Cinema brasileiro quer ser indústria. E aposta nos fundos de investimento para atingir sustentabilidade. Mas ainda depende dos generosos incentivos fiscais
Nada é tão exato quando se fala em cinema nacional, mas parece um fato consolidado que ele passa por um bom momento. “O Maior Amor do Mundo”, de Cacá Diegues, que estreou no segundo semestre de 2006, recebeu o prêmio de melhor filme do 30º Festival de Cinema Mundial de Montreal. “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hambúrguer, que chegou às telas no final do ano passado, foi premiado como melhor filme pelo júri popular no Festival do Rio 2006, e aclamado em Berlim. Mas, além da trajetória de sucesso, as duas produções nacionais possuem outro ponto em comum: ambas receberam recursos do RB Cinema I Funcine, fundo de investimentos da empresa Rio Bravo, dirigido à indústria cinematográfica brasileira, novidade que promete dar sustentabilidade ao setor.
Atuando em todas as pontas do processo, produção, distribuição, exibição e indústria técnica, a nova fonte de recursos para o cinema brasileiro é resultado da parceria entre a administradora de recursos Rio Bravo, a Aracruz Celulose e o BNDES. Com um único ano de atividades, já contam com R$ 13 milhões para investimentos. A previsão é de que este valor aumente para aproximadamente R$ 30 milhões ainda no primeiro semestre de 2007. “Além da rentabilidade já comprovada, é também uma iniciativa de caráter didático, ou seja, mostra que o cinema brasileiro pode utilizar práticas comerciais modernas para seu desenvolvimento”, defende o gerente do departamento de Economia da Cultura do BNDES, Luis André.
Para o investidor, a grande vantagem é o benefício do incentivo fiscal previsto na regulamentação dos fundos. “O investimento em Funcines é dedutível do saldo a pagar de Imposto de Renda, até o limite consolidado de 4% deste valor”, explica André. Outra novidade é que a Lei 11.437/07 aprovou a elevação do percentual de benefício fiscal do investimento em Funcine para 100%. Em 2006, as empresas abateram 50% do dinheiro aplicado. A rentabilidade do negócio já aponta para um possível crescimento. “Há planos de lançar o RB Cinema II Funcine no segundo semestre de 2007”, anuncia Thierry Peronne, gestor da Rio Bravo. Segundo ele, caso a previsão do novo fundo se confirme, metade dos projetos serão na área de exibição e o restante será dividido na produção de comédias e co-produções internacionais.
Rumo às telas
Mais dois filmes que receberam investimentos do fundo da empresa Rio Bravo devem chegar em breve às telas: “O Federal”, de Erik de Castro, com estréia prevista para o segundo semestre de 2007, e “Querô”, do cineasta Carlos Cortez, nos cinemas até junho. Baseado no livro homônimo do dramaturgo e escritor Plínio Marcos, “Querô” já amealhou quatro prêmios no último Festival de Cinema de Brasília. Segundo Cortez, finalização e lançamento foram pagos com recursos do Funcine. “É um instrumento recente que ainda está em adaptação, mas é importante por apresentar novas fontes de investimentos”, analisa ele.
Mercado em expansão
Outros fundos de investimento em cinema devem ser criados em 2007. A Culturinvest, empresa especializada em terceiro setor do banco mineiro Bonsucesso, informou recentemente que estima começar a operar um fundo com R$ 10 milhões, destinados à compra de participação em empresas de cinema. A empresa carioca Mellon Serviços Financeiros do Brasil também já está captando recursos para um fundo com foco em projetos de infra-estrutura. Segundo a empresa, cerca de R$ 8 milhões deverão ser investidos em salas de exibição. O BNDES, que criou o Departamento de Economia da Cultura para estimular os investimentos no setor por meio de recursos do mercado de capitais, acena com um orçamento de R$ 10 milhões a serem investidos em 2007.
Os fundos de investimento em cinema já existem desde 2001, criados pela medida provisória 2.228, que instituiu a atual Ancine (Agência Nacional do Cinema). Mas a regulamentação pela CVM (Comissão de Valores Imobiliários) só veio no fim de 2003. O BB Cine Produção e Distribuição, do Banco do Brasil, o primeiro fundo de investimentos no setor, captou R$ 2,3 milhões que foram investidos nos filmes “Cabra-Cega”, de Toni Venturi, e “O Coronel e o Lobisomem”, de Maurício Dias. A diferença entre os fundos de financiamento para cinema e os demais fundos disponíveis nos bancos ou em administradoras de recursos é que, no caso do cinema, eles valem apenas para aplicações de pessoas jurídicas. Esses fundos têm em carteira projetos de filmes ou participações em empresas do setor, como produtoras, distribuidoras e exibidoras. No segundo caso, os investidores entram como participantes no capital das empresas.
Distribuição
A distribuição internacional de filmes também está na mira do fundo RB Cinema I Funcine. Segundo informações da assessoria de imprensa da Rio Bravo, uma empresa especializada na venda de produção audiovisual brasileira no exterior acaba de ser montada – Berlim será o primeiro mercado-alvo. A atuação será em todas as fases de produção dos filmes selecionados, desde o desenvolvimento do roteiro, passando pela pré-venda, venda, até a co-produção dos títulos. “Vamos estruturar financeiramente os projetos para que cheguem com tranqüilidade até a fase final de produção”, informa Peronne, que também participa da administração da distribuidora. “A meta é criar uma agente eficiente de vendas de títulos do Brasil e da América Latina no mercado internacional”, conclui ele.
Carlos Minuano