“A maior expressão da sagrada mitologia capitalista, talvez, advenha da sacralização da aparência em detrimento da essência. Vende-se a imagem antes do bem culturalmente confeccionado.”

Há muito, desde talvez os povos mais primitivos, cultura e mito confundiam-se num todo, cada qual ostentando, a sua maneira, a defesa de uma abordagem conceitual própria. Todavia, do mito provêm as principais instituições hoje enraizadas como importantes construções culturais contemporâneas. Ocorreu desta forma com as religiões, com a política, com o esporte, com o labor, entre tantas outras manifestações da nossa cultura, vista a partir de uma perspectiva supra nacional.

O trabalho, por exemplo, organizou-se em torno de um calendário baseado em mecanismos intuitivos, para os quais a necessidade dos deuses prevalecia à dos reles mortais. Assim chegamos ao modo de produção capitalista como, num só tempo, resultado e fábrica de mitos.

A maior expressão da sagrada mitologia capitalista, talvez, advenha da sacralização da aparência em detrimento da essência. Vende-se a imagem antes do bem culturalmente confeccionado. O que, por si só, parece-nos uma excrescência. Algo que ainda não existe e pode até não vir a existir, é manipulado mercadologicamente de modo a preparar-se o terreno para sua possível existência. Vai-se introjetando, particularmente nos mais jovens, o conceito de modismos culturais. O que está em voga não tem necessariamente que atender a uma premência natural de um ser, com posturas e gostos dotados da livre escolha, mas a um axioma pseudo-consensual de que aquilo, seja lá o que for, é o melhor para ele.

Assim, não importa se eu tenho sede ou não, mas, se eu pretendo aparentar jovialidade, tenho que tomar determinada marca de refrigerante. Primeiro, formula-se o conceito para apenas, a posteriori, inserir-se o produto propriamente dito.

Indústrias e armazéns trocam as fórmulas e os fornecedores do dia para a noite, apenas para se adequarem aos “novos tempos”, ou seja, um novo sabor ou embalagem cujo público alvo exige, antes mesmo de ter ciência daquilo que está a exigir (muitas vezes antes mesmo de ter idade para fazer qualquer tipo de exigência).

Em se tratando de mitos, aparências e essências, não se pode deixar de levar em consideração o impacto titânico dos mitos provenientes dos veículos de comunicação de massa. Muitas vezes, expostos como grandes vilões, formam, na realidade, apenas mais um elo da cadeia produtiva.

Os veículos, embora importantes disseminadores de idéias, não podem responder por uma totalidade que se inicia na mentalidade estacionária das massas, passando por uma omissão governamental relevante e uma arraigada condescendência dos núcleos familiares.

O mito, compreendido como o derivativo de um mecanismo de sujeição de um ente biológico a um modo de pensar orientado pelo mercado, não se constrói do nada. Mas se coaduna com níveis de conhecimento impregnados no ideário comum a diversas unidades culturais. Carrega, em verdade, algo de sugerido, não unilateralmente pela indústria do marketing, mas encontrado em todas as respostas de um determinado meio onde o fator de socialização é externo ao próprio meio. Em terras pátrias, por exemplo, assistimos sempre a material de fora das nossas fronteiras ser veiculado pelas mais diversas mídias, enquanto, por outro lado, os elementos estruturais como a escola e a família caem para segundo plano, como modeladores do caráter de um indivíduo. Embora haja uma conexão substancial entre os dois fatos, a família parece sucumbir a tudo de maneira alheia e desarticulada.

Os veículos de massa passam a absorver a atenção do seu público justamente quando este não possui uma opinião formada sobre o assunto. Há, portanto, a preponderância aqui de uma tendência a imitação. Em outras palavras os mitos apenas ganham espaço onde não há resistência ou, por outro enfoque, onde não existem alternativas.

Eis o pulo do gato, esses veículos, produtores de uma mitologia, limitam as alternativas, impondo este ou aquele produto, como único e exclusivo. Deformando, portanto, o conceito de diversidade cultural e contaminando determinado ente social com insegurança. Uma insegurança, por sua vez, que tem sua origem nos nortes e nas bússolas que adquirem as populações ao se afastarem de suas próprias tradições seculares.

Um ente social, que não sabe para onde vai, é, por conseguinte, candidato primevo à deturpação de seus valores mais autênticos em prol de um lucro fácil e, geralmente, desovado em outras paragens. O mito produz outros mitos, os quais vão respaldar produtos finais de qualidade duvidosa e, principalmente, sem responsabilidade social.

A saída é a participação da população na conscientização de sua parcela mais receptiva aos mitos, adotando uma cartilha que dê vazão ao seu próprio vocabulário no lugar de construções tipificadas e sem identidade. Aquilo, que deveria ser tarefa primordial do aparelho estatal de educação, passa por uma preocupação de cidadania. Em poucas palavras: mudar o canal ou simplesmente desligar.

Marcos André Carvalho Lins


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Marcos André Carvalho Lins é bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante.

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