Com quatro anos recém-completados, a São Paulo Companhia de Dança prepara-se para pôr em prática uma série de ações com o objetivo de estar mais próxima do público e profissionais da arte em potencial. Só no último mês, a SPCD já realizou a remontagem de uma coreografia inédita na América Latina – “In The Middle, Somewhat Elevated”, do americano William Forsythe -, abriu uma temporada de espetáculos nos CEUs da capital paulista e está promovendo a abertura da Plataforma Internacional Estado da Dança, no Teatro Sérgio Cardoso, com dois Grand Pas de Deux – “O Quebra-Nozes” e “Dom Quixote” -, para citar alguns trabalhos.
“A ideia é mostrar diferentes gêneros da dança clássica, em dois grandes ícones dessa arte que foram dançados por grandes artistas desde o século XIX, quando foram criadas”, explica Inês Bogéa, diretora artística da companhia, em uma conversa por telefone. “Existe um contraste entre elas [as obras], a começar pelos movimentos dos bailarinos. No Quebra-Nozes, os gestos são mais suaves. É uma fada delicada, do mundo imaterial. Enquanto em Dom Quixote existem gestos mais incisivos, desafios técnicos mais presentes”, conta ela, descrevendo uma experiência quase sinestésica, tanto para os bailarinos quanto para o público.
Os planos, no entanto, vão além dos espetáculos que a companhia apresenta sobre os palcos de dentro e fora da cidade de São Paulo. A intenção é que, até o fim deste ano, esteja no ar o “Dança em Rede”, plataforma online que promete reunir informações sobre o universo da dança e pessoas envolvidas com a arte.
O projeto começou a ser desenhado a partir de informações que a SPCD coletava nos locais em que realiza apresentações. “A cada cidade que nós vamos, tentamos ampliar o diálogo com quem faz dança naquela área, independente de ser amador ou profissional. Fazemos uma catalogação de dados para que a gente possa continuar em contato com aquelas pessoas”, conta Inês.
O grupo será composto pelos primeiros participantes da plataforma que, além da comunicação, também funcionará como uma espécie de banco de dados sobre o tema. Inês explica, que quem fizer cadastro na página poderá inserir verbetes no sistema, no estilo Wikipedia. Enquanto a plataforma não é lançada, um grupo de pesquisadores auxilia na elaboração e qualificação do conteúdo que entrará no ar junto com o “Dança em Rede”.
PDH – Em 2010, a companhia promoveu um ateliê de coreógrafos com seus bailarinos. A resposta foi tão satisfatória, que no ano seguinte a iniciativa tornou-se o Programa de Desenvolvimento de Habilidades Futuras do Artista da Dança (PDHFAD), pensado como uma oportunidade para os artistas da companhia transitarem por outras áreas e desenvolverem novas aptidões, refletindo sobre o momento de pendurar as sapatilhas.
“O intuito é que o jovem faça uma reflexão desde esse momento, sobre essa questão pertinente à nossa profissão”, afirma Inês. “É uma troca entre artistas”. A primeira edição do programa, em 2011, teve vagas para as funções de ensaiador, professor e coreógrafo. Neste ano, o projeto foi ampliado e agora também abarca as categorias de auxiliar de ensaio, desenhista, fotógrafo e pesquisador em dança.
Nos próximos dias 12, 13 e 14/10, o grupo de coreógrafos apresenta suas criações ao público na Galeria Olido. Entre eles, está Rafael Gomes. Aos 26 anos, dos quais 10 foram dedicados ao ballet profissional, Gomes já passou pelo Ballet Jovem do Rio de Janeiro e a companhia Deborah Colker.
Sua chegada em São Paulo coincide com a inauguração da São Paulo Companhia de Dança, em 2008. No início do ano, ele se inscreveu no PDH. “Foi uma forma de expressar coisas diferentes que eu tinha dentro de mim. Resolvi ir pela via de coreógrafo, que dava para juntar um grupo legal de pessoas interessantes e fazer isso”, explica.
“Como eu, só” utiliza cenários urbanos, como a Rua Augusta, para falar sobre a solidão, o vislumbre e o mundo fashion, nas palavras do idealizador. O figurino é uma criação dos estilistas Lino Villaventura e Virgílio Andrade, convidados por Gomes para intervir, com olhar de outras artes na obra. O espetáculo também conta com o trabalho do fotógrafo Felipe Raizer e trilha sonora de Bruno Jakob. “É um momento seu, em que você pode mostrar um pouco do seu trabalho”, conclui Gomes.
Formação – Recentemente, a São Paulo Companhia de Dança realizou uma seleção de artistas para compor o corpo de bailarinos. Foram mais de 250 escritos para as quatro vagas disponíveis. Dois bailarinos e duas bailarinas foram escolhidos. “O Brasil tem muitos bons bailarinos. Existe um desejo muito grande dos bailarinos em atuarem nessa arte”, conta Inês.
Indo ao encontro da ideia de aguçar o interesse das pessoas pela arte, não só como espectador, mas também de maneira ativa, a SPCD promove programas educativos. A companhia está realizando uma temporada em Centros de Educação Unificados (CEUs).
Nestas visitas, além da apresentação, também é feita uma contextualização da obra, existe espaço para tirar dúvidas da plateia e alguns espectadores são convidados a subir ao palco para “ver e sentir no corpo os desafios da profissão”, como explica Inês.
“Essas atividades procuram ampliar os diálogos com o público, fornecendo elementos para que eles conheçam melhor o cotidiano e os bastidores de uma companhia de dança e possa aproximar-se da arte, correlacionado com o dia-a-dia do público, inclusive”.
As visitas também contam com depoimentos em vídeos de bailarinos profissionais, convidados a contar como iniciaram sua carreira na dança e como tiveram que superar preconceitos e outros desafios. Tudo para mostrar a realidade de quem escolheu fazer da arte sua vida.