Atrás das pick ups, onde atua sob o pseudômino de DJ Tudo, o músico Alfredo Bello mostra todo o fascínio do pesquisador, que luta pela auto-estima de tradições ameaçadas e comunidades excluídas
“A vida sem música seria um erro”. Essa máxima, se aplicada à vida e ao trabalho de Alfredo Bello, seria uma catástrofe em sua luta pela preservação da diversidade. São quase quinze anos de pesquisa em música tradicional popular brasileira para resgatar manifestações marginalizadas historicamente, de Pernambuco, Bahia, Goiás, Minas gerais e São Paulo, sob a justificativa de buscar a inserção e a proteção cultural e social desses grupos na sociedade. Graduado em contrabaixo acústico, Alfredo exercita o baixo elétrico em projetos, trilhas, shows e parcerias, além de atuar também como produtor musical, DJ e pesquisador em música eletrônica. Em entrevista ao Cultura e Mercado, o músico questiona as políticas públicas para as culturas tradicionais e mostra toda a sensibilidade em lidar com signos e linguagens de comunidades que se nutrem através do rito.
Talvez um dos trabalhos mais significativos de sua carreira seja a série Brasil Passado Futuro, uma coletânea de CDs que reúne músicas de comunidades do Nordeste marcadas pela indiferença e dificuldades sociais. “Esses CDs representam alguma forma de ajudá-los a ter mais inserção na sociedade, ter mais visibilidade perante os órgãos públicos, pesquisadores e outros. Para as pessoas terem mais conhecimento sobre essas culturas, para poderem respeitá-las”, explica, ressaltando a questão da “ancestralidade”, do fascínio pelo fato de que essas tradições surgiram “há muitas dezenas e, na maioria, há algumas centenas de anos. É claro que tudo isso com um processo dinâmico muito intenso, pois cultura é viva e não algo cristalizado”. Alfredo conta que lançou os três primeiros CDs do projeto BPF “através do sistema de cotas, onde se paga um preço abaixo do mercado antecipadamente”.
Quando questionado a respeito da maior conquista na luta pela preservação dessas culturas, o músico responde: “auto-estima”, e explica que “historicamente eles a perderam. Acredito que antes de tudo eles precisam se olhar diferente. Isso, em várias comunidades tenho conseguido através de gravações que sempre devolvo a eles, das mais variadas festas que vou no Brasil, e vejo que a presença externa sempre interfere”, acrescenta, como exemplo concreto da importância do intercâmbio (mesmo que virtual) para o resgate cultural de expressões fragilizadas.
Com a vivência de um “músico/antropólogo”, Alfredo Bello questiona a visão limitada dos governantes e a ineficiência das políticas públicas vigentes, clamando por “ações afirmativas, como aposentadorias para mestres e brincantes que fazem a ligação do passado com o futuro e deram toda a sua vida para isso”. E sugere ainda “melhor repasse de verbas dos órgãos públicos quando estas existirem para as comunidades, por exemplo: Carnaval de Recife, ONGs que possam fazer trabalhos de formação cultural e humanística”. Em relação ao Ministério da Cultura, chama atenção para o projeto Ponto da Cultura “que ainda está embrionário, mas espero que ele realmente aconteça”. Ele acredita que é preciso trabalhar a essência, uma questão de tratamento da cultura tradicional, que segundo ele, “o Ministério da Cultura ainda vê como folclore, isso por falta de conhecimento. Creio que esse é o maior problema que estas culturas enfrentam, e talvez, essa seja a tarefa mais árdua para quem trabalha com esses grupos.” Na tentativa de resumir seu fascínio pelo ofício, conclui que “todos os segmentos da sociedade não fazem idéia do que realmente significa todas essas tradições, como cosmogonia, visão de mundo, filosofia e muito mais”.
Maira Botelho