Lucho Molina
Na música Filosofia do Samba, Candeia (1935 – 1978) diz que “cego é quem só vê aonde a vista alcança”. Para ele é preciso enxergar o tema na lembrança e não apenas no que está diante do nariz. Assim, tenho me esforçado para tentar compreender o que está se passando na cabeça do ministro Juca Ferreira, da Cultura, para manter sigiloso o anteprojeto de lei que trata da atualização da legislação do Direito Autoral no Brasil, enquanto é urgente e extremamente necessário tratar do assunto nesse momento de incalculáveis possibilidades culturais, sociais, econômicas e políticas criadas pela internet e pelas tecnologias digitais.

A proposta do Ministério da Cultura (MinC) para alteração da Lei 9.610/98 teria sido elaborada aproveitando parte das ideias colhidas em uma série de eventos realizados em 2008. O pior é que fragmentos do documento ficam vazando e causando uma desagradável confusão, que só favorece a concentração das novas corporações transnacionais do comércio de conteúdos, que estão transformando a arte, a literatura, enfim, os bens culturais em commodity, em uma replicação descarada do que tem acontecido com a soja, o minério de ferro e a carne bovina.

O que chama a minha atenção é a ausência, nas pautas dos fóruns e seminários promovidos ou apoiados pelo MinC para discutir Direito Autoral, dos três principais problemas que precisam ser solucionados em favor do interesse público envolvido nessa questão: 1) o aumento do controle da cultura pelo mercado, 2) qual o papel do Estado diante desse fato e 3) o que os autores propõem para a adequação da legislação de Direito Autoral na sociedade digital. Na ânsia de obter legitimidade à sua proposta, que não diz claramente qual é, o governo federal acaba fomentando a desavença entre autores e usuários de cultura.

Na semana passada, nos dias 9 e 10, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) realizou em São Paulo, com patrocínio do Ministério da Cultura, o III Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, com o objetivo de analisar as propostas de revisão da Lei de Direitos Autorais. Por estar montada na mesma base inconsistente dos encontros que ainda misturam Direito Autoral com patentes industriais, programas de computador e domínio na internet, o encontro não atendeu os objetivos pretensos e o MinC, que pretendia usar esse congresso como plataforma para a revisão da Lei 9.610/98, se viu obrigado a adiar sua “consulta sobre Direito Autoral”.

Por não estar apoiada no debate essencial, a questão do Direito de Autor no Brasil torna-se cada vez mais complexa e temerária. A falta de diálogo franco entre governo e sociedade dá a impressão de que o problema é a tecnologia e não o seu uso; de que o problema é o terrorismo da criminalização dos consumidores e não uma nova forma de remuneração dos criadores de conteúdos; de que o problema é o compartilhamento e a cópia e não a mais valia do chamado capitalismo cognitivo… E por aí seguem os transtornos entre o público e o privado, o individual e o colaborativo, o comum e o particular, o mercado e o Estado, o republicano e o fascista.

O MinC quer impor o novo sistema de copyright dos Estados Unidos e não coloca abertamente as razões que o levaram a optar por esse sistema, que é o Creative Commons, mesmo antes de lançar o Fórum Nacional de Direito Autoral, o que fez os burocratas do ministério se apegarem tanto a essa solução do mercado de conteúdos que taparam os ouvidos para qualquer alternativa de facilitação do acesso aos bens culturais de cunho sociopolítico e cultural. E fica difícil aproveitarmos o melhor do nosso caráter de genuína sociedade aberta para potencializar a nossa oralidade internética e transformar a criatividade mestiça brasileira em desenvolvimento.

Assumir que o culpado é o autor, antes mesmo do estabelecimento de um marco legal para o uso da internet não parece uma boa política ministerial. Todos os países desenvolvidos souberam valorizar seus autores na construção do sentido de destino. O que o MinC deveria estar fazendo era melhorar as condições de proteção autoral para a dinamização da cultura brasileira no diálogo global e não ficar forçando a barra para alterar a lei simplesmente com a finalidade de adequá-la aos novos modelos de negócios do pós-neoliberalismo. É uma contradição ver um ministério da cultura colocando os interesses econômicos das corporações transnacionais acima dos interesses sociais.

Os autores precisam do apoio do Estado para se libertarem dos contratos leoninos forjados pelos monopólios da indústria cultural tradicional e do sistema corrompido das entidades de arrecadação e distribuição de Direito Autoral, mas necessitam também dos órgãos oficiais de cultura para não serem tragados pela sanha dos grandes portais, provedores e vendedores de conteúdos, sejam os que operam nos canais de venda da internet, sejam os que estão comprando nossos catálogos para neutralizar a produção brasileira e intensificar a “descultura” do best-seller, do hit jabaculê, da arte sem alma das anti-galerias e do falso estratagema de ascensão, simbolizado pelas criaturas famosas dos vídeos efêmeros lançados no ciberespaço.

Afinal, uma coisa é ampliar a difusão do conhecimento, valorizar a produção colaborativa e democratizar o acesso a produtos e serviços culturais; e outra coisa é favorecer a manipulação das hegemonias de influência social, reforçar os planos de estímulo a “livres” fornecedores de mão de obra gratuita e contribuir para o empobrecimento da riqueza coletiva, com o fortalecimento da massificação das tendências de consumo, hábitos e atitudes.

Por ocasião do congresso da UFSC a caixa-preta do MinC deixou escapar a intenção de criar o Instituto Brasileiro de Direito Autoral (IBDA) e o que poderia ou poderá ser uma festejada boa ideia fez foi arrepiar todo mundo por conta do clima de descrédito estabelecido pela falta de transparência do Ministério da Cultura. É terrível essa sensação de ambiguidade do governo, no seu suposto atendimento aos interesses das corporações do mercado de conteúdos, sobretudo daquelas que trocam mensagens com os consumidores em canais diretos, como os negócios estruturados na rede mundial de computadores e as empresas de telas móveis.

O Direito Autoral é um direito incômodo no crescente e cada vez mais promissor comércio de bens renováveis e conectáveis. Baixar custos e aumentar margens de lucro faz parte dos esforços naturais de toda atividade empresarial. O que não tem mais sentido é o Estado continuar servindo de capacho do mercado. Asfixiar os autores é uma maneira de abrir mão da formação de consciência crítica, normalmente assumida por artistas, escritores, acadêmicos e pelos políticos que formulam, para entregar ao bel-prazer das fórmulas de felicidade homogeneizante do consumismo e sua cultura de karaokê.

Os urdimentos de meios excepcionais como a internet contribuem efetivamente para a mudança de noção do viver e devem ser utilizados para reverter o caminho de degradação da vida e das relações humanas, que vêm sendo cruelmente professado pela lei da vantagem, pela esperteza e pelo dilacerante senso de que “quem for podre que se quebre”. Diferentemente da sociedade da performance, na qual todo espaço é palco e para ser autor basta uma simples revelação de privacidade, na sociedade da diversidade cultural, onde os autores inspiram a interpretação do mundo, todo palco é espaço de expressão da dignidade humana.


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4Comentários

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 20 de novembro de 2009 @ 9:11 Reply

    Flavio
    Confesso que não entendi bem o seu texto, ainda assim, me arriscarei, mesmo correndo o risco de cometer uma indelicada varada n’água. Mas também não me culpo tanto, pois na certeza de que Noel também falou em alguns momentos “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou”, o cidadão que tem como profissão a criação artística, está, de certa forma, no meio de uma água turva. Tem muita gente preocupada excessivamente com o acesso livre e, como bem disse Álvaro Santi, “Se o acesso é impossível sem o hardware, o preço dos computadores e da banda larga são os primeiros obstáculos, mas curiosamente não ocorre a ninguém pedi-los de presente pra indústria. Já a música e o filme, como estão ao alcance da mão… Aliás, isso sim é contradição: para que reivindicar acesso a algo cujo valor não reconhecemos?”

    Sigo nessa mesma linha, pois é ela que pauta a minha sobrevivência. De repente sinto que está em construção um novo constrangimento nesse, digamos, milagre com o santo dos outros. Os altruístas com o bem do próximo, lançam livros, jogam manifestos para o liberou geral, o ninguém é de ninguém, tudo é um grande carnaval, tudo pode e pode tudo. Aí, num repente você tem uma vida toda marcada com senhas, muros, códigos de barra, Cerasas interligadas pela intranet do grande sistema. O cidadão que não paga em dia as suas contas, transforma-e num criminoso mundial, sem direito a polêmica no STF. Mudo, esmagado, solitário contra o gigantismo de um sistema que não permite que os pobres ultrapassem os muitos muros construídos depois da simbologia libertária “da queda do muro de Berlin”. Tijolo sobre tijolo no quadrado mágico, o cidadão, o artista, o comum, o horizontal se vê no meio de uma passeata de grandes negócios comanda por uma ainda secreta intenção de pegar a sua musiquinha feita na hora do banzo por falta de condições de sobrevivência e enfrenta a “Marcha da Família com Deus para a Liberdade na rede”. Os cartazes bem ao estilo de 1964, clamam pelo bem-estar do povo e nos enfiam duas décadas de ditadura sangrenta, torturas e desaparecimentos. A primeira faixa do cartaz me assusta, “liberdade no dos outros é refresco”.

    Confesso, Flavio, que acho essa febre de altruísmo um grande teatro, uma construção salvadora saída dos grandes grupos para ter acesso e uso da matéria-prima da maneira que convier. Porque a história nos conta que as conquistas dos colonizadores são feitas por grandes massacres, que a propaganda em nome da liberdade foi a grande aliada dos maiores fascínoras da história. Então, peço-lhe gentilmente que, parte a parte da sua prestimosa contribuição nos traga efetivamente, até mesmo em capítulos, como a coisa funciona em cada item apresentando aquela famosa transparência no custo/benefício para o cidadão artista que também é sociedade e que paga por cada por cada mísero grão de arroz que põe em sua mesa.
    Abraços.

  • HELENA BEATRIZ R. PEREIRA, 22 de novembro de 2009 @ 16:55 Reply

    Sem comentários, porque não são enviados quando se fala a verdade. Helena.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 23 de novembro de 2009 @ 8:36 Reply

    Flavio

    Gostaria de saber, nesse caso, como ficariam as logomarcas, seriam livres? Coca-cola, Mc Donald e etc., circularão livres? Assim como música, filme e todos poderão usar da maneira que bem entenderem? Todas essas questões precisam estar muito claras. O portal que utiliza gratuitamente as minhas músicas vai liberar a sua logo pra eu fazer uso dela da maneira que me convier ou as marcas e patentes ficarão protegidas? Porque logo é arte. Qual é o limite dessa liberação?

  • Flávio Paiva, 27 de dezembro de 2009 @ 11:52 Reply

    Prezado Carlos Henrique, acho que estamos rumando e remando em busca do mesmo horizonte. Li os seus questionamentos como afirmação de olhar. A água está realmente turva, como você bem realça, e quanto mais turva, mais desfavorável a quem faz cultura limpa. Acho que os autores deveriam estar mais indignados, mais mobilizados e também mais abertos à busca das melhores soluções diante da complexidade que o tema impõe. Um abraço, meu caro. Até já. Flávio Paiva.

    ———————-

    Prezada Helena, fiquei curioso para saber quais os comentários que você deixou de enviar por não querer falar a verdade. Se a conversa é franca, honesta e respeitosa, não há verdade inconveniente. Felicidades. Até já. Flávio Paiva.

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