstner, 27 de maio de 2008 @ 13:48 Reply

    Sem a menor sombra de dúvida, já que o Poder Executivo Federal quer, mas não pode, extinguir a Lei 8313/91, acaba tornando-a completamente inoperante…

  • Leo Soltz, 27 de maio de 2008 @ 20:44 Reply

    Olá a todos, inclusive ao pessoal do MINC.
    gostaria de colocar o apoio incondicional ao Brant pela forma verdadeira com a qual vem atuando em defesa dos interesses de produtores culturais e claro, da cultura efetiva no Brasil.
    Quero crer que o assunto diz respeito a posição de uns poucos e nào dos que atuam com afinco dentro do Ministério. Por incrível que pareça tem gente boa…querendo trabalhar.
    Conheço pessoas por lá que tambem pensam como nós e querem que a lei funcione como ela foi programada. Sem partido político e opções personificadas
    Sabemos que as adaptações tem e devem ser feitas em benefício da sociedade mas…para criar um ambiente cultural para todos nào dá para gerar tantas dificuldades para então apenas os produtores que possuem condições de se locomover das diversas regiões do país para Brasilia possam faze-lo.
    O governos dá assim mais um tiro no próprio pé. Será que nào viram??
    Acompanhamento e controle. É disso que o Minc precisa. Uma certidão não pode vençer depois de protocolada e outros tantos documentos serem extraviados e ficar por isso mesmo.
    Vamos deixar quem quer trabalhar…trabalhar e quem quizer complicar, vá pra casa.
    Cultura é coisa séria.

    Abs

  • chico simões, 27 de maio de 2008 @ 23:55 Reply

    Meus irmãos, o lado mais fraco da corda ainda nem apareceu no cenário… tá nos bastidores… mas continuemos a tencionar… ele vai aparecer com certeza daqui pra 2010 ele aparece e mostra de que lado da coxia esta…. boas tensões! Atenções, Chico Simões

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