Foto: Freak Le Chic
Finalmente o projeto que substitui a Lei Roaunet (Lei 8.313/91), a lei federal de incentivo à cultura, chegou ao Congresso. Pelas mãos do Ministério da Cultura, o Projeto de Lei (PL) 6.722/2010, que institui o Procultura, está na Casa desde o dia 19 de janeiro, depois de passar por consulta pública e por um quente debate, que teve faíscas, ranger de dentes e muito dedo na ferida.

Acompanhei de perto muitas das discussões públicas e do debate na mídia, que vem ocorrendo há mais de um ano.  Nesse processo, ficou evidente o baile de posições, a coreografia dos atores, o desfile de argumentos alinhados.

Muitos dos que dele participaram eram contra colocar o dedo na ferida da Rouanet, ferida aberta durante 18 anos. Outros elucubravam e soltavam fogos e tocavam as trombetas da defesa do mercado. E a outros, poucos, restava o ranger de dentes, por saberem que o mecanismo que mais os beneficiava iria dar lugar a outro, de caráter mais democratizante, transparente e consoante com o interesse público.

Sou pelo dedo na ferida. Principalmente por acreditar que a atual Lei Roaunet não alcança todas as dimensões da cultura necessárias à abrangência que um instrumento de política pública, como esse, deve ter. Como lei de incentivo fiscal, voltada ao aquecimento do mercado e sob a ótica privada do que deve ser financiado com dinheiro público, a lei cumpre uma função importante na esfera econômica: movimenta dinheiro, profissionaliza o setor, gera dividendos e fomenta produções – apesar de concentrá-las em algumas poucas capitais de privilegiados estados.

O que não faz a lei Roaunet é o que agora propõe o Procultura: colocar em primeiro plano o interesse público. E, para isso, coloca-se como um instrumento compatível com outros mecanismos criados para o alcance das outras dimensões culturais nas políticas públicas – a dimensão simbólica e a cidadã -, como o Plano Nacional de Cultura, proposto pelo PL 6.835/06.  Além disso, pensa na distribuição territorial dos recursos e em manifestações e segmentos artísticos secundarizados pela indústria cultural, devido à sua natureza pouco voltada ao grande público ou ao retorno financeiro – as manifestações populares, tradicionais, as artes de vanguarda, os saberes transmitidos pela cultura oral, etc.

Para tanto, o Procultura privilegia a dinâmica de fundos. Propõe o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura, negligenciado por opção política e por falta de regulação em favor do Mecenato. Cria oito fundos setoriais, que podem distribuir de forma mais equânime os recursos públicos de acordo com as demandas específicas de cada área (música, dança, artes cênicas, circo, artes visuais, diversidade etc). E já se coloca como instrumento jurídico compatível com a dinâmica mais saudável de transferência de recursos públicos, que é a dinâmica de sistema, alinhando-se com a proposta de um Sistema Nacional de Cultura (SNC). A exemplo do Sistema Único de Saúde (SUS), o SNC proporciona a articulação de políticas culturais nas três instâncias governamentais (federal, estadual e municipal), com execução orçamentária criteriosa e controlada pela sociedade, através dos conselhos.

Houve muito ranger de dentes nessa história. Mas por poucos maxilares: apenas 3% dos que ficam com 50% dos recursos do Mecenato. E muito choro sudestino, por correr o risco de ver os 80% dos recursos concentrados na região distribuídos Brasil afora. Além dos naturais brados pela autoregulação do mercado cultural que, por si só, via departamentos de marketing e fundações culturais bancárias, teria o discernimento para saber em que segmento cultural “investir” – as aspas são apenas para lembrar do famigerado dinheiro público.

Fico com o fortalecimento do Estado, que, como ocorre em toda área essencial para o desenvolvimento do país, deve atuar positivamente, de maneira prestacional, através de políticas públicas e de legislações efetivas para embasá-las. Uma atuação baseada na cultura como direito fundamental e na garantia constitucional do pleno acesso à cultura por todos os cidadãos. Garantia que a Lei Rouanet não conseguiu prover. E em que, agora, o Procultura pode significar um avanço, sendo mais que um dedo na ferida, mas contribuindo para curar as mazelas deixadas no campo cultural.


Advogado do IDEC na área de direito autoral e acesso à cultura.

6Comentários

  • Leonardo Brant, 17 de março de 2010 @ 8:30 Reply

    É um absurdo querer atribuir à Lei Rouanet a responsabilidade de financiar a cultura do país. Ela é apenas um mecanismo, tão imperfeito quanto a bolsa família, embora os dois sejam bons e necessários, por outro lado.

    Gostaria de saber especificametne em que lugar, no texto da Lei e não na propaganda governamental, o interesse público está em primeiro plano. E a distribuição regional?

    O que é privilegiar o fundo? O projeto cria 8 fundos, mas não cria fontes para alimentá-los. Isso pra mim é marketing. Pegar uma coisa que não funciona e dividi-la em 8, dando um pedaço que vai continuar não funcionando para cada setor. Isso é ilusão político-eleitoral.

    Bom, por favor diga aos leitores de Cultura e Mercado o que é o Sistema Nacional de Cultura. Isso não existe. Se tudo continuar a passos largos teremos uma proposta concreta de SNC na próxima copa do mundo. Então como o Procultura pode se alinhar a algo que só vai existir num futuro distante.

    Nem quero comentar essa insinuação de que quem luta contra o Procultura é contra o povo brasileiro sofrido e só quer defender os seus interesses pessoais. Isso é o pior dos recursos retóricos do governo. Me admira que vc caia nessa ladainha eleitoreira, que divide o mundo (que votam em Lula e sua sucessora) e os malvados, que gostam do mercado e votam no candidato tucano.

    Todos queremos o Estado forte na cultura. Para isso temos que fortalecer a sociedade, inclusive protegendo-a de um governo centralizador e desenfreado, que deseja definir o que deve e o que não deve ser produzido no país em termos de cultura.

    O Procultura vai na contramão disso, pois tira o poder da CNIC, colocando nas mãos do ministro de plantão (pior do que isso, será possível?) o poder total de definir o que pode e o que não pode ser patrocinado. Tira o poder do artista e do produtor, submetendo-o a uma burocracia insana, que só vai aumentar com critérios subjetivos e mal construídos, CNICs setoriais, análises multidimensionais, entre outras barbaridades.

    Isso para não falar em outras arbirtrariedades e surrealismos, como o Estado colocando-se como co-patrocinador de projetos. Só na China eu vi uma coisa dessas.

    O Procultura significa a inoperância de um sistema que é falho, todos sabemos, mas que financia por ano o mesmo volume de projetos que este governo financiou em 6 anos. Eu mesmo fiz essa conta de padeiro.

  • gil lopes, 17 de março de 2010 @ 13:08 Reply

    Mas é preciso proteger a sociedade também do dirigismo de mega empresas que se utilizam da Lei em proporções imensas e atuam com o dinheiro público de maneira para-estatal. O que vemos não deixa de ser um dirigismo capitaneado por poucas mega empresas que se utilizam da lei do benefício fiscal.
    Se não é para colocar na mão do ministro é para colocar na mão de quem? De meia dúzia que fazem o que lhes interessa, são eles que determinam os interesses culturais da nação? Então não precisa governo?
    Estabelecidos os interesses nacionais, as prioridades culturais manifestadas em programas, o governo eleito deve colocá-las em prática. Mas o que vemos é a utilização dos meios nas mãos concentradas de poucos no ambiente de decisão das mega empresas cujos 4% de imposto devido é representativo. São os “ministérios da cultura”, e o resultado está aí, é só abrir os cadernos de cultura pra ver o que estão fazendo. Investindo em cópia. É evidente que isso não vai pra frente, é natural que se queira acabar com isso. Hoje depois de aprovado no Minc, que deve ter todo rigor em aprovar aquilo que corresponda ao interesse da sua política cultural, vc cai no “mercado”dos poderosos…cartas marcadas. Então é melhor acabar com isso.

  • gil lopes, 18 de março de 2010 @ 13:18 Reply

    O problema vai além…aqui no Rio por exemplo na reta final da campanha para a prefeitura, disputando palmo a palmo a vitória, o candidato Gabeira foi para o debate televisivo. Perguntado sobre como resolveria o problema da prostituição na Avenida Atlântica carioca disse que iria conversar com as moças. Ora, quem viu na hora decidiu que votaria no outro candidato que disse que acabaria com aquilo. Todo mundo quer e acredita na democracia mas as pessoas querem ação do governo, as pessoas querem saber de governo que toma atitude e não fica de conversa fiada pra depois, porque não tem depois…é preciso comprometimento.
    Quem morre na véspera é peru, dá perfeitamente pra acreditar que as coisa vã mesmo melhorar.

    Mas por outro lado, tem cabimento a música brasileira não ter representação na estréia da Copa? Que absurdo é esse? Porque uma Colombiana e dois americanos, tudo cadeira dura no esporte. A sensação de todas as Copas é o Brasil e porque a Música Brasileira não faz a abertura da Copa? Cadê o Brasil?! Vamos colocar a boca nisso!

  • gil lopes, 18 de março de 2010 @ 13:21 Reply

    Um show de samba e mulatas na estréia da Copa para o mundo inteiro ver…e não precisamos de muito mais para promover nosso Carnaval…que país é esse?

  • BCP, 20 de março de 2010 @ 8:59 Reply

    Fica a impressão de que o Guilherme acreditou no discurso do MinC – que é lindo – mas não leu o PL. Quem lê o projeto de lei sente apenas que o Procultura vai restringir ainda mais a atuação de pequenos produtores que, mal ou bem, com a Lei Rouanet tiveram sua chance de produzir. Eu sou prova e testemunha disso.

    Concordo com a importância de todos os argumentos do Guilherme, apenas não os vejo se efetivar em nenhum dos artigos da nova Lei; algumas questões o Leonardo até levantou em resposta.

    Querem outra? E a inconstitucionalidade do governo em querer ter direito às obras?!! Está no novo projeto, é inconstitucional e, isso sim, eu só vi na China! Quer mais centralização que isso?

    Do jeito que está redigido, o novo projeto de lei não garante absolutamente nada aos Estados distantes do eixo Rio-SP (até porque há que se capacitar produtores lá para que se beneficiem da lei, senão vamos ter mega produtores cariocas e paulistas levando stand-up em super produção – megafaturada – para os rincões do país, é isso que vai acontecer) e traz de volta aquela coisa do “ser amigo do rei”. Só quem tiver um ‘amigo’ bacana no MinC vai ter seus projetos aprovados.

    Sou contra que departamentos de marketing de empresas definam os investimentos em cultura de um país, mas a solução para o Brasil agora não é acabar com este recurso que é muito bom, movimenta a cultura sim, gera empregos, etc. A solução é ter um Estado que cumpra o seu papel de fomentador e que faça a sua parte, invista, assuma os riscos e, principalmente, chegue onde este dinheiro privatizado não chega.

    Acabar com a Lei Rouanet agora é um retrocesso que elimina pequenos produtores – já falei que sou prova E testemunha da existência deles – que tinham no aparato do incentivo fiscal a sua arma de negociação para viabilizar projetos, justamente por não ser filho nem amigo de rei.

    Muita calma nesta hora. É preciso ler o PL com cuidado e separá-lo do discurso romântico e belo do MinC. Quem dera este discurso fosse verdadeiro e aplicado! Eu gostaria muito. Mas não é o que encontro no ProCultura.

  • neusa fragoso, 22 de março de 2010 @ 13:44 Reply

    Estou em Portugal e tento acompanhar o que se passa aí. Visto cá de fora o debate sobre as alterações à Lei Rouanet é como outro qualquer; toda a gente quer ter razão. E o povão aonde fica? Eles dependem das decisões dos políticos e precisam que esses políticos aprovem leis que os ajudem a superar o que o “privado” não dá. Portanto, mais ação e menos blá blá blá. E que não se arrrrraste o debate. Me orgulho de ser brasileira mas quando vejo as disputas entre políticos, os escândalos financeiros, a corrupção. Deus meu, queria ter um buraco para me esconder.É que não ha defesa que resista.

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