O ano de 2019 começa com uma das promessas de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro sendo colocada em prática: a extinção do Ministério da Cultura e alocação do setor em uma secretaria do novo Ministério da Cidadania, que também englobava esporte e desenvolvimento social.
Em São Paulo, notícias sobre novidades no ProAC ICMS e, após o anúncio de possíveis demissões e fechamento de polos do Projeto Guri, o então governador de São Paulo, João Dória, voltou atrás e anunciou que aplicaria integralmente os R$ 94,7 milhões previstos no orçamento para a iniciativa.
Em março, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que a Ancine suspendesse o repasse de recursos públicos para o setor audiovisual, por conta de um processo de auditoria do Ancine+Simples.
Em abril, o Ministério da Cidadania divulgou as alterações na Lei Rouanet, que passaria a ser chamada de Lei Federal de Incentivo à Cultura, com novo site, nova logomarca e redução do teto, de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão por projeto.
Em paralelo aos debates sobre o futuro da cultura no governo Bolsonaro, o protagonismo feminino na cultura seguia em pauta. Em agosto, portaria do Ministério da Cidadania suspendia por 180 dias os termos do Edital de Chamamento das Tvs Públicas com recurso do Fundo Setorial Audiovisual, lançado em 2018. Enquanto isso, em São Paulo, pesquisa da FGV revelava que o teatro musical havia movimentado R$1 bilhão na capital paulista em 2018.
Em novembro, o diretor de teatro Roberto Alvim assumiu a Secretaria Especial de Cultura, e na sequência fez duros ataques às artes no Brasil em discurso durante reunião anual da Unesco. No mesmo mês, o presidente Jair Bolsonaro transferiu a Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo.
Em dezembro, pesquisa divulgada pelo IBGE apontava que o setor cultural ocupou 5,2 milhões de pessoas em 2018, ao mesmo tempo em que Roberto Alvim anunciava que teto da Lei Rouanet subiria para R$10 milhões, mas somente para o teatro musical, norma publicada antes do final do ano.
Como destaque do Cultura e Mercado em 2019, republicanos artigo de Natalie Assad Feller sobre economia colaborativa, assunto que a cada ano conquistava mais espaço.
O que é Economia Colaborativa?
Por Natalie Assad Feller
Publicado originalmente em 30/09/2019
Fui convidada pela Dani Torres para escrever sobre Economia Colaborativa para o Cultura e Mercado. Já dou aulas de Crowdfunding no curso de Captação de Recurso e minha ideia é expandir o conceito, e apresentar as outras ferramentas do setor. Iniciei meu “mestrado” em Economia Colaborativa ainda criança, aos 4 anos, quando minha irmã mais nova nasceu. Foi aos trancos e barrancos que compreendi que era mais legal ter alguém para brincar junto e que as broncas coletivas, eram menos duras. Que os bons momentos, quando compartilhados, ficavam melhores. E que a dor, na verdade, era dividida. A equação era, sempre, positiva.
Em 2012, junto com outras 5 pessoas, lancei meu primeiro empreendimento colaborativo, o Partio. Uma plataforma de financiamento coletivo focado no mercado cultural e de educação. Em 2014, recebi o prêmio Empreendedora do Ano pelo programa Criativar aqui da casa, realizado em parceria com o Santander. Ganhei uma bolsa de estudos em Babson College, onde completei o Entrepreneurship Program. Recentemente, o Partio se transformou em um bureau para desenvolvimento de plataformas de crowdfunding para institutos, empresas e projetos.
Este ano, lancei meu novo negócio dentro da economia colaborativa, o Ene Consultórios. É um espaço de coworking para profissionais da área da saúde. Sou apaixonada por empreender soluções colaborativas e inovadoras que geram renda e inclusão. Vou escrever quinzenalmente sobre o que aprendi nestes últimos anos e todas as tendências do setor. Espero que gostem :)
O que é economia colaborativa?
Problemas sociais e ambientais, desigualdade, desemprego e outras situações desencadeadas, em parte, pela forma como o consumo se dá em todo o mundo, motiva muitas pessoas a agirem diferente. Entre as mudanças, está o modo como realizam atividades diárias.
Dessa forma, atitudes corriqueiras, inclusive, associadas ao consumo de bens e serviços, como alugar uma sala de escritório para trabalhar, por exemplo, deram espaço a uma nova perspectiva. O espaço é ainda alugado, mas, não só para você, pois há outros profissionais.
Assim, é possível trocar experiências e crescer juntos. Esse e outros exemplos possuem como ideia central a de colaborar e por uma questão econômica também. Afinal, colaborando, o custo para cada pessoa é menor, ou seja, o dinheiro é melhor utilizado.
De modo semelhante, existem diferentes aplicativos, onde é possível compartilhar veículos, por meio de caronas; hospedagem, colocando à disposição um quarto vago; entre outros cases de sucesso. Todas essas ideias integram a economia colaborativa.
No entanto, o conceito de colaborar já era aplicado nos negócios muito antes do surgimento da internet. A questão é que, agora, é possível ser colaborativo de forma mais ampla, até mesmo mundialmente, por meio de plataformas e outras ferramentas online.
Porque investir na economia colaborativa?
A partir do surgimento de um modelo alternativo de consumo reúnem-se dois preceitos fundamentais: economia e colaboração. Não se trata apenas de ter um comportamento novo, mas sim, de inovar através do mercado, com modelos diferenciados de negócios.
Isso é ainda o resultado de um mundo, cada vez mais, tecnológico. Embora as vantagens da tecnologia sejam imensuráveis para a saúde, transporte, educação, segurança e demais setores da economia, pode levar ao isolamento.
Porém, com o compartilhamento e a troca que a economia colaborativa possibilita, consegue-se reduzir os “efeitos colaterais” da vida moderna. Além disso, se faz uso dos recursos naturais de modo mais inteligente, prolongando a vida útil dos bens.
Outra vantagem é incluir mais pessoas no círculo de consumo, já que garante acesso a produtos e serviços com melhor custo benefício. Em termos de negócio, é bastante lucrativo, pois muitos exigem apenas o uso da internet.
E, hoje, usar aparelhos móveis é um hábito comum a grande parte da população. No Brasil com os seus mais de 120 milhões de consumidores conectados, fica atrás só dos Estados Unidos, Índia e China.
Dados do setor da economia compartilhada?
Para ter uma noção de como se trata de um nicho de mercado que já possui importância significativa em termos financeiros é possível conferir os seus números. Segundo a consultoria britânica PWC, a economia colaborativa movimenta US$ 15 bilhões, por ano, no mundo.
No Brasil, 40% dos entrevistados pelo Movimento Cidade Colaborativa afirmaram que curtem uma ou mais páginas da web relacionadas à economia colaborativa. Além disso, 40% dos brasileiros já se hospedaram em casas de terceiros ao invés de hotéis.
Esse levantamento feito pelo CNDL e SPC Brasil. Esses números são o reflexo do número da quantidade de empresas no setor. O Sistema Firjan realiza a cada dois anos o Mapeamento da Indústria Criativa.
Em 2016, mais de 80% dos trabalhadores criativos no Brasil pertenciam ao setor de consumo e tecnologia da economia colaborativa. Entre os estados com mais profissionais estão o Rio de Janeiro e São Paulo, seguidos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Como iniciar na economia colaborativa?
Mesmo que seja um nicho de mercado que exige muita criatividade, quem deseja apostar nesse segmento deve entender que se trata de um negócio com algumas semelhantes com as empresas tradicionais. Nesse sentido, exige-se muita seriedade e conhecimento.
Assim, é importante fazer um plano de negócios, identificando criteriosamente o seu produto ou serviço, bem como público alvo e concorrência. Vale ainda ter um diferencial e não apenas copiar uma ideia nova.
Custos fixos baixos e parcerias também caracterizam o setor. Então, é preciso usar bem o orçamento e economizar com as parcerias que podem contribuir com ambos. Para se inspirar, confira a seguir exemplos de empresas que usam a economia colaborativa em seus negócios: Airbnb; Uber; Tem Açúcar; Mercado Livre; Enjoei; BLIMO; Ene Consultórios / We Work; Catarse / Partio; Banco de Tempo.
Além disso, muitos agentes culturais têm usado esse novo formato de negócio para financiar sua arte e seus projetos, bem como otimizar custos, como veremos nos artigos a seguir.