Para subsidiar a discussão acerca da Lei Rouanet com alguns dados, analisei na base de dados do Ministério da Cultura, as informações de 3.047 projetos com R$ 910 milhões captados em 2007.
Do exercício de análise verificou-se que ao contrário do que é senso comum, o Mecenato tem financiado predominantemente projetos de médio e pequeno porte. As categorias de grandes projetos que concentram 40% dos recursos é composta por uma variada gama de atividades culturais de grande impacto tanto na produção quanto no acesso aos bens culturais.
Pudemos verificar também, que as tão criticadas grandes produções musicais e teatrais apropriam-se de uma fatia pequena da renúncia fiscal hoje utilizada. (1,5% e 1,3% respectivamente)
No ano passado, 175 projetos, 5,7% do total, captaram valor igual ou superior à R$ 1 milhão, 252 projetos (8,3%) captaram entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão, 127 projetos (4,2%) captaram entre R$ 400 mil e R$ 500 mil, 180 projetos (5,9%) captaram entre R$ 300 mil e R$ 400 mil, 327 projetos (10,7%) captaram entre R$ 200 mil e R$ 300 mil, 647 projetos (21,2%) captaram entre R$ 100 mil e R$ 200 mil e 1339 projetos (43,9%) captaram valor até R$ 100 mil.
Com essa categorização, podemos dizer que temos apenas 5,7% de grandes projetos.
O restante 94,3%, podemos dividir em dois grandes grupos. Médio porte (entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão) que representa 52% do total e projetos pequenos (até R$ 100 mil) que representa 43% do total.
Podemos ver que a grande maioria dos projetos que está sendo financiada pelo mecenato é de médio e pequeno porte. Projetos com captação inferior à R$ 500 mil representam 87,5% do total de projetos com captação em 2007.
Os 175 projetos que captaram mais de R$ 1 milhão ficaram com 40% do total de recursos, enquanto os demais 2.872 projetos captaram 60% dos recursos.
Vamos agora dar um “zoom” na fatia dos projetos que captaram mais de R$ 1 milhão em 2007.
A primeira faixa que, representa 30% de todos os recursos captados segundo a base de dados do MinC se segmenta da seguinte forma.
O Grupo mais expressivo é o das captações para construção e restauro que é responsável por 6,4% de toda a verba captada no ano, seguido por Manutenção de Orquestras (3,6%), Museus (3,5%), Centros Culturais (3,4%), Concertos Eruditos (2,9%), Exposições (2,3%), Exposições Itinerantes (2,0%), Projetos que Incentivam Manifestações Populares, carnavais, frevo, axé, etc (1,7%), Projetos de Oficinas e formação (1,7%), Grandes Produções Musicais e Óperas (1,5%) e Temporadas de Teatro (1,3%).
A faixa que representa os 10% restantes está segmentada em diversas atividades. O conjunto das temporadas de música popular e instrumental não erudita, dança e circo que captaram mais de R$ 1 milhão representam 3,3% do valor captado, enquanto o agrupamento dos projetos de festivais de música, cinema e outros prêmios que captaram mais de R$ 1 milhão soma 2,0% dos recursos captados.
Embora os grandes projetos concentrem parcela considerável dos recursos da renúncia fiscal, esse conjunto de atividades tem enorme impacto na economia, na produção e no acesso aos produtos da cultura.
A grande concentração de recursos está nas construções e restauros que são dispendiosas pela natureza da atividade.
Segue-se a manutenção das atividades de orquestras que representam o sustento anual de uma plêiade de músicos e a manutenção dos ensaios dos concertos assim como a formação de gerações de jovens músicos.
O terceiro grande grupo é a manutenção da programação anual dos centros culturais que disponibilizam uma programação variada e geralmente gratuita que tem grande impacto no acesso à bens culturais e no financiamento da produção e na difusão de uma coletividade de artistas.
Em quarto lugar aparece o financiamento de uma extensa programação de concertos eruditos, muitos ao ar livre e com apresentações gratuitas em diversas cidades brasileiras.
Temos que destacar que dentro do grupo de projetos que captou mais de 1 milhão de reais, projetos que costumam ser entendidos como mais democráticos pelos críticos da Lei Rouanet ao financiarem manifestações populares como o carnaval de recife, grupos musicais afro na Bahia (1,7%), assim como exposições itinerantes (2,0%) e oficinas de formação (1,7%) captaram mais recursos do que as tão criticadas grandes produções musicais (1,5%) e do que as temporadas de grandes companhias teatrais (1,3%).
Desejamos que esse pequeno ensaio analítico possa jogar um pouco de luz na discussão no sentido de demonstrar que o mecanismo do Mecenato, que é aquele que mais se desenvolveu no arcabouço da Lei Rouanet, tem dado uma contribuição expressiva para o financiamento de uma grande variedade de projetos onde os mais numerosos são as pequenas e médias produções que beneficiam milhares de artistas.
Num país onde o nível educacional e a renda concorrem para pressionar a sobrevivência do artista e a produção cultural para um nível muito abaixo do almejado para a nação, abrir mão de um instrumento como o Mecenato nos moldes desenhados pela Lei Rouanet é realmente um retrocesso.
Além das críticas que costumam utilizar-se de ícones específicos e de fácil apelo ao senso comum, como a produção dos grandes musicais, para desmerecer o mecanismo da Lei Rounet, os seus críticos tem recorrentemente insistido na visão ideologizada de que as lógicas do marketing e da decisão privada sobre recursos públicos deve ser algo inaceitável.
Acredito que no atual estágio de desenvolvimento do mercado cultural brasileiro, estamos longe de atingir um patamar em que os riscos das produções e da difusão das obras e dos artistas esteja num nível razoável. Isso se dá exatamente porque o público que deveria ser o financiador da arte pelo consumo da produção artística, por razões econômicas, educacionais e culturais não é capaz de suportar dignamente a oferta que a nossa rica plêiade de artistas está pronta a oferecer. Sem o apoio de patrocínios, essa situação ficará ainda mais grave. Desta forma, retirar agora o incentivo ao patrocínio de projetos culturais apenas aprofundará as dificuldades que os artistas encontram para levar a cabo as suas empreitadas.
O que se deve fazer para alavancar ainda mais a atividade artística é manter os mecanismos atuais, se possível incrementando as possibilidades de acesso para que mais empresas possam direcionar recursos ao mecenato, utilizar os mecanismos de correção existentes e criar outros se forem necessários para contemplar a produção artística que não está sendo acolhida pelos atuais mecanismos.
O governo não parece estar se movimentando nesse sentido, e tem agido de forma a emperrar os instrumentos de financiamento existentes atualmente. À luz da diversidade de projetos que o Mecenato tem financiado como procuramos demontrar acima, esse proceder, sem dúvida significa um grande desperdício do potencial dos atuais mecanismos e uma grande perda de oportunidade para avançar no sentido de fazer ajustes na política cultural como um todo, corrigindo distorções sem eliminar os ganhos e as conquistas transformadoras que a Lei Rouanet significou ao longo do seu processo de evolução até aqui.
TABELA RESUMO | ||||
Número de Projetos | % de projetos | Valor Captado R$ MM | % de Valor Captado | |
Maior que R$ 1 milhão | 175 | 6% | 371,0 | 40,8% |
Menor que 1 milhão | 252 | 8% | 174,8 | 19,2% |
menor que 500 | 127 | 4% | 57,8 | 6,4% |
menor que 400 | 180 | 6% | 63,6 | 7,0% |
menor que 300 | 327 | 11% | 81,3 | 8,9% |
menor que 200 | 647 | 21% | 96,9 | 10,7% |
menor que 100 | 1339 | 44% | 64,6 | 7,1% |
Total da Base | 3047 | 100% | 910,0 | 100,0% |
ZOOM: CAPTAÇÃO ACIMA DE R$ 1 MILHÃO | |||
Categoria | Valor R$ | % dos maiores | % do total captado |
Construção /Restauro | 58.105.124,02 | 15,7% | 6,4% |
Orquestra | 32.859.441,29 | 8,9% | 3,6% |
Museu | 31.783.007,74 | 8,6% | 3,5% |
Centro Cultural | 31.382.931,50 | 8,5% | 3,4% |
Concertos Orquestra | 26.629.161,91 | 7,2% | 2,9% |
Exposição | 20.754.089,40 | 5,6% | 2,3% |
Exposição Itinerante | 18.280.784,10 | 4,9% | 2,0% |
Manifestações Populares | 15.880.879,19 | 4,3% | 1,7% |
Oficinas / Formação | 15.696.435,91 | 4,2% | 1,7% |
Show Bizz Música | 13.832.048,94 | 3,7% | 1,5% |
Temporada Teatro | 11.843.787,43 | 3,2% | 1,3% |
Temporada Música Popular | 9.110.260,00 | 2,5% | 1,0% |
Temporada Música | 7.527.985,00 | 2,0% | 0,8% |
Formação de Acervo Museus | 7.482.139,65 | 2,0% | 0,8% |
Casas de Cultura | 5.323.232,34 | 1,4% | 0,6% |
Temporada Música Instrumental | 5.172.697,48 | 1,4% | 0,6% |
Outros | 5.122.934,52 | 1,4% | 0,6% |
Festival de Cinema | 4.425.000,00 | 1,2% | 0,5% |
Prêmios | 3.900.000,00 | 1,1% | 0,4% |
Publicação | 3.830.471,00 | 1,0% | 0,4% |
Seminários | 3.660.000,00 | 1,0% | 0,4% |
Exibição Cinema | 3.533.930,28 | 1,0% | 0,4% |
Temporada Circo | 3.390.000,00 | 0,9% | 0,4% |
Festival de Música | 3.182.643,85 | 0,9% | 0,3% |
Temporada Dança | 3.158.000,00 | 0,9% | 0,3% |
Exibição Itinerante Cinema | 2.588.000,00 | 0,7% | 0,3% |
Festivais de Música em todo o país | 2.582.480,00 | 0,7% | 0,3% |
Manutenção Companhia | 2.542.250,00 | 0,7% | 0,3% |
Outros Música | 2.521.640,00 | 0,7% | 0,3% |
TV Cultura | 2.423.120,00 | 0,7% | 0,3% |
Temporada Música Itinerante | 2.000.642,13 | 0,5% | 0,2% |
Livros para Cegos | 1.328.794,55 | 0,4% | 0,1% |
Arvore de Natal Evento | 1.312.800,00 | 0,4% | 0,1% |
Edição de Livro | 1.165.000,00 | 0,3% | 0,1% |
Preservação/ Restauração | 1.155.031,73 | 0,3% | 0,1% |
Obra Permanente Artes Plasticas | 1.150.000,00 | 0,3% | 0,1% |
Documentários | 1.119.996,72 | 0,3% | 0,1% |
Temporada Multi artes | 1.102.605,00 | 0,3% | 0,1% |
Temporada Teatro Oficinas / Formação | 1.079.900,00 | 0,3% | 0,1% |
Festival Teatro | 1.032.710,27 | 0,3% | 0,1% |
TOTAL | 370.971.955,95 | 100% | 40,8% |
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