Quando alguém vai gravar um CD de música é necessário tirar o ISRC, o Código Internacional de Normatização de Gravação, uma espécie de CPF digital da composição. Com esse código, o fonograma, que é a música gravada, passa a ser identificado na extensão dos seus titulares de direitos autorais e conexos, dentre outras informações, do tipo procedência, gênero e data de gravação original. Assim, toda vez que uma música é executada, a leitura do ISRC oferece o nome dos seus titulares e até a percentagem dos seus direitos.

No Brasil, o ISRC pode ser emitido por qualquer uma das nove associações de autores e essas associações devem encaminhar o relatório de cadastro de fonogramas ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, Ecad. Com um banco de dados informatizado e farto, o Ecad tem tudo para fazer um controle eficiente da execução pública, inclusive no que se refere às canções apresentadas em shows e eventos, com base nos borderôs fornecidos pelos promotores, na hora de pagar o Direito Autoral.

Do mesmo modo que emitem o ISRC para fonogramas, as associações são responsáveis também pela emissão do ISWC, o código de referência internacional para a identificação de obras musicais, não necessariamente gravadas. De sorte que o Ecad tem em mãos todo um ferramental que o torna apto a administrar a arrecadação e a distribuição dos direitos autorais dos titulares vinculados às suas associações filiadas. Essa é a teoria, pois na prática há dois graves problemas nesse esquema: um de obrigatoriedade na arrecadação e o outro de falta de transparência na distribuição.

No meu artigo, intitulado “Ana de Hollanda e o Direito Autoral” (DN, 30/12/2010), replicado no portal Cultura e Mercado (24/02/2011), defendi que algo precisa ser feito nessa dissonância administrativa, para que os autores não fiquem à mercê do cartel do Ecad, montado em um sistema de excelência tecnológica e policialesca para arrecadar, mas cheio de corpo mole e de “deficiência prática” na hora de distribuir. A superintendente executiva do Ecad, Glória Braga, considerou o meu posicionamento uma “infeliz declaração” no artigo “Resposta do Ecad a Flávio Paiva”, publicado naquela revista blog (14/03/2011).

Ela ressalta que “o Ecad não pode ser considerado um cartel, pois as atividades de arrecadar e distribuir direitos autorais não são de natureza econômica, já que a música não pode ser caracterizada como um bem de consumo a ser ditado pelas regras de concorrência”. Eu diria que apesar de as associações que mantém o Ecad serem entidades sem fins lucrativos, elas existem por motivação econômica e, por terem o monopólio da arrecadação e da distribuição dos direitos de terceiros, inclusive de não associados, guardam a característica de cartel.

Em sua réplica ao meu artigo, Glória Braga argumenta que se o artista filiado a qualquer das associações “não estiver satisfeito, seja com a política adotada seja com a presidência de sua associação, que busque outra opção”. Como buscar outra opção se o sistema de gestão do Direito Autoral relativo à execução pública tem controle exclusivo do Ecad? Os autores que não aceitam essa ingerência compulsiva precisam de alternativas legais. Talvez seja possível criar um selo que distinga as criações musicais controladas pelo Ecad, de modo que as demais possam construir outras trilhas.

Desta forma, muitos artistas brasileiros poderiam se livrar do recolhimento do pagamento de direitos autorais ao apresentarem suas próprias obras. Considerando que do jeito que está a certeza de não receber perde de longe para a certeza de ter que pagar, alguns recorrem a termos de “renúncia”, mas é tão complicado convencer o Ecad a aceitá-los que em muitas ocasiões sai mais “barato” pagar e esquecer que se pagou. Em sua resposta, a executiva do Ecad conclui que “sem nenhuma supervisão do Governo, essa estrutura distribuiu, em 2009, R$ 318 milhões para 81.250 criadores de música”. Esqueceu de informar que no mesmo ano a entidade reteve R$ 65 milhões na rubrica “taxa de administração”.

Com o potencial de recolhimento de direitos autorais por parte de algumas empresas do mercado de mídias, provedores e buscadores digitais, provavelmente serão registrados aumentos na arrecadação e na distribuição. Nesse cenário surge o fantasma da falta de transparência no repasse dos recursos aos titulares. A superintendente executiva do Ecad diz que “todas as informações sobre o trabalho da entidade estão disponíveis no site www.ecad.org.br”, porém o que de mais próximo com transparência se vê no portal da entidade é um ranking de artistas com maior rendimento.

O Ecad não teria perdido sua atração de entidade de autores, caso tivesse trocado a política de conluio com os majoritários pelo desenvolvimento de uma política de respeito aos minoritários. Tomando como base os números oficiais do próprio Ecad, “que representa atualmente os direitos autorais de execução pública de 342 mil titulares de música”, menos de 24 por cento dos autores recebem qualquer repasse da entidade, numa total falta de senso de prestação de contas, de noção de equidade e de compromisso com os associados. Somente a adoção de boas práticas de governança salvaria o Ecad dessa crise de desconfiança na relação com as suas partes interessadas.

Entre os defensores do Ecad em sua forma atual é comum ouvir a queixa das dificuldades de receber o pagamento de quem tem o dever de pagar Direito Autoral e não paga. Muitos usuários já estão pagando a empresas de comércio de conteúdos pela internet para ter acesso a bens intelectuais, mas as parcelas destinadas a direitos autorais não estão chegando aos criadores. Usam essa dificuldade de arrecadar para justificar a dificuldade de “fazer justiça distribuindo migalhas, por mais sofisticado que seja o sistema de distribuição”. Acontece que essas migalhas têm dono e, como não existe uma regra clara da destinação desse dinheiro alheio, o Ecad perde força entre os autores e, consequentemente, na sua luta para arrecadar.

O raciocínio de que é praticamente impossível distribuir valores extremamente insignificantes tem sentido. Todavia, esse juízo não vale para quem se sente ultrajado em seu direito. Imagino que se fosse delimitada pelo menos uma fronteira para a viabilidade dos autores receberem os repasses devidos pela execução pública de suas obras, o mal-estar da falta de transparência seria reduzido. Neste caso, a prestação de contas com os minoritários somente seria efetuada quando o interessado alcançasse um determinado valor a receber. Para isso, seria necessário que o autor de obras de baixa freqüência de execução pudesse acessar no portal do Ecad a evolução do seu ganho.

O fato de qualquer autor cadastrado em qualquer das associações que constituem o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais poder acompanhar, por um sistema de busca elementar, a movimentação financeira resultante do seu trabalho já seria um grande avanço na aproximação do Ecad com os criadores que lhe dão razão de ser. Infelizmente o problema não é de cunho tecnológico, mas de ausência de discernimento por parte dos controladores da instituição. Enquanto a sociedade reclama a flexibilização de obras para fins de uso pessoais e educacionais (não comerciais, não publicitários, não religiosos e não políticos) a direção do Ecad fecha-se em seu despotismo e apenas diz que não é bem assim.

*Publicado originalmente no Diário do Nordeste


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9Comentários

  • henrique iwao, 26 de março de 2011 @ 23:22 Reply

    olá, só queria adicionar um fato, não para defender uma opinião mais radical, mas apenas para reforçar o sentimento de ser refém do ecad e das normas que ele aplica.

    toda vez que toco músicas minhas, ou dou permissão para outros o fazerem, em espetáculos de teatro ou dança, sou obrigado a sair da minha casa, ir até o ecad, pedir permissão para dar permissão ao ecad (cessão grande direito, lista de músicas de show, etc).

    eles então avaliam se eu estou apto a dar autorização para mim mesmo (no caso de um show meu com obras minhas) ou para alguém cuja autorização eu mesmo garantiria para o resto da existência do universo. esse processo demora 3 dias.

    detalhe: eu tenho de voltar lá e renovar a autorização para peças de dança, a cada nova temporada.

  • Wagner, 27 de março de 2011 @ 12:22 Reply

    Olá,

    Além do comentado no texto, quero ressaltar a bandalheira que é o sistema de avaliação e cobrança do ECAD.
    Há um tempo atrás eu e vários amigos anualmente promoviamos um baile familiar, uma reunião de amigos de amigos, pois bem, em todos os bailes promovidos pagamos o ECAD através de fiscal que exigia o pagamento em dinheiro. O estranho é que em todos os anos o baile foi idêntico ao do ano anterior, mas a cobrança do ECAD não. Tudo dependia da negociação que começava com um valor escorchante e ia reduzindo na medida em que mostravamos que o baile não aferia lucro. Ficava entre duzentos e trezentos reais, mas iniciava em dois ou três mil reais.
    Como os autores podem confiar numa instituição tão séria como o ECAD?
    Que tem representantes que iniciam uma negociação em dois ou três mil e acabam fechando o valor entre duzentos e trezentos reais?
    Detalhe, o pagamento em dinheiro era obrigatório.
    O ECAD não dispõe de sistema de cobrança?
    Até quando o governo brasileiro vai corroborar com essa ingerência?
    Creio que a solução é a extinção do ECAD e a criação de um outro órgão, vinculado a outro ministério, provavelmente o da fazenda, onde temos pelo menos o sistema invejável da receita federal.
    Que tal entregarmos a gestão dos direitos autorais para a receita federal?

  • Júlio Coelho, 27 de março de 2011 @ 13:23 Reply

    “fazer justiça distribuindo migalhas, por mais sofisticado que seja o sistema de distribuição”. Realmente, a migalha tem dono!

  • Elizabeth, 27 de março de 2011 @ 15:14 Reply

    Sou mais uma produtora com péssimas referências do Ecad, como pode uma instituição sem fins lucrativo não apoiar outras ações de instituições do mesmo gênero, para se ter uma iéia das aberrações do Ecad, certa vez, numa feira de artesanato beneficiente dentro de um salão paroquial, cujo a arrecadação era para auxiliar uma maternidade na finalização da única UTI Neo Natal da pequena cidade, um fiscal do Ecad “mandou” retirar uma caixa de som, na verdade uma caixa que poderia ser chamada de caixa de abelha,com mínima potência ligada a um
    rádio gravador, cuja finalidade era ter som ambiente e discreto.todos da feira pediram imploraram mas a dureza do fiscal foi.. Seria por isso que é considerada uma das melhores empresas para se trabalhar. Depois deste entrave fui procurar o escritório do Ecad, recebi os livretos explicativos, fiz muitos outros eventos, inclusive com nomes mais conhecidos da música brasileira, e confesso mudei meu foco para produção de eventos de arte, não existe restrições, se o artista quiser colocar sua arte dentro de um banheiro público não vai ter Ecad
    cobrando, se o artista quiser doar sua obra para quem quer que seja,
    não tem Ecad cobrando e se o artista vai se apresentar em público com o
    seu produto, graças a Deus NÃO TEM O ECAD COBRANDO. A pergunta é só podem se apresentar músico sem ter cd gavado? E ainda reclamamos da pirataria e dos dowloads

  • Camila, 27 de março de 2011 @ 18:01 Reply

    O ECAD é um absurdo. Inclusive esta matéria deve ser divulgada em maiores mídias.
    Sou atriz e prdutora artística e cada vez que me deparo com esta instituição eu e meus clientes nos sentimos realmente ultrajados.

    É uma vergonha que ultrapassa o tempo de terminar.

  • Mário Henrique de Oliveira, 29 de março de 2011 @ 11:00 Reply

    Um dia uma atriz famosa disse uma frase! Vcs não podem me pedir de graça, a única coisa que eu tenho para vender!

    Ai eu digo aos senhores, como compositor e músico que sou! Vcs não podem querer executar as obras de qualquer compositor, se isso é a única coisa que ele tem para vender.

    Eu gostaria de saber, se esses produtores de eventos fariam um evento para o sindicato dos músicos e compositores de graça, e bancando os custos de produção. Pois é isso, que um compositor faz até a obra dele chegar na ponta final. Ai sim eu vou acreditar, que está tudo certo.

    Que a forma de cobrança e distribuição que hoje é feito não é correta, muita gente sabe, mas é melhor se faezr de morto, pois interessa a muita gente, principalmente aos advogados, que recebem mais do que os autores.

    É só fazer uma pesquisa de quanto o ECAD recebeu via judicial no ano e ve quanto sobrou para os autores depois das negociatas.

    Que o ECAD está tudo errado, com ceretza está, mais vamos tomar cuidado com o que é ECAD, e o que é direito do Autor.

    É por esse direito que temos que lutar, do autor, e ao mesmo tempo com respeito ao usuário.

    MarinhoTP.

  • rubens de moraes, 2 de abril de 2011 @ 7:47 Reply

    Desculpe desapontar vocês, mas sou compositor (filiado a UBC), e a arrecadação dos meus direitos autorais vem aumentando nesses últimos anos porque o ECAD está expandindo sua área de atuação, ou seja, indo atrás de feiras, festas, buffets, etc onde minhas músicas são tocadas.
    Lembro que o ECAD tinha (ou tem ainda), problemas com as televisões, que são (ou eram) sonegadoras de direitos autorais. Pois dois meses arás eu recebi uma quantia considerável por uma canção, da qual sou um dos parceiros, que entrou para uma novela.
    Sei lá, o ECAD é o que temos e acho que o negócio é ficar em cima, de olho, pra ver se não há mutreta, mas não sairia por aí bradando e partindo do princípio que é tudo uma bandelhera. Minha experiência não é essa e muito pelo contrário.
    Outra coisa: tem muita gente que vai se apresentar com músicas próprias e “abre mão do ECAD”, através de documentos, para não onerar a casa ou teatro que convida. Acho isso um absurdo, uma prática abominável. Pelo contrário, o autor deve comunicar à sua sociedade arrecadadora do evento pra ela não deixar de ir atrás do ECAD.
    um abraço,
    Rubens Moraes.

    PS: A artista que disse ” Voces não podem me tomar de graça a única coisa que tenho para vender” foi a atriz Cacilda Becker, se referindo a distribuição de convites à amigos. Eu adoro essa frase.

  • Carlos Henrique Machado, 2 de abril de 2011 @ 11:47 Reply

    Parabéns Rubens por seu trabalho!
    Mas você há de convir que nesse universo de brabeiras do Ecad, seu exemplo é agulha no palheiro!

    A música instrumental brasileira não toca em rádio nem em TV aberta. A internet é a grande aliada dessa nova fase da música instrumental brasileira, pois divulga e avisa ao mundo que é uma das mais ricas do planeta, e que a mídia empresarial e as gravadoras multinacionais a ignoram solenimente. Temos que pensar grande, bem grande!

    Abraços, e mais uma vez parabéns por sua obra!

  • Mário Henrique de Oliveira, 3 de abril de 2011 @ 17:11 Reply

    Bem, quando eu não conheço o mecanisno de funcionamento de uma instituição, eu me calo.
    Agora, quando eu conheço! Sou prejudicado diretamente! E tenho como comprovar, o que digo! Ai o buraco é mais embaixo, e tudo o que as pessoas escrevem, dando a intender, que essa instituição é séria.
    Ou essa pessoa, se benificia dessas mutretas, ou é ingênua, e ainda acredita em papai noel.
    Porque será, que ninguém do ecad me desmentiu!

    MarinhoTP.

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